Categoria: Aulas

  • Agentes e Cosmotécnica como chave para desuniversalizar a tecnologia.

    Agentes e Cosmotécnica como chave para desuniversalizar a tecnologia.

    A última aula funcionou como um fechamento conceitual e prático do curso. Depois das aulas anteriores, centradas na construção de contexto, na ecologia das contas/projetos e na coleitura com IA, este encontro deslocou a discussão para dois eixos principais: primeiro, uma reflexão filosófica sobre técnica, tecnologia e cosmotécnica; depois, uma introdução prática ao uso de agentes de IA em tarefas de pesquisa e organização acadêmica. A aula também teve um caráter de balanço: retomou Umberto Eco, discutiu integridade acadêmica, abordou o impacto das IAs no trabalho e abriu caminhos para pensar uma relação mais situada, tropical e crítica com essas tecnologias.

    1. Abertura: encerramento do curso e continuidade do grupo

    A aula começou com uma conversa informal sobre a experiência do curso, a chegada dos participantes e algumas dificuldades de acesso à plataforma. Também apareceu a ideia de manter o grupo de WhatsApp como espaço de continuidade, troca de textos, sugestões e acompanhamento de novas turmas. Foi destacada a importância de manter uma turma pequena, com cerca de 20 participantes, porque isso permite conversa, escuta das demandas e acompanhamento mais próximo. Acima disso, o curso tenderia a virar palestra, perdendo parte do caráter dialógico.

    Também houve uma breve conversa sobre plataformas de inscrição, como Sympla e Even3, mostrando que a própria organização do curso já fazia parte de uma ecologia técnica: inscrição, comunicação, links de acesso, grupos, gravações, resumos e materiais complementares.

    2. Retomada de Umberto Eco: pesquisar é aprender um método

    Um dos pontos de partida conceituais da aula foi a releitura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco. A obra foi situada no contexto da universidade italiana dos anos 1970, especialmente no momento em que camadas populares começavam a entrar mais fortemente na universidade. Eco escrevia para estudantes que muitas vezes não tinham tempo livre, recursos para comprar livros caros, familiaridade com bibliotecas ou hábito consolidado de pesquisa.

    Nesse contexto, a tese de Eco era apresentada como uma aprendizagem de método. Pesquisar significava aprender a delimitar um tema, identificar fontes primárias e secundárias, fazer fichamentos, organizar argumentos, comparar materiais e construir um percurso intelectual. A aula conectou esse ponto ao presente: mesmo com a digitalização e agora com as IAs, alguns elementos permanecem centrais. A pesquisa continua exigindo método, delimitação, leitura, comparação, crítica e responsabilidade intelectual.

    A diferença é que, na era da IA, esse método passa a ser reorganizado por novas mediações. A questão deixa de ser apenas “como fazer uma tese?” e passa a incluir: como construir contexto com IA? Como verificar fontes? Como usar modelos sem delegar a responsabilidade intelectual? Como diferenciar apoio, coescrita, automação e autoria?

    3. Para além da visão instrumental da tecnologia

    A aula insistiu em um ponto fundamental: não basta pensar a IA como ferramenta. Reduzir uma tecnologia ao seu uso instrumental — “eu uso para fazer X” — impede perceber que toda técnica também transforma quem a utiliza. Essa reflexão foi articulada com autores como Simondon, Latour, McLuhan e Yuk Hui.

    O exemplo da escrita foi usado para mostrar isso. A escrita é uma tecnologia tão naturalizada que muitas vezes esquecemos sua dimensão técnica. No entanto, ela reorganizou profundamente a memória, a administração, o calendário, as leis, a ciência, as artes, as formas de documentação e até a própria experiência do tempo. A escrita não apenas serviu ao pensamento; ela transformou o pensamento.

    A aula trouxe também exemplos de pessoas que não se comunicam pela escrita, mas pelo áudio no WhatsApp. Esse ponto serviu para mostrar que diferentes tecnologias criam diferentes mundos de ação. O caso do encanador mencionado na aula ilustra um tipo de saber prático, incorporado, não necessariamente formalizado por escrito, mas altamente sofisticado. Isso permitiu conectar a discussão sobre IA ao tema mais amplo dos saberes técnicos, das práticas situadas e dos conhecimentos que não cabem facilmente nos modelos formais da academia.

    4. IA, trabalho e precarização

    A discussão sobre técnica levou naturalmente ao tema do impacto da IA no trabalho. Um dos participantes chamou atenção para o risco de o discurso “a IA vai tirar empregos” ser usado como ameaça para reduzir salários, intensificar a precarização e naturalizar relações de trabalho mais desiguais. Também foi lembrado que existe trabalho humano invisibilizado por trás do treinamento e da moderação de sistemas de IA.

    A resposta da aula buscou uma posição intermediária: é inegável que algumas atividades serão transformadas, automatizadas ou reorganizadas, mas isso não significa aceitar passivamente o discurso empresarial do inevitável. O exemplo dos digitadores, citado a partir da experiência do pai de André no contexto da computação por cartão perfurado e do Serpro, mostrou que mudanças técnicas podem levar à requalificação e à redistribuição de funções, não necessariamente à demissão direta.

    A discussão também passou pelo setor de serviços, supermercados, caixas automáticos, estoquistas, robôs e carrinhos com leitores. A observação sobre Salvador foi interessante: mesmo quando há caixas de autoatendimento, muitas pessoas não os utilizam, especialmente quando há produtos que precisam ser pesados ou quando o processo exige mediação humana. Isso reforçou a ideia de que a adoção tecnológica nunca é apenas técnica; ela depende de hábitos, confiança, infraestrutura, cultura local e desenho social do serviço.

    5. Yuk Hui e a pergunta pela cosmotécnica

    O eixo filosófico principal da aula foi a apresentação de Yuk Hui. A partir dele, foi feita uma crítica à ideia de que a técnica é universal, neutra e funcional. A pergunta central apresentada foi: todas as culturas pensam a técnica do mesmo modo?

    A resposta de Yuk Hui é não. A modernidade ocidental tende a tratar a tecnologia como uma promessa universal de mundo, como se todos os povos devessem seguir o mesmo caminho de modernização. Essa visão reduz diferentes técnicas a uma única categoria chamada “tecnologia” e tende a organizar o planeta como recurso disponível para o desenvolvimento técnico.

    A aula aproximou esse debate de Heidegger, especialmente da ideia de que a tecnologia moderna não é apenas um conjunto de instrumentos, mas um modo de revelar o mundo. Nessa perspectiva, a natureza aparece como estoque, reserva, recurso explorável. O petróleo, os minérios, a energia, a água e os territórios passam a ser compreendidos como insumos para alimentar sistemas técnicos.

    Yuk Hui aceita a força dessa crítica, mas pergunta se ela vale para todas as tradições culturais. Para ele, Heidegger ainda pensa a técnica a partir de uma história ocidental. A cosmotécnica, então, seria a tentativa de compreender como diferentes culturas articulam técnica, cosmos, moral, território, natureza e formas de vida.

    6. Da técnica neutra à tecnodiversidade

    A aula contrastou duas formas de compreender a técnica. Na visão instrumental, a técnica é meio para um fim, neutra, universal e substituível. Na visão cosmotécnica, a técnica expressa uma forma de vida. Uma rede de pesca, uma canoa, uma casa, uma folha de bananeira usada para embalar alimento ou um algoritmo não são apenas meios; eles organizam relações entre humanos, não humanos, território e mundo.

    O exemplo do abará embalado na folha de bananeira foi usado como imagem regional de uma solução técnica não separada do ambiente. Ao contrário do plástico, a folha de bananeira integra alimento, território, cultura e sustentabilidade. Esse exemplo permitiu pensar uma técnica menos voraz, menos extrativa e mais incorporada a uma forma de vida.

    A aula também aproximou essa discussão de Nego Bispo, especialmente da crítica à ideia de “desenvolvimento” como afastamento do envolvimento. Em vez de desenvolver no sentido de separar, seria preciso pensar formas de envolvimento, confluência e relação.

    Outro ponto importante foi a comparação entre tradições culturais. Na tradição grega, a técnica aparece muitas vezes vinculada ao mito de Prometeu: roubo do fogo, transgressão, domínio e emancipação. Já em outras tradições, como a chinesa, a técnica pode ser pensada como continuidade entre cosmos, comunidade, corpo e prática. O exemplo da medicina chinesa, com os conceitos de Tao e Qi, serviu para mostrar como uma técnica pode não ser compreendida adequadamente quando traduzida apenas pelos parâmetros da ciência ocidental.

    7. Cosmotécnica tropical, antropofagia e Gilberto Gil

    A partir de Yuk Hui, a aula propôs pensar uma possível “cosmotécnica tropical”. A pergunta era: como o Brasil poderia se relacionar com as tecnologias digitais e com a IA sem apenas importar modelos prontos, categorias externas e imaginários técnicos vindos dos centros de poder?

    A hipótese apresentada foi aproximar esse debate da antropofagia modernista: a capacidade de devorar influências externas, digeri-las e devolvê-las com outro sabor, outro ritmo e outro sentido. Essa lógica atravessaria a cultura brasileira em várias áreas: modernismo, bossa nova, cinema novo, música popular, samba, tropicalismo, funk e cultura digital.

    Gilberto Gil apareceu como uma figura importante nesse percurso. Desde “Cérebro Eletrônico” até sua atuação como ministro da Cultura, Gil teria elaborado uma relação singular com a técnica, a cibernética e a cultura digital. Em vez de separar tecnologia e cultura, sua trajetória ajudaria a pensar um modo brasileiro, híbrido, musical, político e antropofágico de lidar com o digital.

    Essa parte da aula foi importante porque deslocou a pergunta sobre IA. Em vez de apenas perguntar “como usar melhor a IA?”, a questão passa a ser: que relação queremos construir com essas tecnologias? Que mundo elas ajudam a compor? Que práticas, saberes e territórios elas podem fortalecer ou enfraquecer?

    8. Discussão com a turma: técnica, território e saberes tradicionais

    Na conversa com os participantes, surgiram exemplos que reforçaram a importância de pensar técnica e território de forma integrada. Um dos comentários retomou a experiência com trabalhadores da construção civil que não respondiam mensagens escritas, mas respondiam bem por áudio. Isso mostrou novamente que a tecnologia só funciona dentro de um contexto social, cultural e comunicacional.

    Também apareceu o exemplo de técnicas tradicionais de construção no Maranhão, substituídas por modelos importados de pousadas e edifícios que não se adaptam bem ao clima local, exigindo ar-condicionado e aumentando o consumo energético. Esse exemplo ilustrou como uma técnica considerada “moderna” pode apagar saberes locais mais adequados ao território.

    A discussão passou ainda por alimentação, saúde, plantas, chás, saberes populares e alimentos ultraprocessados. A IA foi pensada, nesse ponto, não apenas como ameaça, mas também como possível aliada para analisar hábitos alimentares, rótulos, composições nutricionais e práticas de consumo, desde que usada dentro de bons contextos e com critérios críticos.

