Categoria: Aulas

  • IAs e diversidade

    IAs e diversidade

    Resumo coescrito do dia 10/12/24
    por Andre Stangl

    Discussão Inicial: Estética e Viés Cultural nas

    • A aula começou com a apresentação de uma experiência de geração de imagens usando IA, em que um participante solicitou a criação de uma “anfisbena” (serpente mitológica de duas cabeças) em diferentes estilos visuais, incluindo o cordel nordestino.
    • A discussão girou em torno da tendência das IAs de reproduzirem estéticas eurocêntricas e americanizadas por padrão, mesmo quando instruídas a representar estilos regionais.
    • Foram citadas experiências em que as ferramentas aproximaram-se de estéticas brasileiras, evidenciando como a base de dados influencia os resultados visuais.

    Texto de Yuk Hui – “ChatGPT, ou a Escatologia das Máquinas”

    • Discutimos os principais pontos do texto de Yuk Hui, que apresenta uma abordagem filosófica sobre a IA a partir do conceito de escatologia tecnológica.
    • Os tópicos centrais abordados incluíram:
      • Escatologia das Máquinas: A ideia de que a IA representa o ápice de um processo de automatização técnica, levantando questionamentos sobre o fim da criatividade humana frente à automação.
      • Antropomorfismo Tecnológico: O hábito de projetar emoções e intenções humanas em sistemas de IA, muitas vezes criando ilusões de consciência e profundidade subjetiva.
      • Crítica à Integração da IA: Questionamos a crescente dependência de IA em processos criativos e culturais, refletindo sobre a perda de controle autoral e as implicações para a originalidade e a autoria.

    Dinâmica Prática – Criação de Personagens e Diálogos com IA

    A segunda parte da aula foi dedicada a uma atividade prática em que os alunos criaram e simularam interações entre personagens usando IA, aplicando os conceitos teóricos discutidos anteriormente.

    Criação de Personagens:

    • Cada aluno desenvolveu personagens ficcionais com características detalhadas, motivações e dilemas bem definidos.

    Diálogo entre GPTs:

    • Três instâncias do ChatGPT foram configuradas para representar os personagens criados, cada uma com ajustes distintos para refletir personalidades e motivações específicas.
    • Os alunos testaram interações e diálogos entre os personagens, explorando como pequenas variações no prompt influenciavam o desenvolvimento narrativo e as tensões dramáticas.

    Observações Críticas:

    • Notou-se que a IA tende a suavizar conflitos e buscar resoluções pacíficas, mesmo em cenários de tensão narrativa.
    • A falta de complexidade emocional e os padrões previsíveis evidenciaram como as bases de treinamento influenciam a produção textual.

    Reflexões Finais e Conexões Críticas

    • Autoria e Coescrita:
      • A experiência de coescrita mediada por IA evidenciou tanto o potencial quanto os desafios de compartilhar a autoria com um sistema automatizado.
      • Discutiu-se o papel da IA como catalisadora criativa, oferecendo sugestões úteis, mas ainda dependente da intervenção humana para desenvolver complexidade narrativa.
    • Limitações e Viés Algorítmico:
      • Mesmo com configurações personalizadas, a IA apresentou padrões normativos e simplificados, limitando a diversidade narrativa.
      • Foi ressaltado como os datasets e algoritmos refletem contextos culturais específicos, muitas vezes reforçando valores hegemônicos.
    • Encerramento e Desafios Futuristas:
      • A aula concluiu com o incentivo a continuar explorando o potencial das IAs como ferramentas de experimentação e crítica, buscando formas de utilizar esses sistemas para subverter padrões e expandir as fronteiras da criação artística.
      • Propôs-se o uso de prompts mais sofisticados e diversificados para testar os limites da ferramenta e fomentar maior complexidade nos resultados criativos.
  • Algoritmos e Estética

    Algoritmos e Estética

    Resumo coescrito do dia 05/12/24
    por Andre Stangl

    1ª Parte: Discussão Teórica e Reflexões Filosóficas

    A primeira parte da aula aprofundou o debate sobre a relação entre modelos de linguagem, contexto e filosofia da linguagem, destacando como a IA reflete e limita certos padrões culturais e interpretativos. A discussão foi conduzida de forma interdisciplinar, conectando conceitos técnicos com abordagens filosóficas e sociais.

    Modelos de Linguagem e Contexto:

    • Exploramos detalhadamente o funcionamento de modelos de linguagem como transformers e mecanismos de coatenção, explicando como essas arquiteturas processam grandes volumes de texto para interpretar palavras e frases com base em contextos.
    • Essa abordagem foi comparada com as ideias de Wittgenstein, especialmente o conceito de que o significado de uma palavra é definido pelo uso social e contextual, e não por uma relação fixa com objetos.
    • A reflexão aprofundou-se ao considerar as limitações de IAs ao interpretar expressões regionais, gírias e neologismos, destacando o desafio de representar linguagens culturalmente complexas.