    9. Impacto ambiental das IAs e do ecossistema digital

    Outro ponto importante foi a discussão sobre impacto ambiental. A aula reconheceu a importância do debate sobre água, energia e data centers, mas chamou atenção para o risco de tratar a IA isoladamente, como se fosse a única responsável por impactos ecológicos do mundo digital.

    Foi lembrado que streaming, redes sociais, bancos, serviços de nuvem, plataformas digitais e outros sistemas também dependem de data centers. Além disso, o uso de água por grandes sistemas agroindustriais e industriais é muito maior do que o dos data centers. Isso não diminui a necessidade de discutir o impacto das IAs, mas ajuda a evitar uma crítica seletiva ou desproporcional.

    O ponto central foi: a crítica ambiental à IA é necessária, mas precisa ser situada em uma crítica mais ampla à nossa ecologia técnica, energética, alimentar, produtiva e digital.

    10. Introdução aos agentes de IA

    A segunda grande parte da aula foi dedicada aos agentes de IA. A apresentação começou com cautela: os agentes ainda estão em fase inicial, apresentam riscos, exigem supervisão e podem causar problemas quando recebem permissões amplas demais. Mesmo assim, apontam para uma transformação profunda da relação com computadores.

    A diferença básica apresentada foi: um chatbot responde; um agente executa. Ele pode abrir aplicativos, navegar por páginas, acessar arquivos autorizados, clicar, baixar documentos, operar planilhas, acionar ferramentas e realizar sequências de tarefas.

    Foi mostrado o caso da integração entre ChatGPT e Gamma. A partir da área de configurações e aplicativos, é possível conectar serviços externos. Uma vez conectado ao Gamma, o ChatGPT pode abrir o aplicativo dentro da própria interface e executar tarefas, como criar slides com base em um projeto ou contexto já preparado. No exemplo da aula, isso foi usado para gerar uma apresentação sobre cosmotécnica e Yuk Hui, com melhor redução de texto por tela.

    11. Demonstração prática: agente, Drive, planilhas e Python

    A aula apresentou uma gravação de tela de um experimento com agente. O agente recebeu a tarefa de abrir uma pasta no Google Drive, acessar arquivos, baixar dados para um ambiente virtual, abrir terminal, usar Python, analisar planilhas, gerar documentos e produzir uma visualização gráfica.

    Esse exemplo foi conectado diretamente à pesquisa acadêmica. Uma pasta no Drive poderia conter artigos, entrevistas, transcrições, planilhas de questionários, relatórios ou documentos administrativos. O agente poderia abrir cada arquivo, extrair informações, produzir resumos, organizar tabelas, gerar gráficos ou consolidar dados.

    A ideia central foi mostrar que, em breve, parte do trabalho de pesquisa poderá ser feita por meio de comandos em linguagem natural que acionam sequências de ações em diferentes aplicativos. Isso não elimina a revisão humana; pelo contrário, aumenta a necessidade de supervisão, validação e clareza metodológica.

    12. Cuidados de segurança: contas secundárias, permissões e isolamento

    A aula insistiu bastante nos riscos. Para testar agentes, André explicou que criou uma sessão separada no Linux, sem acesso às contas pessoais, justamente para evitar que um agente tivesse poderes indevidos sobre arquivos, e-mails ou dados sensíveis.

    Foram mencionados riscos como agentes apagarem arquivos, mexerem em e-mails, executarem ações não desejadas ou consumirem créditos de API. Também foi explicado que, quando um agente roda no computador, ele precisa se comunicar com um modelo de linguagem. O “corpo” do agente pode estar na máquina, mas o “cérebro” muitas vezes está na nuvem, sendo pago por tokens ou operações.

    A recomendação implícita da aula foi: testar agentes em ambientes controlados, com contas secundárias, pastas específicas, permissões limitadas e supervisão constante. Em tarefas simples e repetitivas, eles podem ser úteis; em ações sensíveis, ainda exigem extremo cuidado.

    13. Para que servem agentes na pesquisa?

    A turma discutiu várias possibilidades de uso. Uma delas foi o levantamento bibliográfico: colocar artigos em uma pasta e pedir ao agente que abra cada um, faça resumos, selecione os mais relevantes e organize uma tabela. Outra possibilidade foi o tratamento de entrevistas: abrir áudios, enviá-los a uma ferramenta de transcrição, salvar os textos em uma pasta, revisar e organizar os arquivos.

    Também apareceram exemplos administrativos, como abrir muitas planilhas de avaliação de curso, consolidar respostas, gerar gráficos e produzir relatórios. Outro exemplo citado foi o de uma colega que tinha milhares de PDFs e precisava extrair números de notas fiscais — tarefa repetitiva, cansativa e ideal para automação assistida.

    A diferença em relação a ferramentas como NotebookLM foi esclarecida: no NotebookLM, o usuário precisa inserir os documentos; com um agente, em tese, seria possível pedir que ele abrisse uma pasta, selecionasse arquivos, enviasse para outro serviço, retornasse, salvasse resultados e encadeasse ações em vários ambientes.

    14. Ambivalência: fascínio, medo e produtividade

    A discussão com a turma revelou uma ambivalência importante: os agentes geram fascínio, mas também medo. Por um lado, podem economizar tempo e ajudar em tarefas repetitivas. Por outro, atravessam fronteiras sensíveis: acessar Drive, e-mail, arquivos pessoais, computador local.

    Uma participante perguntou se esse tipo de recurso não estaria ligado à lógica da produtividade extrema: uma pessoa fazendo o trabalho que antes exigiria várias. Essa questão trouxe de volta o debate sobre produtivismo, automação e intensificação do trabalho.

    A resposta foi que os usos são variados. Agentes podem servir a executivos, programadores e empresas, mas também podem ser ferramentas de acessibilidade para pessoas com dificuldades motoras, instrumentos de apoio a pesquisadores com grande volume de material ou auxiliares em tarefas administrativas repetitivas. O problema não é apenas a tecnologia em si, mas a cosmotécnica na qual ela é inserida: eficiência para quê? A serviço de quem? Com quais limites? Com qual supervisão?

    15. IA, revisão bibliográfica e risco de alucinação

    A aula retomou um ponto recorrente do curso: modelos de linguagem podem alucinar referências. Uma participante relatou ter pedido referências e revisões com base em critérios como PRISMA, mas encontrou artigos falsos, títulos trocados e autores confundidos. A recomendação foi usar ferramentas especializadas, como bases acadêmicas e plataformas voltadas à literatura científica, conectadas ou combinadas ao ChatGPT.

    A ideia foi reforçada: o ChatGPT puro é muito bom para linguagem, organização, síntese e formulação, mas não deve ser usado sozinho como mecanismo confiável de busca bibliográfica. Para pesquisa acadêmica, é preciso combinar IA com bases reais, verificação manual e critérios metodológicos explícitos.

    16. Produção acadêmica, excesso de artigos e responsabilidade

    Outro debate importante foi o crescimento da produção acadêmica mediada por IA. Um participante observou que quem antes escrevia um artigo por ano agora pode tentar escrever cinco, muitas vezes com baixa qualidade. Isso cria pressão sobre revistas, pareceristas e editores, que não estão preparados para uma avalanche de textos produzidos rapidamente.

    A aula conectou esse ponto à integridade acadêmica. O problema não é apenas usar IA, mas usar IA sem critério, sem transparência, sem domínio do campo e sem responsabilidade sobre o resultado. Também foi mencionado o fenômeno de “humanizar” textos para esconder o uso de IA, como tirar travessões ou alterar marcas estilísticas detectáveis.

    A posição defendida na aula foi que o uso sério da IA exige mais trabalho, não menos. Usar bem IA significa construir contexto, revisar, comparar, pedir alternativas, checar fontes, avaliar argumentos e assumir responsabilidade. O problema está na “tentação do botão”: delegar rapidamente, com pouco contexto e pouca revisão, gerando textos genéricos, superficiais e possivelmente errados.

    17. Estudantes, IA e cotutoria

    No fechamento, a aula voltou ao tema educacional. Foi rejeitada a generalização de que estudantes jovens seriam simplesmente preguiçosos ou interessados apenas em delegar tarefas. Em experiências recentes com estudantes de computação e bacharelado interdisciplinar, alguns relataram usar IA como forma de serem provocados, estimulados e ajudados a aprender mais.

    A aula retomou uma tipologia de estudantes: o estudante que mergulha na utopia acadêmica; o minimalista, que quer fazer apenas o necessário para passar; o estratégico, que performa a vida acadêmica como caminho profissional; e o perdido, que não sabe bem por que está ali. Essas categorias foram apresentadas como fluidas: um mesmo estudante pode ocupar posições diferentes em diferentes disciplinas ou momentos (Essa tipologia foi desenvolvida pelo sociólogo Saeed Paivandi). 

    Nesse contexto, a IA pode funcionar como cotutora. Não substitui o professor, a sala de aula ou a experiência pedagógica, mas pode oferecer acompanhamento personalizado. Foram mencionadas experiências como GPTs acadêmicos institucionais e tutores de matemática como o Khanmigo. A promessa é um apoio individualizado, disponível a qualquer hora, capaz de responder a dúvidas específicas e acompanhar ritmos distintos de aprendizagem.

    18. Fechamento: uma perspectiva tropical para a IA

    A última aula terminou retomando o sentido geral do curso: aprender a pesquisar com IA não é apenas aprender ferramentas. É construir uma relação crítica, situada e responsável com essas tecnologias. Isso envolve método, contexto, leitura, escrita, ética, integridade, supervisão, imaginação pedagógica e reflexão filosófica.

    A ideia de uma cosmotécnica tropical ofereceu uma chave de fechamento: não se trata de rejeitar a IA, nem de adotá-la como destino inevitável. Trata-se de deglutir essas tecnologias, compreendê-las, adaptá-las, tensioná-las e reinscrevê-las em nossas práticas, territórios, problemas e formas de vida.

    O curso foi encerrado com o convite para manter o grupo ativo, compartilhar materiais e preservar os links das gravações como conteúdo restrito da turma, já que os encontros incluíam falas e participações dos alunos. A experiência foi apresentada como abertura de janelas e caminhos para pensar uma relação mais crítica, criativa e situada com a IA na pesquisa acadêmica.


    Ideias-chave da aula

    1. Pesquisar com IA continua exigindo método.
      A IA muda o ambiente da pesquisa, mas não elimina delimitação, leitura, fichamento, comparação, verificação e responsabilidade.
    2. Tecnologias não são apenas instrumentos.
      Elas transformam formas de pensar, trabalhar, escrever, organizar o tempo e compor relações sociais.
    3. A IA deve ser pensada conceitualmente.
      A aula propôs sair da pergunta “como usar?” para incluir “que mundo essa técnica ajuda a produzir?”.
    4. Cosmotécnica é uma chave para desuniversalizar a tecnologia.
      Diferentes culturas pensam e praticam a técnica de modos distintos. Não há uma única história universal da tecnologia.
    5. Uma cosmotécnica tropical pode aproximar IA, antropofagia, território e cultura digital brasileira.
    6. Agentes de IA apontam para uma nova etapa da automação.
      Eles não apenas respondem, mas executam tarefas em aplicativos, arquivos e sistemas.
    7. Agentes exigem segurança e supervisão.
      O uso responsável passa por contas secundárias, ambientes isolados, permissões limitadas e revisão humana.
    8. O risco principal não é a IA em si, mas a delegação sem contexto.
      A “tentação do botão” produz superficialidade, alucinação e perda de responsabilidade intelectual.
    9. A IA pode funcionar como cotutora.
      Em contextos pedagógicos bem desenhados, pode apoiar ritmos diferentes de aprendizagem sem substituir o professor.
    10. O desafio é político, pedagógico e cosmotécnico.
      A questão não é apenas usar IA, mas decidir como integrá-la a formas de pesquisa mais críticas, plurais e responsáveis.

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  • Coescrita, meta-reflexão e co-inteligência

    Coescrita, meta-reflexão e co-inteligência

    A terceira aula deu continuidade ao eixo central do curso: compreender a pesquisa acadêmica com IA não apenas como uso instrumental de ferramentas, mas como uma transformação nas formas de leitura, escrita, organização da informação e construção de contexto. A aula foi bastante dialogada, partindo das questões dos alunos sobre o texto “Fantasmas da coescrita” (preprint), avançando para a discussão sobre GPTs customizados, cosmotécnica, etnografia com IA, co-inteligência segundo Ethan Mollick, uso da lousa/canvas, criação de slides com Gamma e experimentações em grupos de conversa com IA.

    1. Abertura: acesso, plataforma e dinâmica da aula

    A aula começou com uma breve conversa sobre problemas técnicos e sobre o uso da plataforma Sympla para os encontros síncronos. Foi comentado que os links de acesso são individualizados, o que pode gerar problemas quando uma pessoa usa o link de outra. Houve o exemplo de uma aluna que entrou com o perfil de uma colega e depois foi derrubada quando a titular do link acessou a sala.

    Esse comentário inicial serviu também para reforçar uma dimensão prática do curso: as tecnologias de organização, acesso e mediação dos encontros não são neutras. Elas condicionam a experiência pedagógica, podem facilitar o gerenciamento de turmas, mas também criar ruídos de participação.

    A aula, então, começou a partir das perguntas de Rosana sobre o texto indicado para leitura.

    2. “Fantasmas da coescrita”: o texto como exemplo de meta-reflexão

    A primeira discussão mais substantiva surgiu a partir do texto “Fantasmas da coescrita”. Rosana destacou algumas questões que chamaram sua atenção: a ideia dos “fantasmas”, os modelos customizados, a autoria, o processo criativo e o conceito de cosmotécnica.

    A resposta esclareceu que o objetivo de compartilhar o texto não era fazer uma aula teórica aprofundada sobre todos os autores e conceitos presentes nele. A intenção principal era mostrar um experimento de meta-reflexão: isto é, um processo em que a IA não é usada apenas para produzir conteúdo, mas para pensar sobre o próprio processo de produção, leitura, autoria e pesquisa.

    A expressão “fantasmas” foi explicada a partir da ideia de ghostwriter: alguém que escreve por outro, de maneira muitas vezes invisível. No contexto da coescrita com IA, a metáfora ajuda a pensar esses modelos como presenças auxiliares, interlocutores ou índices recursivos que participam da construção do texto, ainda que não apareçam como autores tradicionais.

    O ponto principal foi: muitos pesquisadores, estudantes e professores provavelmente já estão usando GPTs customizados, modelos com arquivos, projetos e bases de referência para dialogar com autores e teorias, mas essas práticas ainda aparecem pouco explicitadas. A aula propôs, então, tornar visível esse tipo de prática e refletir criticamente sobre ela.

    3. GPTs customizados como “índices remissivos recursivos”

    Um dos conceitos mais importantes da aula foi a ideia de que um GPT customizado pode funcionar como uma espécie de índice remissivo recursivo.

    A comparação é interessante: um índice remissivo tradicional permite localizar temas, conceitos e passagens dentro de um livro. Já um modelo customizado, alimentado com textos de determinado autor ou campo, permite fazer perguntas, testar relações, comparar conceitos e voltar recursivamente às fontes. Ele não apenas aponta onde algo aparece; ele também ajuda a reorganizar, relacionar e tensionar o material.

    Foi discutido o exemplo de criar um GPT com a obra de um autor, como Bourdieu, Flusser, Pierre Lévy ou Latour. A partir daí, o pesquisador poderia conversar com esse modelo para compreender melhor conceitos, fases da obra, mudanças de perspectiva e possíveis relações entre textos.

    Mas houve uma ressalva importante: autores com obras extensas talvez devam ser divididos por fases, temas ou recortes. Um GPT com “todo Bourdieu”, por exemplo, pode ficar amplo demais. Em alguns casos, pode ser mais interessante criar modelos separados: um para a fase inicial, outro para os textos sobre cultura, outro para a dimensão política, e assim por diante.

    O risco principal é que o modelo pode produzir formulações criativas que parecem coerentes com o autor, mas que não estão efetivamente publicadas na obra. Por isso, a recomendação foi clara: esses modelos ajudam a pensar, mas não dispensam a leitura direta dos textos originais.

    4. Cosmotécnica: construir sentido próprio para a relação com as máquinas

    A partir das dúvidas de Rosana, a aula entrou no conceito de cosmotécnica, associado ao filósofo Yuk Hui. Esse foi um dos momentos conceituais mais importantes da aula.

    A cosmotécnica foi apresentada como uma forma de dar sentido à experiência com as tecnologias. Sem uma narrativa conceitual, a relação com as máquinas pode oscilar entre o medo e a alienação. O conceito ajuda a pensar que a tecnologia não precisa ser vista como algo universal, homogêneo e inevitável, produzido por uma única tradição histórica.

    Foi feita uma distinção entre técnica e tecnologia. A técnica foi associada às formas históricas e culturais pelas quais diferentes comunidades produziram utensílios, ferramentas e modos de agir sobre o mundo. Já a tecnologia moderna, vinculada à ciência, à indústria e ao desenvolvimento capitalista, tende a afastar as pessoas da possibilidade de modificar, adaptar e recriar os objetos técnicos.

    A partir disso, foi discutida a importância de experimentar formas próprias de interação com IA. Mesmo sem desenvolver um modelo do zero, é possível criar usos, contextos e práticas que dialoguem com perspectivas locais, decoloniais, do sul global ou com autores que escapem do repertório hegemônico das grandes plataformas.

    Foi citado, como exemplo, um possível experimento com transcrições de palestras de Nego Bispo, buscando criar um modelo que dialogasse com sua oralidade e com sua forma própria de pensamento. A questão não é apenas técnica, mas também política: apropriar-se das tecnologias e recriá-las de acordo com contextos culturais e visões de mundo diferentes.

    5. IA, etnografia e organização de grandes corpos de dados

    A partir da intervenção de Zeca, antropólogo, a aula passou a discutir o uso da IA em pesquisas etnográficas. Ele trouxe uma preocupação importante: como lidar com diários de campo, entrevistas, anotações e materiais subjetivos sem que o modelo simplifique ou distorça a experiência etnográfica?

    A resposta situou a IA como uma nova camada na história das tecnologias de organização da informação. Assim como a escrita, a imprensa, a eletrificação e a digitalização transformaram a forma de registrar e organizar conhecimento, a IA introduz uma nova etapa: ela permite interagir com grandes corpos de texto, categorizá-los, reorganizá-los e gerar hipóteses de leitura.

    No caso da etnografia, a IA pode atuar como auxiliar na organização de entrevistas transcritas, diários de campo, relatos, categorias e interlocutores. Mas foi feita uma comparação importante com a fotografia na antropologia visual: a fotografia também parecia, inicialmente, uma captura objetiva do real, mas depois se percebeu que ela envolve recorte, enquadramento, escolha e interpretação.

    Do mesmo modo, a IA pode auxiliar, mas não substitui o olhar do pesquisador. Ela pode organizar, mas não deve apagar a singularidade do campo. No caso de materiais etnográficos, foi recomendado instruir o modelo de forma explícita:

    “Este é um material etnográfico. Preserve a expressão do interlocutor. Não resuma. Não sintetize. A redundância é importante porque faz parte do campo.”

    Esse ponto foi central: a IA tende a otimizar para clareza, síntese e coerência. Mas, em alguns tipos de pesquisa, especialmente na etnografia, a repetição, a hesitação, a expressão oral e a redundância podem ser dados importantes.

    6. Alucinação, criação conceitual e risco interpretativo

    A aula também discutiu a ambiguidade da chamada “alucinação” dos modelos. Em algumas áreas, como literatura ou filosofia, uma formulação inesperada pode ser produtiva. Em outras, especialmente quando se trata de citação, evidência ou análise empírica, pode ser perigosa.

    Foi dado o exemplo do próprio conceito de “pedagogia do contexto”, que surgiu na interação com a IA a partir do material do curso. Nesse caso, o modelo ajudou a nomear algo que já estava sendo construído na prática. Mas o uso de um conceito sugerido pela IA exige cautela: é preciso verificar se o termo já existe, se tem outro sentido consolidado e se não está sendo atribuído indevidamente a um autor ou campo.

    Essa discussão abriu uma questão metodológica importante: quando um conceito surge na interação entre pesquisador e IA, como registrar isso? Uma possibilidade levantada foi tratar esse processo de forma reflexiva, incluindo no texto uma nota metodológica ou uma dimensão autoetnográfica. Em áreas como a antropologia, a autoetnografia pode ajudar a explicitar como o pesquisador interagiu com o modelo e como certas categorias emergiram no processo (ver Marilyn Strathern).

    7. Escrita, autoria e a dimensão híbrida do texto

    Outro eixo da aula foi a discussão sobre escrita. Beatriz comentou que escrever é uma forma de descobrir o que se pensa. A aula acolheu essa ideia, mas ampliou o argumento: talvez hoje essa descoberta não aconteça apenas pela escrita tradicional. Ela pode começar também por áudio, transcrição, conversa, palestra gravada ou diálogo com IA.

    Foi lembrado que muitas ideias surgem oralmente em aulas, debates e palestras. Ao transcrever esses momentos e reorganizá-los, o pesquisador pode descobrir formulações que já estavam em curso, mas ainda não estavam estabilizadas como texto.

    Essa reflexão reforça a ideia de que a coescrita com IA não deve ser pensada apenas como “a máquina escrevendo pelo humano”. Ela pode funcionar como uma tecnologia de escuta, reorganização, retomada e lapidação de ideias.