    Texto de Gisele Beiguelman: IA como Fármaco

    • A aula focou na análise do texto de Gisele Beiguelman, que explora a IA sob o conceito de fármaco, inspirado em Platão e Derrida: ao mesmo tempo remédio e veneno. Artigo completo (link) 
    • Foi discutido como a IA, ao ser desenvolvida e programada por humanos, carrega viés antropocêntrico e colonial, reproduzindo estruturas de poder e exclusão.
    • A metáfora do fármaco também destacou a dualidade da IA: ela amplia a criatividade, mas pode restringir ou distorcer a diversidade cultural, especialmente ao seguir padrões estéticos eurocêntricos.

    Exemplo prático: Gisele recriou, usando IA, imagens de plantas tradicionalmente consideradas “daninhas”, desafiando padrões estéticos europeus de jardins e refletindo sobre exclusões simbólicas.

    Trecho Fedro de Platão:
    Ouvi dizer que em Náucratis, no Egito, existe um deus antigo chamado Thoth, cujo pássaro sagrado é a íbis. Esse deus é conhecido por ter inventado os números, o cálculo, a geometria, a astronomia, os jogos de tabuleiro e de dados e, por último, a escrita. Naquela época, o rei de todo o Egito era Thamus, que vivia na grande cidade de Tebas, no Alto Egito. Os gregos chamavam o deus dessa cidade de Ammon.

    Thoth foi até Thamus para mostrar suas invenções, dizendo que elas deveriam ser compartilhadas com o povo egípcio. O rei, então, perguntou qual era o benefício de cada uma. Enquanto Thoth explicava, Thamus elogiava o que achava bom e criticava o que achava ruim. Dizem que o rei fez muitos comentários, tanto positivos quanto negativos, sobre cada invenção, mas quando chegaram à escrita, Thoth afirmou:

    “Meu rei, a escrita vai tornar os egípcios mais sábios e melhorar sua memória, porque agora eles terão um remédio para isso.”

    Mas Thamus respondeu: “Thoth, você é ótimo em criar coisas, mas nem sempre quem cria é bom em avaliar o impacto do que inventa. Como pai da escrita, você está tão entusiasmado com sua invenção que está exagerando os benefícios dela. Na verdade, a escrita não vai melhorar a memória das pessoas, mas enfraquecê-la. As pessoas vão parar de exercitar a própria memória, porque vão depender da escrita para lembrar das coisas. Em vez de lembrar por conta própria, vão buscar informações fora de si mesmas, em sinais externos.

    Ou seja, o que você criou não é um remédio para a memória, mas sim para a lembrança. Além disso, sua invenção vai dar às pessoas uma aparência de sabedoria, mas não a verdadeira. Elas vão aprender muitas coisas superficialmente e achar que sabem muito, mas na prática vão continuar ignorantes. Isso vai torná-las mais difíceis de lidar, porque, em vez de sábias, elas vão se tornar presunçosas.” (tradução e simplificação via gpt)

    1. Texto de Evgeny Morozov – “The AI We Deserve” (link)
      • Introduzimos a crítica de Morozov sobre a origem militar da IA e seu caráter teleológico, projetado para resolver problemas de forma instrumental e eficiente.
      • Destacamos a ideia do “homem organizacional” burocrático como modelo subjacente à concepção das primeiras IA, voltadas para replicar sistemas administrativos e operacionais.

    Tendências em Agentes de IA e Simulações Virtuais:

    • Foram abordados experimentos como o “1000 AI NPCs simulate a Civilization in Minecraft”, onde agentes virtuais criaram estruturas sociais complexas de forma autônoma.
    • Esse exemplo gerou reflexões sobre o potencial dessas simulações para narrativas interativas e a criação de mundos ficcionais autogeridos, expandindo as possibilidades para narrativas emergentes e autoria distribuída.

    Atividade Prática:

    • Testes com DALL-E:
      • Utilizamos a ferramenta para gerar imagens a partir de prompts e observamos tendências colonialistas nas representações.
      • Analisamos como essas ferramentas reproduzem estereótipos culturais e estruturais embutidos nos conjuntos de dados que as treinam.

    Reflexões e Conexões:

    Discutimos como a IA, ao replicar estruturas coloniais e administrativas, limita sua capacidade de imaginar formas alternativas e mais inclusivas de inteligência e criação.

    A conversa conectou as críticas de Beiguelman e Morozov, ressaltando os desafios éticos e culturais no uso de IA em processos criativos.