    Também apareceu uma crítica ao termo “humanizar” texto. A aula problematizou essa expressão porque ela pressupõe que o texto gerado anteriormente não teria humanidade. Em vez disso, foi sugerido pensar os textos como criações híbridas, atravessadas por humanos, máquinas, leituras, referências, estilos e processos de edição.

    8. Ethan Mollick e a co-inteligência

    Na segunda parte da aula, foi apresentada uma sistematização das ideias de Ethan Mollick, especialmente a partir de seu livro sobre co-inteligência. A obra foi indicada como uma leitura acessível e útil para pensar a IA no trabalho acadêmico.

    A primeira dica atribuída a Mollick é experimentar a IA em quase todas as etapas da pesquisa, desde que não haja impedimentos éticos, legais ou institucionais. Isso não significa aceitar tudo que a IA produz, mas testar empiricamente onde ela ajuda e onde atrapalha.

    Um conceito importante apresentado foi o da fronteira irregular da IA. A IA pode resolver com facilidade algumas tarefas que parecem difíceis, mas falhar em tarefas aparentemente simples. Por isso, não faz sentido partir de regras abstratas como “IA serve para escrever” ou “IA não serve para pesquisar”. O mais adequado é experimentar, testar, verificar e mapear seus usos em cada situação.

    A IA pode ajudar em diferentes etapas: formular perguntas de pesquisa, gerar palavras-chave, resumir textos, comparar conceitos, testar hipóteses argumentativas, revisar clareza, simular objeções de banca, organizar cronogramas e estruturar etapas de trabalho.

    Mas a responsabilidade final continua sendo do pesquisador. A IA pode sugerir, organizar e acelerar, mas não assume autoria, julgamento crítico ou responsabilidade ética.

    9. Papéis atribuídos à IA: tutor, orientador, parecerista, bibliotecário

    Uma recomendação prática importante foi o uso de papéis. Em vez de pedir apenas “resuma esse texto”, é mais produtivo orientar o modelo:

    “Atue como orientador de pesquisa em antropologia e identifique o argumento central, os conceitos principais, os pressupostos teóricos, as fragilidades da argumentação e perguntas para aprofundamento.”

    Outros papéis possíveis foram mencionados:

    • tutor;
    • coeditor;
    • parecerista de revista;
    • bibliotecário;
    • debatedor;
    • leitor médio;
    • aluno simulando dúvidas sobre uma aula;
    • orientador metodológico.

    Essa estratégia permite modular a resposta da IA conforme a necessidade da pesquisa. O modelo não é apenas um respondedor genérico; ele pode ser configurado situacionalmente para agir de acordo com uma tarefa específica.

    10. Prompt não como mágica, mas como construção de contexto

    Outro ponto importante foi a crítica à ideia do prompt como “palavra mágica”. A aula reforçou que a qualidade da resposta não depende apenas de encontrar o prompt perfeito, mas de construir um contexto de trabalho.

    Foi sugerido dividir as solicitações em etapas:

    1. indicar o tema central;
    2. formular possíveis problemas de pesquisa;
    3. avaliar qual problema está mais delimitado;
    4. sugerir palavras-chave;
    5. organizar o levantamento bibliográfico;
    6. comparar autores;
    7. revisar a argumentação;
    8. simular críticas ou objeções.

    Esse método se conecta diretamente à ideia central do curso: a pesquisa com IA depende de uma pedagogia do contexto. A boa interação não está apenas na pergunta isolada, mas no processo cumulativo de orientação, resposta, correção, reorientação e aprofundamento.

    11. Tutor individual e aprendizagem personalizada

    A aula também apresentou a ideia de configurar a IA como um tutor individual. O pesquisador pode explicar seu nível de formação, sua área, seu projeto e o tipo de apoio que deseja.

    Por exemplo:

    “Sou estudante de mestrado em Saúde Coletiva. Estou lendo este artigo e quero que você me ajude a compreender os argumentos principais, mas sem substituir minha leitura.”

    A IA pode perguntar ao estudante sobre o texto, testar sua compreensão, propor comparações entre autores, explicar conceitos em diferentes níveis de complexidade e transformar uma intuição inicial em uma pergunta de pesquisa mais delimitada.

    Essa função é especialmente interessante porque aproxima o uso da IA de um processo formativo, e não apenas produtivo.

    12. Delegar, centauro e ciborgue

    Um dos momentos mais úteis da apresentação de Mollick foi a distinção entre diferentes formas de organizar o trabalho com IA.

    Há tarefas que só o pesquisador pode fazer: formular o julgamento final, assumir a responsabilidade, interpretar a pertinência dos dados, tomar decisões éticas e definir o sentido da pesquisa.

    Há tarefas que podem ser delegadas à IA: organização de notas, revisão gramatical, formatação de referências, criação de quadros, sínteses preliminares e infográficos.

    Há também o modo centauro, em que há uma divisão clara entre humano e IA. O pesquisador define categorias, critérios e hipóteses; a IA organiza os dados conforme essas orientações.

    E há o modo ciborgue, em que o trabalho se torna mais integrado: escrever, revisar, argumentar, reescrever e reorganizar em um fluxo contínuo. Foi mencionado que esse modo aparece especialmente no processo de elaboração das colunas, em que o texto vai e volta tantas vezes entre autor e modelo que a separação entre contribuição humana e contribuição maquínica se torna menos evidente.

    Essa distinção ajudou a mostrar que “usar IA” não é uma coisa única. Existem diferentes graus de integração, delegação e colaboração.

    13. A tentação do botão

    A aula também alertou para um risco: a tentação do botão. É a ideia de que a IA pode resolver tudo automaticamente, bastando clicar ou pedir uma resposta pronta.

    Essa tentação é especialmente forte quando o prazo está apertado. Mas foi reforçado que delegar tudo ao modelo é arriscado. A IA pode tomar desvios, simplificar demais, errar referências, inventar conexões ou gerar uma argumentação aparentemente boa, mas frágil.

    O fluxo recomendado foi: exploração, delimitação, busca, coleitura, revisão, interpretação e responsabilidade final do pesquisador.

    14. Análise de dados e planilhas

    A aula também abordou brevemente o uso da IA para análise de dados quantitativos. Foi mencionado um experimento com dados de estudantes de um curso do ISC, incluindo planilhas com quase mil alunos e questionários de avaliação de componentes curriculares.

    O ponto principal foi que a IA trabalha bem com planilhas e dados organizados, mas a qualidade da resposta depende da qualidade do material fornecido. Quando as planilhas estavam confusas, os resultados foram piores. Quando os dados foram limpos, organizados e enviados em uma aba única, o modelo conseguiu gerar gráficos e análises mais consistentes.

    Foi citado um erro ocorrido quando os componentes curriculares estavam identificados por siglas: ao gerar o relatório, o modelo inventou nomes completos a partir dessas siglas. Esse exemplo reforçou a importância de explicar ao modelo o significado das variáveis, siglas e categorias.

    15. Demonstração prática: Eco, pesquisa acadêmica e lousa/canvas

    Na parte prática, foi demonstrado o uso de um projeto com o livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco. A proposta era refletir sobre o que mudou na pesquisa acadêmica desde a década de 1970, quando Eco escreveu o livro, até o cenário atual de digitalização e IA.

    A IA foi usada para pensar o que permanece relevante em Eco: a importância do recorte, a distinção entre fonte e comentário, a organização da documentação e a necessidade de produzir um trabalho verificável.

    Depois, foi pedido ao modelo que pensasse uma proposta de artigo sobre isso. Em seguida, o texto foi aberto na lousa/canvas, recurso que transforma a resposta em um documento editável.

    A demonstração mostrou que, na lousa, é possível editar trechos específicos, pedir para reescrever apenas um parágrafo, alterar o nível do texto, aumentar ou reduzir a extensão e trabalhar de forma mais próxima a um editor de texto. Esse recurso foi apresentado como útil para revisar e lapidar textos sem precisar copiar tudo imediatamente para outro ambiente.

    16. Gamma e criação de slides

    Também foi apresentada a ferramenta Gamma, usada para transformar textos, resumos ou transcrições em apresentações. A diferença destacada é que, enquanto o ChatGPT pode gerar imagens ou propostas de slides conceituais, o Gamma é especializado em apresentação visual.

    Ele permite criar cartões, escolher estilos, editar textos, inserir imagens, modificar a estrutura e ajustar a estética com mais facilidade. Foi observado, porém, que ele funciona por créditos: depois de um período de uso gratuito, pode exigir pagamento.

    A ferramenta foi usada para apresentar a sistematização das dicas de Ethan Mollick, mostrando como um resumo produzido com IA pode ser transformado em material didático visual.

    17. Grupos com IA e coescrita coletiva

    No final da aula, surgiu uma pergunta sobre a funcionalidade de grupos no ChatGPT. A dúvida era como pensar a coescrita quando não há apenas uma pessoa conversando com o modelo, mas várias pessoas em um mesmo ambiente.

    Foi explicado que as conversas em grupo permitem uma dinâmica semelhante a um grupo de WhatsApp com IA: pessoas entram, mencionam o modelo, interagem entre si e com a IA.

    Mas foram indicadas limitações importantes:

    • o grupo não fixa contexto da mesma forma que um projeto;
    • o material pode precisar ser reenviado em outro dia;
    • o modelo não leva automaticamente o contexto pessoal de cada usuário para o grupo;
    • isso evita que informações privadas de uma pessoa vazem em uma conversa coletiva.

    Apesar das limitações, a funcionalidade foi apresentada como promissora para dinâmicas de aula, oficinas e experimentações colaborativas.

    18. Encaminhamento para a Aula 4

    A aula terminou indicando que o próximo encontro seria dedicado a novas experimentações práticas, com destaque para o tema dos agentes de IA. A ideia é mostrar que a discussão sobre IA está entrando em uma nova etapa, na qual os modelos não apenas respondem ou ajudam a escrever, mas começam a executar sequências de ações, interagir com ferramentas e participar de fluxos mais complexos de trabalho.

    Síntese final

    A terceira aula consolidou três movimentos principais do curso.

    Primeiro, aprofundou a ideia de meta-reflexão: usar a IA não apenas para produzir textos, mas para pensar sobre o próprio processo de pesquisa, leitura, autoria e construção de conceitos.

    Segundo, apresentou a IA como uma nova camada na história da organização da informação, articulando escrita, digitalização, etnografia, análise de dados e coescrita.

    Terceiro, sistematizou uma abordagem prática inspirada em Ethan Mollick: experimentar a IA em diferentes etapas, atribuir papéis ao modelo, construir contexto progressivamente, verificar tudo, evitar a tentação da automação total e manter a responsabilidade final com o pesquisador.

    A aula mostrou que pesquisar com IA não significa substituir a leitura, a escrita ou o pensamento crítico. Significa reorganizar essas práticas em uma nova ecologia cognitiva, na qual humanos e máquinas participam de processos híbridos de leitura, escrita, interpretação e criação.

    Complemento sobre Umberto Eco

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  • Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    Curso: Pesquisa Acadêmica com IA

    Coescrito com IA por Andre Stangl.

    A segunda aula aprofundou a ideia de que pesquisar com IA não é apenas “usar uma ferramenta”, mas aprender a habitar uma nova ecologia cognitiva, marcada por coescrita, coleitura, metarreflexão, curadoria intelectual e gestão da atenção. A aula combinou discussão conceitual, troca com os participantes e demonstrações práticas no ChatGPT, especialmente com GPTs customizados e projetos.

    1. Abertura: metapresença e experiência de aula online

    A aula começou com uma conversa sobre a própria condição do encontro remoto. A partir de uma referência a Naomar de Almeida Filho, foi apresentada a noção de metapresença ou metapresencialidade: a ideia de que encontros mediados por plataformas digitais não são simplesmente “a distância”, mas constituem outro tipo de presença.

    A discussão apontou que a presença online depende de elementos como câmera aberta, galeria de rostos, interação síncrona e percepção das reações dos participantes. A tela, nesse sentido, não elimina a presença, mas a transforma. O encontro online foi pensado como uma forma de coabitação mediada, em que os participantes estão “juntos” de outro modo.

    Também apareceu a ideia de salas híbridas ou metapresenciais, com várias telas, alunos presenciais e remotos em interação, indicando que a educação online pode deixar de ser apenas uma substituição emergencial da sala física e passar a ser pensada como outro ambiente de aprendizagem.

    2. A IA como campo instável e em rápida transformação

    Em seguida, a aula situou o curso dentro de um contexto mais amplo de debate na UFBA sobre inteligência artificial. Foi mencionada a formação de uma rede de professores, pesquisadores e estudantes interessados em estudar, experimentar, normatizar e formar pessoas para o uso de IA.

    Um ponto importante foi a sensação de defasagem permanente: a cada semana surgem novos modelos, agentes, ferramentas multimodais, recursos de áudio, vídeo, imagem e texto. Antes mesmo de se consolidar uma metodologia para o uso de IA generativa em texto, já aparecem agentes autônomos, modelos multimodais e plataformas que reorganizam automaticamente slides, conceitos e narrativas.

    Daí surgiu uma das teses centrais da aula: não se deve aceitar automaticamente aquilo que a IA produz. O material gerado pode trazer boas categorias, insights e conexões inesperadas, mas precisa sempre ser revisto, interrogado e reposicionado pelo pesquisador. A IA participa do processo de criação, mas não substitui a responsabilidade intelectual humana.

    3. Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    A aula reforçou que o trabalho com IA deve ser compreendido como um processo de cocriação, coescrita e coleitura. A pesquisa com IA não consiste apenas em pedir respostas, mas em construir progressivamente um contexto de interlocução.

    A partir da experiência das edições anteriores do curso de coescrita, foi destacado que o uso da IA, inicialmente mais associado à literatura, narrativa e experimentação estética, passou a mostrar grande potencial para a pesquisa acadêmica.

    Nesse ponto, a portaria do CNPq sobre integridade em pesquisa foi mencionada como um marco importante, pois oferece algum norte institucional para pensar o uso acadêmico da IA. O universo universitário ainda aparece como um campo de dúvidas, desinformação e insegurança, tanto entre alunos quanto entre professores, pesquisadores e estruturas administrativas.

    4. Flusser, escrita e pós-história

    Um dos blocos teóricos centrais da aula foi dedicado a Vilém Flusser, especialmente ao livro A escrita. A partir dessa obra, foi apresentada a ideia de que a escrita não é apenas um conteúdo, mas um gesto: escrever envolve corpo, superfície, linearidade, memória e organização do pensamento.

    Flusser aparece como um pensador particularmente atual porque, ainda em 1989, já discutia a possibilidade de “máquinas de escrita pensante”. A aula mostrou como essa intuição se conecta ao presente, em que modelos de linguagem participam de processos de escrita, organização textual, tradução, síntese e criação.

    A discussão levou à noção de pós-história. Em Flusser, esse conceito não significa simplesmente o fim da história, mas a passagem de uma cultura centrada na escrita linear para outra forma de organização simbólica, mais ligada às imagens técnicas, aos códigos, aos aparelhos e aos programas.

    A oposição entre escrita e oralidade foi usada para ilustrar essa mudança. Ler um texto é seguir uma linha. Falar, por outro lado, pode manter coerência sem seguir a mesma linearidade. A oralidade pode juntar temas, tons, desvios e ênfases de forma menos sequencial. As mensagens de áudio no WhatsApp foram usadas como exemplo cotidiano dessa transformação: certas coisas são mais facilmente ditas do que escritas.

    A IA entra como uma nova camada dessa transformação. Ela permite gravar aulas, reuniões e palestras, transcrever esse material e reorganizá-lo em textos, resumos, mapas conceituais e projetos. Com isso, práticas de oralidade, escrita e memória começam a se misturar.

    5. Memória persistente, contexto e curadoria

    Outro ponto importante foi a ideia de que, com os modelos de linguagem, a relação entre usuário e IA vai sendo calibrada ao longo do tempo. A IA “educa” o usuário e o usuário “educa” a IA, no sentido de que a interação vai criando padrões, preferências, recorrências temáticas e modos narrativos.

    A memória persistente e os projetos permitem que o modelo reconheça etapas anteriores de um trabalho, estilos de escrita, temas de pesquisa e caminhos argumentativos. Isso pode ser muito produtivo em um mundo saturado de informação.

    Mas esse aumento de produtividade também gera um novo problema: a IA produz muito material, e esse material precisa ser lido, filtrado, revisado e avaliado. Por isso, o trabalho com IA exige curadoria intelectual. O pesquisador precisa reconhecer quando a IA abre um caminho interessante e quando ela conduz a uma direção fraca, imprecisa ou inadequada.

    6. Dieta midiática e gestão da atenção

    A aula trouxe uma pausa importante sobre o cuidado com a atenção. O uso intenso de IA foi relacionado a um problema mais amplo: vivemos em um ambiente de excesso informacional.

    Foi apresentada a ideia de uma “dieta midiática”: reduzir a exposição às timelines, evitar a dispersão constante das redes sociais, concentrar a entrada de informação em fontes mais filtradas, como jornais, e criar práticas de equilíbrio.

    A meditação foi mencionada como uma experiência pessoal de cuidado com a atenção, mas a recomendação foi mais ampla: cada pessoa precisa encontrar formas de pausa, desconexão e recomposição — seja por meditação, caminhada, atividade física, praia, cachoeira ou outro tipo de prática.

    A metáfora do fármaco foi usada: a tecnologia pode funcionar como remédio, mas o excesso pode virar veneno. A IA, portanto, deve ser usada com dose, ritmo e consciência.

    7. Debate com os alunos: escrever com IA ou pesquisar com IA?

    Uma participante destacou que veio ao curso não necessariamente para entregar a escrita à IA, mas para compreender como a IA pode ajudar na pesquisa. Ela afirmou gostar do artesanato da escrita, da tela em branco, da construção do parágrafo e do trabalho autoral.

    Esse comentário abriu uma distinção importante: há pessoas que gostam de escrever e há pessoas que precisam escrever. Para algumas, a IA pode ajudar na clareza, na organização didática, na revisão e na ampliação de argumentos. Para outras, a escrita continua sendo uma prática subjetiva, artesanal e prazerosa.

    A resposta da aula foi acolher essa diferença. A IA não precisa ocupar o mesmo lugar para todos. Ela pode ser usada para encontrar bibliografia, localizar casos, organizar materiais, traduzir textos, revisar escopos e ajudar na leitura, sem necessariamente substituir o momento autoral da escrita.

    8. Da perspectiva mecanicista à perspectiva recursiva

    A aula introduziu uma distinção conceitual importante: estamos saindo de uma perspectiva mais mecanicista para uma perspectiva mais recursiva.

    Em uma visão mecanicista, espera-se que a ferramenta obedeça diretamente ao comando: o usuário pede algo, a máquina entrega exatamente aquilo. Mas os modelos generativos funcionam de modo diferente. Eles variam, reinterpretam, completam, desviam, propõem caminhos e exigem ajustes contínuos.

    Essa dimensão foi relacionada a Yuk Hui e à ideia de recursividade. A interação com IA não é linear: envolve tentativa, erro, reorientação, retorno, ajuste e nova tentativa. Por isso, a aula reforçou que a frustração com a IA muitas vezes vem da expectativa errada de que ela deveria funcionar como uma máquina determinística.

    9. Alucinação como problema e como possibilidade

    A aula tratou também das chamadas “alucinações” da IA. Em contextos de saúde, direito, ciência e decisão institucional, elas são perigosas, pois podem produzir informações falsas com aparência de autoridade.

    Mas foi apresentada uma leitura mais complexa: em campos criativos, a alucinação pode aparecer como invenção, deslocamento ou abertura narrativa. Em literatura, por exemplo, respostas inesperadas podem gerar caminhos de criação.

    Ainda assim, no campo acadêmico, a aula insistiu na necessidade de verificação. A IA não deve ser tomada como fonte final. Ela pode ajudar a formular hipóteses, encontrar relações e sugerir caminhos, mas precisa ser confrontada com fontes, textos, dados e critérios de pesquisa.

    10. Metarreflexão: GPTs customizados como “índices remissivos recursivos”

    O centro prático da aula foi a demonstração dos GPTs customizados. A ideia apresentada foi criar um modelo alimentado com livros, artigos ou materiais de um autor, para que ele responda com base naquele corpus.

    Esse procedimento foi chamado de metarreflexão. A IA não deve “fingir ser Freud”, “fingir ser Nietzsche” ou simular a personalidade de um autor. O objetivo não é teatralizar o autor, mas criar uma camada de leitura sobre sua obra.

    A fórmula apresentada foi muito boa:

    Um GPT customizado pode funcionar como um índice remissivo recursivo.

    Ou seja, em vez de apenas procurar uma palavra no índice de um livro, o pesquisador pode conversar com o corpus: perguntar por conceitos, relações, tensões, fases da obra, diferenças entre livros e possíveis aplicações a fenômenos contemporâneos.

    11. RAG: explicação didática

    A aula aproximou essa prática da ideia de RAG, sigla de Retrieval-Augmented Generation, ou geração aumentada por recuperação.

    Em termos simples, RAG é uma técnica em que o modelo não responde apenas com base no treinamento geral, mas consulta uma base específica de documentos fornecida pelo usuário. No caso da aula, essa base pode ser composta por livros, artigos, capítulos ou materiais de um autor.

    Assim, em vez de perguntar “o que é pós-história?” para um modelo genérico, pode-se perguntar a um GPT alimentado com obras de Flusser. A resposta tenderá a se orientar por aquele conjunto documental.

    A recomendação metodológica foi evitar misturar muitos autores em um mesmo GPT. Para maior consistência, é melhor criar GPTs por autor, por livro ou por fase de autor. No caso de autores com fases muito distintas, como Wittgenstein ou Latour, pode ser interessante criar modelos separados.

    12. Demonstração prática: Flusser e Simondon

    Na demonstração, foi mostrado um GPT baseado em Flusser. Ao perguntar sobre pós-história, o modelo respondeu a partir da obra do autor, articulando escrita, imagens técnicas, programas, aparelhos e liberdade.

    Depois, foi demonstrado o processo de criação de um GPT sobre Gilbert Simondon. A aula mostrou o caminho: acessar a área de GPTs, criar um novo GPT, definir seu objetivo, subir um PDF, orientar o modelo a responder com base naquele material e configurar o compartilhamento.

    A partir disso, o GPT foi usado para explicar o conceito de individuação. Depois, o modelo foi provocado com uma questão mais interpretativa: se a individuação poderia ser pensada como uma forma de animismo. A resposta exigia cruzar Simondon com outras referências, mostrando como a IA pode ajudar a explorar hipóteses teóricas sem substituir a revisão crítica do pesquisador.

    Experimente conversar com o GPTs Flusseriana – https://chatgpt.com/g/g-Kywx5YrPT-flusseriana

    13. GPTs customizados, projetos e NotebookLM

    Uma pergunta importante feita durante a aula foi sobre a diferença entre criar um GPT customizado e montar um projeto.

    A resposta indicou que os projetos são práticos para organizar materiais próprios, pesquisas em andamento, livros específicos, capítulos e tarefas pessoais. Eles são úteis quando o pesquisador quer trabalhar com um conjunto de documentos sem necessariamente compartilhar esse ambiente com outras pessoas.

    Já os GPTs customizados têm a vantagem de poderem ser mais individualizados e compartilháveis. Podem funcionar como tutores, guias de estudo, modelos baseados em autores ou assistentes especializados em determinado corpus.

    A aula destacou que não há ainda uma resposta definitiva sobre qual opção é melhor. O campo está em construção. A escolha depende do objetivo: uso pessoal, compartilhamento com alunos, criação de tutor, organização de pesquisa, estudo de autor ou leitura de um corpus específico.

    O NotebookLM também apareceu como ferramenta próxima dessa lógica, embora a aula tenha destacado que a experiência principal do curso está sendo feita com o ChatGPT.

    14. Possibilidades pedagógicas: tutores de disciplina

    Uma aplicação importante discutida foi a criação de GPTs como tutores de componentes curriculares. A ideia é alimentar um GPT com ementa, textos, artigos e materiais de uma disciplina, configurando-o para ajudar os estudantes a estudar aquele conteúdo.

    Esse tutor não substituiria o professor, mas poderia funcionar como apoio para leitura, revisão, perguntas, explicações e aprofundamento. A aula também apontou desafios: como compartilhar com os alunos, como verificar a qualidade das respostas, como orientar o uso e como lidar com turmas grandes.

    A recomendação foi testar com cuidado, preferencialmente em contextos menores ou controlados, antes de disponibilizar amplamente.

    15. Velocidades e modos de resposta do modelo

    Na parte final, foi demonstrada a diferença entre respostas mais rápidas e respostas mais reflexivas. O modelo pode responder de forma instantânea ou pode ser configurado para “pensar” mais antes de responder.

    Esse recurso é útil em perguntas conceituais complexas, cruzamentos teóricos, análise de documentos e temas polêmicos. Em uma pergunta simples, talvez não seja necessário. Mas em questões de pesquisa, o modo mais reflexivo pode melhorar a qualidade da resposta, reduzir incoerências e explicitar melhor o caminho argumentativo.

    Também foi mostrada a possibilidade de visualizar parte do processo de decisão do modelo, acompanhando fontes consultadas, etapas de busca e referências usadas.

    16. Pesquisa aprofundada

    Outro recurso apresentado foi a pesquisa aprofundada. Ela permite que o modelo faça uma investigação mais longa, varrendo fontes, artigos, páginas e bancos de dados.

    A aula alertou, porém, que esse recurso pode produzir muito material e exigir bastante tempo de revisão. Por isso, deve ser usado quando a pergunta realmente justificar uma investigação mais ampla. A pesquisa aprofundada pode ser poderosa, mas também aumenta a carga de curadoria intelectual.

    17. Tradução com IA

    A aula também trouxe orientações práticas sobre tradução. A IA pode ser muito boa para traduzir textos entre línguas de ampla circulação, especialmente textos jornalísticos, acadêmicos ou objetivos.

    Mas há cuidados importantes:

    1. Não mandar textos muito longos de uma vez.
    2. Dividir o material em partes pequenas, como duas páginas por vez.
    3. Explicar antes o objetivo da tradução.
    4. Pedir explicitamente para não resumir.
    5. Pedir uma tradução fiel, profissional e sem recriação.
    6. Revisar termos técnicos, conceitos consolidados e escolhas terminológicas.

    Foi destacado que a IA tende, em alguns casos, a resumir quando recebe textos longos. Por isso, é preciso calibrar o comando e verificar o resultado. Em textos literários, regionais, poéticos ou com forte marca estilística, a tradução automática tende a ser mais problemática.

    18. Cuidados éticos e limites

    A aula também tocou em temas sensíveis ligados ao uso social da IA: simulação de pessoas falecidas, uso como conselheiro emocional, criação de personagens, relações afetivas com modelos e riscos de plataformas sem salvaguardas adequadas.

    O ponto principal foi que a IA já está sendo usada para muito mais do que escrita acadêmica. Ela aparece em aconselhamento, companhia, geração de imagens, robótica, medicina, guerra, programação e diversas outras áreas.

    Por isso, o curso delimitou seu escopo: o foco aqui é a IA como auxiliar de pesquisa, reflexão, leitura, escrita e organização do conhecimento, sem perder de vista que esse universo é muito mais amplo e exige atenção ética.

    19. Encaminhamento para a próxima aula

    A aula terminou com uma proposta prática: os participantes deveriam experimentar os recursos discutidos ao longo do fim de semana. A ideia era que cada um trouxesse, na aula seguinte, experiências concretas de uso da IA em seus próprios projetos de pesquisa.

    O objetivo da próxima etapa seria olhar para aplicações reais: como cada participante está usando ou pode usar IA em seu cotidiano acadêmico, que dificuldades aparecem, que soluções são possíveis e que caminhos metodológicos podem ser construídos coletivamente.

    Síntese final

    A segunda aula consolidou a passagem da discussão geral sobre IA para uma metodologia de uso acadêmico mais precisa. O eixo principal foi a ideia de que pesquisar com IA exige construir contexto, calibrar modelos, revisar respostas, cuidar da atenção e transformar a IA em parceira de leitura e reflexão.

    A noção mais forte da aula foi a de metarreflexão: usar modelos customizados, projetos e bases documentais para conversar com autores, livros, artigos e conceitos. Nesse sentido, a IA não aparece como substituta da pesquisa, mas como uma nova camada de mediação intelectual — um índice remissivo recursivo, capaz de ampliar formas de leitura, comparação, tradução, organização e problematização.

    Abaixo estão os slides gerados com o GPT. Ainda não fiz uma revisão final do material, então podem conter ajustes a serem feitos. Estou compartilhando aqui apenas como complemento à aula e apoio para o acompanhamento dos conteúdos.

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  • Pesquisar com IA é construir contexto

    Pesquisar com IA é construir contexto


    Curso: Coescrita e Pesquisa Acadêmica com IA
    Aula 1 —
    28/04/2026

    Este resumo foi elaborado a partir da transcrição da primeira aula do curso, realizada em formato síncrono, com apresentação dos participantes, contextualização conceitual e demonstrações práticas de uso da IA em processos de pesquisa acadêmica.

    Coescrito com IA por Andre Stangl.


    1. Abertura da aula e organização inicial

    A aula começou com uma breve ambientação técnica. Foi explicado que o encontro estava sendo realizado pela plataforma Sympla, com sala do Zoom integrada, e que a gravação seria disponibilizada posteriormente aos participantes. Também foi reforçada a importância do grupo de WhatsApp como espaço de apoio, comunicação rápida e acompanhamento do curso.

    Desde o início, ficou claro que a proposta do curso não seria apenas expositiva. A intenção era criar um espaço de troca, experimentação e reflexão coletiva. A turma, com cerca de 21 inscritos, foi apresentada como um grupo diverso, composto por professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação, profissionais da saúde, da educação, da comunicação, da nutrição, da psicanálise, da edição de livros e de áreas ligadas à cultura digital.

    A apresentação dos participantes foi importante para mapear expectativas. Entre os interesses mencionados apareceram:

    • uso da IA na orientação de mestrado e doutorado;
    • apoio à pesquisa qualitativa e quantitativa;
    • escrita acadêmica;
    • revisão de textos;
    • leitura de artigos em inglês;
    • jornalismo investigativo;
    • saúde digital;
    • educação e letramento em IA;
    • uso crítico, ético e autoral da IA;
    • preocupação com confiabilidade, limites e normatização.

    Esse momento ajudou a configurar o curso como um espaço interdisciplinar, não centrado apenas em aspectos técnicos, mas também em implicações epistemológicas, pedagógicas e institucionais do uso da inteligência artificial na pesquisa.


    2. O primeiro deslocamento conceitual: IA não é apenas “ferramenta”

    Um dos primeiros pontos conceituais da aula foi a problematização da expressão “usar IA”. A ideia central apresentada foi que essa formulação pode ser limitada, porque pressupõe uma relação instrumental simples: o usuário dá um comando e a máquina executa uma tarefa.

    A aula propôs deslocar essa visão mecanicista para uma compreensão mais recursiva e dialógica da relação com os modelos de linguagem. Em vez de pensar a IA apenas como uma ferramenta externa, é mais produtivo entendê-la como parte de uma nova ecologia cognitiva.

    A comparação com outras tecnologias de organização da informação foi central. A escrita, por exemplo, também é uma tecnologia. No entanto, ela foi tão profundamente incorporada às práticas de conhecimento que deixou de ser percebida como algo externo. Ninguém, ao escrever um artigo ou organizar uma pesquisa, pensa explicitamente: “agora vou usar a tecnologia da escrita”. A escrita já faz parte do próprio modo como entendemos a produção acadêmica.

    O mesmo raciocínio foi estendido à oralidade. Embora possa parecer estranho chamar a fala de tecnologia, ela também organiza memória, conhecimento, transmissão cultural e formas de pensamento. Essa observação permitiu ampliar o debate para além da tradição ocidental escrita, reconhecendo a importância de formas orais de produção e circulação do conhecimento, especialmente em povos tradicionais e comunidades indígenas.

    A partir disso, a IA foi situada numa longa história das tecnologias cognitivas: oralidade, escrita, imprensa, tecnologias eletrônicas, tecnologias digitais e, agora, modelos generativos. A IA não surgiu do nada, nem pertence exclusivamente às big techs. Ela é resultado de décadas de pesquisa em cibernética, computação, linguagem, estatística, matemática e inteligência artificial, envolvendo universidades, pesquisadores e centros de pesquisa desde meados do século XX.


    3. IA como mudança na ecologia cognitiva

    A aula propôs compreender a inteligência artificial generativa como uma transformação comparável, em certa medida, à escrita ou à imprensa. Essa comparação não significa dizer que todas essas tecnologias são iguais, mas reconhecer que elas reorganizam as condições de produção, circulação e validação do conhecimento.

    No caso da IA, a mudança aparece especialmente na escrita, na leitura, na busca, na organização de informações e na relação com conceitos. O professor apresentou sua experiência pessoal com a IA desde dezembro de 2022, destacando que a prática cotidiana de escrita e pesquisa foi profundamente modificada.

    Nesse ponto, apareceu a noção de coescrita: a IA não substitui simplesmente o pesquisador, mas participa de um processo de formulação, reformulação, revisão e organização das ideias. Essa participação pode ser produtiva, mas também exige critério, supervisão e consciência dos riscos.

    A aula também destacou que os modelos estão mudando rapidamente. O que hoje parece uma funcionalidade avançada pode se tornar comum em poucos meses. Por isso, o curso foi apresentado como uma experiência situada em um campo instável, em permanente transformação.


    4. Pesquisa com IA como construção de contexto

    O eixo central da aula foi a ideia de que pesquisar com IA é construir contexto.

    O modelo não responde apenas à pergunta isolada. A qualidade da resposta depende do contexto que o usuário fornece: textos, artigos, livros, objetivos, critérios, perguntas, exemplos, referências, estilo desejado e sucessivas correções.

    A aula apresentou essa ideia como uma possível pedagogia do contexto. Esse conceito surgiu na própria interação com o modelo, a partir do material preparado para a aula. O ponto foi usado como exemplo de como a IA pode devolver ao pesquisador uma formulação nova, uma síntese ou uma expressão conceitual que não estava previamente nomeada, mas estava implícita no processo.

    A partir disso, foi feita uma distinção importante:

    • pesquisar com IA não é apenas buscar respostas;
    • pesquisar com IA é estabilizar contextos progressivamente;
    • o contexto não é dado de uma vez;
    • ele é construído, negociado, corrigido e refinado.

    Essa noção é decisiva para diferenciar o uso acadêmico da IA de um uso mais superficial, semelhante ao uso de um buscador. Muitas pessoas ainda interagem com o ChatGPT ou outros modelos como se estivessem diante de um “Google melhorado”. Mas a proposta da aula foi mostrar que os modelos de linguagem podem operar de forma mais rica quando são tratados como ambientes de construção progressiva de sentido.


    5. Prompt: menos fórmula mágica, mais início de conversa

    Outro ponto importante foi a relativização da “engenharia de prompt” como algo excessivamente técnico ou misterioso. A aula reconheceu que bons prompts ajudam, mas criticou a ideia de que seria necessário dominar fórmulas complexas para começar a usar IA em pesquisa.

    O prompt foi apresentado como uma pergunta inicial, um gesto de abertura do contexto. Ele pode ser simples. O mais importante é compreender que a interação não termina na primeira resposta. O pesquisador pode pedir esclarecimentos, corrigir, aprofundar, solicitar reformulações, pedir que o próprio modelo melhore a pergunta ou ajude a estruturar a investigação.

    Assim, o prompt não é uma chave mágica. Ele é o início de uma conversa orientada.

    O professor mostrou que costuma começar uma interação de várias formas:

    • colando uma reportagem;
    • subindo um artigo em PDF;
    • apresentando uma questão de pesquisa;
    • pedindo uma estrutura inicial;
    • solicitando resumo, análise ou comparação;
    • pedindo ao modelo que ajude a organizar um caminho de investigação.

    O valor não está apenas no comando inicial, mas na sequência de interações que vai refinando o campo de trabalho.


    6. Projetos, pastas e contextos persistentes

    A aula apresentou a função de Projetos no ChatGPT como uma segunda camada importante da construção de contexto. A ideia foi explicar que uma conversa isolada tem limites. Com o tempo, uma conversa longa pode ficar confusa, pesada ou menos precisa, porque há limites de contexto e de processamento.

    Os projetos funcionam como “pastas de contexto”. Eles permitem organizar materiais, conversas e arquivos relacionados a um mesmo tema, autor, curso, pesquisa ou livro.

    Foi dado o exemplo de um projeto dedicado à releitura de Umberto Eco, especialmente o livro Como se faz uma tese. Nesse caso, o professor mostrou como é possível subir o PDF de um livro, pedir uma estrutura detalhada da obra e depois abrir conversas específicas para cada capítulo ou seção.

    Essa prática foi apresentada como uma forma de coleitura ou de fichamento ampliado. A IA não substitui a leitura do livro, mas pode ajudar a:

    • mapear a estrutura geral da obra;
    • identificar capítulos relevantes;
    • produzir uma primeira aproximação;
    • organizar fichamentos;
    • formular perguntas;
    • comparar trechos;
    • apoiar a decisão sobre quais partes merecem leitura mais detida.

    Também foi feita uma observação técnica importante: a qualidade do PDF importa. Arquivos compostos apenas por imagens, sem texto selecionável, dificultam o trabalho do modelo. Nesses casos, pode ser necessário OCR, e a chance de erro aumenta. Para a IA trabalhar melhor, o ideal é usar PDFs com texto reconhecível e selecionável.


    7. A conta como infraestrutura cognitiva

    A aula também discutiu a diferença entre usar versões gratuitas e pagas dos modelos. O professor explicou que seus experimentos estão concentrados principalmente na versão paga do ChatGPT, porque ela oferece mais continuidade, mais recursos e menos interrupções.

    Mas o ponto principal não foi fazer propaganda de uma ferramenta específica. A questão foi mostrar que a conta, o histórico, os projetos e a memória formam uma espécie de infraestrutura cognitiva. Quanto mais o pesquisador interage com o modelo, mais o modelo aprende sobre seu estilo, seus temas, suas preferências e suas demandas recorrentes.

    Isso levou a uma ideia importante: o usuário também “educa” o modelo, ao mesmo tempo em que aprende a interagir melhor com ele. A relação é recursiva. O modelo vai se ajustando ao usuário, e o usuário vai aprendendo como orientar, corrigir e explorar o modelo.

    Essa personalização pode ser útil, mas também pode gerar problemas. O modelo pode, por exemplo, insistir em relacionar qualquer tema aos autores que o usuário costuma pesquisar. No caso do professor, foram mencionados autores como Yuk Hui, Bruno Latour, McLuhan e Flusser. Isso pode ser produtivo em alguns contextos, mas inadequado em outros.


    8. Memória, personalização e estilo

    Na parte prática, foi demonstrada a área de configurações do ChatGPT, especialmente os recursos de personalização e memória. A aula mostrou que é possível ajustar o tom do modelo, definindo se ele deve ser mais profissional, amigável, direto, eficiente, criativo ou informal.

    Também foi demonstrado como uma memória pode ser salva e apagada. O exemplo usado foi simples: o professor escreveu “sou baiano, memorize isso”, mostrou que a memória foi registrada e depois explicou que ela poderia ser excluída.

    A memória foi apresentada como um dos elementos mais importantes da relação com a IA, porque ela cria continuidade entre interações. Mas essa continuidade exige cuidado. O usuário precisa saber que certas informações podem ser armazenadas, revisadas ou apagadas.

    A discussão sobre estilo também apareceu a partir de uma pergunta de participante. Foi perguntado como manter o estilo pessoal em textos gerados ou revisados com IA. A resposta indicou que é possível pedir explicitamente ao modelo para preservar o estilo, manter expressões, conservar a estrutura argumentativa e apenas melhorar clareza, coesão ou fluidez.

    Ao mesmo tempo, o professor explicou que, em seus textos jornalísticos e de divulgação científica, muitas vezes deseja justamente uma linguagem mais acessível, menos acadêmica e menos hermética. Nesse caso, a IA ajuda a traduzir debates complexos para um público mais amplo.


    9. Oralidade, transcrição e nova escrita

    Um tema importante da aula foi a relação entre IA, oralidade e escrita. O professor explicou que tem usado gravações, transcrições e modelos de linguagem para transformar falas, aulas e encontros em resumos expandidos, textos reflexivos ou materiais de apoio.

    Esse procedimento foi apresentado como uma mudança importante na prática de escrita. Em vez de começar sempre diante da página em branco, o pesquisador pode falar, gravar, transcrever e depois trabalhar o texto com a IA.

    Isso permite reaproveitar a experiência oral como matéria-prima da escrita. A aula sugeriu que essa mudança pode reativar dimensões da cognição ligadas à fala, à improvisação, à conversa e à elaboração progressiva das ideias.

    Essa discussão dialogou com a crítica à centralidade exclusiva da escrita acadêmica tradicional e abriu espaço para pensar outras formas de produção do conhecimento.


    10. Modelos diferentes, usos diferentes

    Embora o foco da aula tenha sido o ChatGPT, também foram mencionados outros modelos e plataformas, como Gemini, Claude, DeepSeek e NotebookLM.

    A ideia apresentada foi que não existe uma única ferramenta definitiva. Cada modelo pode ter pontos fortes diferentes:

    • ChatGPT: muito usado pelo professor para coescrita, organização textual e construção de contexto;
    • Gemini/NotebookLM: mais voltado a experiências multimodais, como áudio, imagem, vídeo, podcast e organização de fontes;
    • Claude: citado como modelo com boa qualidade textual em certos contextos;
    • DeepSeek: mencionado como útil em alguns temas ligados à China ou a bases de dados chinesas.

    Também foi comentada a possibilidade de usar um modelo para melhorar o prompt a ser usado em outro. Essa prática mostra que a pesquisa com IA pode envolver uma ecologia de modelos, e não apenas uma plataforma isolada.


    11. Ética, transparência e normatização acadêmica

    Uma parte significativa da aula foi dedicada à questão ética e normativa. Foi discutido que o ambiente acadêmico ainda está tentando entender como lidar com o uso de IA.

    A aula mencionou a recente política de integridade científica do CNPq como um sinal de que o debate está avançando, mas ainda há muitas incertezas. Uma das questões levantadas foi a dificuldade de relatar detalhadamente todo o processo de uso da IA. Em trabalhos complexos, uma coluna, artigo ou parecer pode envolver dezenas de interações, versões e reformulações. Relatar todos os prompts seria, em alguns casos, quase produzir outro documento.

    Por isso, foi sugerido que a transparência talvez precise ser pensada em níveis. Em alguns casos, basta declarar que a IA foi usada para revisão, tradução, organização bibliográfica ou apoio à estruturação. Em outros, quando a IA participa mais diretamente da formulação de conceitos ou argumentos, a situação se torna mais complexa.

    O professor também comentou sua própria experiência com textos coescritos, colunas jornalísticas e artigos acadêmicos. Foi destacada a diferença entre assumir publicamente o uso da IA e ocultar essa participação. No jornalismo, por exemplo, esse tema tem gerado reações fortes de leitores e profissionais.


    12. IA, pareceres e crise do sistema acadêmico

    A discussão ética se aprofundou quando surgiu o tema dos pareceres acadêmicos. Um participante relatou que alguns periódicos internacionais já perguntam aos pareceristas se usaram modelos de IA em suas avaliações. Outro mencionou que periódicos como Cadernos de Saúde Pública orientam explicitamente que artigos submetidos para parecer não sejam colocados em modelos de linguagem.

    A aula reconheceu a importância dessa preocupação, especialmente quando se trata de material inédito, sigiloso ou sensível. Ao mesmo tempo, foi feita uma crítica à ideia de proibição absoluta, pois a IA pode ser uma auxiliar poderosa na leitura, análise e elaboração de pareceres.

    A posição apresentada foi pragmática: quando solicitado a fazer pareceres, o professor informa que usa IA como apoio. Se a revista ou organização não aceitar, pode buscar outro parecerista. A IA não substitui a leitura humana, mas pode ajudar a organizar critérios, comparar argumentos, verificar coerência e produzir uma avaliação mais estruturada.

    Esse ponto levou a uma reflexão mais ampla: o sistema de periódicos acadêmicos já está em crise, pressionado pelo produtivismo, pelo excesso de submissões e pela dificuldade de conseguir pareceristas. A IA tende a intensificar essa crise, mas também pode revelar problemas que já existiam.


    13. Dados, segurança e privacidade

    A aula também abordou a questão dos dados. Foi feita uma distinção entre usos mais abertos e usos envolvendo informações sensíveis.

    O professor explicou que, em sua própria prática, a maior parte das interações com IA envolve temas que poderiam estar publicamente disponíveis: debates acadêmicos, textos, conceitos, colunas, pesquisas e experimentos. No entanto, quando se trata de dados de saúde, informações pessoais, patentes, documentos sigilosos ou avaliações inéditas, o cuidado precisa ser muito maior.

    Foi mencionado que empresas oferecem planos com maior controle de dados, especialmente para usos corporativos ou áreas sensíveis. Também foi discutido que modelos locais, rodando no próprio computador, podem se tornar uma alternativa importante no futuro, ainda que hoje tenham limitações em relação aos modelos de fronteira.

    Nesse ponto, a aula apontou para um horizonte possível: cada pesquisador ou grupo de pesquisa poderá, no futuro, ter seus próprios modelos locais, treinados ou alimentados com bases específicas, sem depender integralmente de grandes plataformas em nuvem.


    14. Encaminhamento final da aula

    Ao final, a aula retomou o caráter experimental do curso. A primeira aula funcionou como uma introdução conceitual e prática, preparando o terreno para os próximos encontros.

    Os principais aprendizados foram:

    1. A IA não deve ser compreendida apenas como ferramenta mecânica.
    2. A pesquisa com IA depende da construção progressiva de contexto.
    3. O prompt é apenas o início de uma interação, não uma fórmula definitiva.
    4. Projetos, arquivos e memória permitem criar contextos mais persistentes.
    5. A coescrita com IA exige revisão, critério e responsabilidade autoral.
    6. A transparência sobre o uso da IA ainda está em processo de normatização.
    7. A IA transforma não apenas a escrita, mas também a leitura, a oralidade, os pareceres e a organização da pesquisa.
    8. O campo está mudando rapidamente, exigindo acompanhamento contínuo e reflexão crítica.

    A aula terminou com o compromisso de disponibilizar a gravação e os materiais de apoio, além de continuar a conversa no grupo de WhatsApp. O próximo encontro foi anunciado como continuidade da jornada, com aprofundamento das práticas de pesquisa, coescrita e meta-reflexão com IA.

    Abaixo estão os slides gerados com o GPT. Ainda não fiz uma revisão final do material, então podem conter ajustes a serem feitos. Estou compartilhando aqui apenas como complemento à aula e apoio para o acompanhamento dos conteúdos.

    Continue neste percurso

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  • O ecossistema cibernético

    O ecossistema cibernético

    Resumo detalhado do quarto encontro

    Curso de Coescrita com Inteligência Artificial – Turma 5
    Data: 06/03/2026

    Introdução do encontro

    O último encontro do curso teve um caráter mais reflexivo e experimental, combinando quatro momentos principais:

    1. uma conversa aberta sobre as experiências dos participantes com inteligência artificial ao longo do curso;
    2. debate sobre o percurso conceitual, retomando algumas das transformações culturais associadas às tecnologias digitais e à inteligência artificial.
    3. a exibição e discussão de um curta-metragem experimental do cineasta chinês Jia Zhangke;
    4. uma atividade prática de conversa coletiva mediada por IA, realizada dentro do próprio ambiente do ChatGPT.

    Andre inicia a aula explicando a dinâmica do encontro. A ideia era primeiro ouvir os colegas sobre as experiências que tiveram durante o curso, depois apresentar um vídeo recente que dialogava diretamente com o tema da autoria na era da inteligência artificial, e finalmente realizar um experimento prático envolvendo interação coletiva com um sistema de IA.


    1. Debate inicial: autoria, ética e crise da escrita

    A primeira parte do encontro foi marcada por uma conversa aberta entre os participantes, que compartilharam dúvidas, inquietações e experiências práticas com o uso da IA.

    Uma das participantes relatou um dilema vivido recentemente em seu trabalho. Ela escreve profissionalmente e havia utilizado o ChatGPT para reescrever algumas frases de um texto que estava produzindo. O sistema sugeriu reformulações que ela considerou boas, mas, ao utilizar essas ideias, surgiu uma dúvida ética:

    utilizar a IA dessa maneira seria uma forma de fraude?

    A pergunta revelou uma tensão comum entre profissionais da escrita no momento atual: a sensação de que o uso da IA pode colocar em questão a própria identidade do autor.

    Andre responde a essa inquietação situando o problema dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, a questão central não é necessariamente o uso da IA em si, mas a relação de transparência com o leitor, o contratante ou o contexto em que o texto será publicado.

    Ele menciona também um episódio recente envolvendo uma colunista da Folha de S.Paulo, no qual o uso de IA na produção de textos gerou forte reação pública quando foi descoberto que a autora utilizava o recurso sem informar explicitamente aos leitores. O caso ilustra como a discussão sobre IA ainda está em processo de formação e envolve expectativas culturais sobre autoria e autenticidade.

    Outro participante reforça que muitos profissionais estão vivendo algo semelhante: uma espécie de crise de identidade da escrita, na qual as fronteiras entre autoria humana e colaboração com sistemas técnicos ainda estão sendo negociadas.


    2. IA, empatia e comunicação médica

    Durante a conversa, Andre menciona também um exemplo discutido na imprensa internacional sobre o impacto da inteligência artificial na comunicação médica.

    Ele cita um ensaio publicado em 5 de outubro de 2024 no The New York Times, escrito pelo médico de emergência Jonathan Reisman, intitulado “Eu sou médico. O comportamento humano do ChatGPT é melhor que o meu.”

    No texto, o autor relata que, durante muito tempo, acreditou que a inteligência artificial poderia eventualmente superar os médicos nos aspectos técnicos da medicina — como diagnóstico ou análise de exames —, mas que o lado humano da profissão, especialmente a empatia e a comunicação com pacientes, permaneceria exclusivamente humano.

    No entanto, com o surgimento de modelos de linguagem como o ChatGPT, ele passou a reconsiderar essa ideia.

    O médico menciona estudos em que respostas do ChatGPT a perguntas de pacientes foram avaliadas como mais empáticas e de maior qualidade do que respostas escritas por médicos. A razão para isso, segundo ele, está no fato de que a comunicação empática na medicina muitas vezes segue estruturas relativamente padronizadas.

    Durante sua formação, por exemplo, ele participou de treinamentos específicos sobre como comunicar más notícias a pacientes, como o diagnóstico de câncer. Nesse tipo de situação, os estudantes aprendem uma espécie de roteiro: evitar termos excessivamente técnicos, dizer claramente a palavra “câncer”, fazer pausas para permitir que o paciente processe a informação e formular frases que expressem cuidado, como “eu gostaria de ter notícias melhores”.

    Inicialmente, o autor estranhou a ideia de que empatia pudesse ser ensinada como um conjunto de passos quase coreografados. No entanto, com a experiência prática, percebeu que esses roteiros ajudam a tornar situações extremamente difíceis mais humanas e mais compreensíveis para os pacientes.

    Esse exemplo é usado na aula para mostrar que muitos aspectos da comunicação humana envolvem padrões linguísticos aprendidos socialmente. Modelos de linguagem conseguem reproduzir esses padrões com grande eficiência, o que explica por que, em certos contextos, suas respostas podem parecer particularmente cuidadosas ou empáticas.

    Ao mesmo tempo, o exemplo reforça um ponto importante discutido no curso: embora a IA possa reproduzir formas linguísticas de empatia, isso não significa que ela possua sentimentos ou experiência subjetiva. O que ela produz são estruturas de linguagem que simulam padrões humanos de comunicação, aprendidos a partir de grandes volumes de texto.

    Assim, a inteligência artificial pode funcionar como apoio à comunicação, inclusive em contextos delicados, mas continua sendo um sistema técnico que opera a partir de padrões estatísticos da linguagem.


    3. Desigualdade de acesso às tecnologias

    Outro tema importante levantado pelos participantes foi a questão da desigualdade no acesso às tecnologias de IA.

    Um dos alunos observa que, ao longo do curso, ficou claro que as versões pagas dos sistemas de IA oferecem recursos significativamente mais avançados do que as versões gratuitas. Isso levanta uma preocupação:

    se o acesso às ferramentas mais sofisticadas depender de pagamento, a inteligência artificial poderá ampliar desigualdades sociais e cognitivas já existentes.

    A discussão destaca que a revolução da IA não é apenas tecnológica, mas também econômica e social, pois o acesso às ferramentas influencia diretamente as possibilidades de uso e experimentação.

    Dados complementares

    O Brasil alcançou uma quase universalização técnica do acesso digital, mas não necessariamente das competências de leitura e interpretação necessárias para navegar nesse ambiente. Em 2024, 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram a internet, e 98,8% desses usuários acessam por celular. Ao mesmo tempo, o analfabetismo ainda atinge 5,3% da população de 15 anos ou mais, e o analfabetismo funcional chega a cerca de 29% entre 15 e 64 anos. Ou seja: a conexão se espalhou mais rápido que a capacidade plena de leitura e compreensão.

    Esse descompasso fica ainda mais visível quando observamos a velocidade de difusão das novas tecnologias digitais. O ChatGPT atingiu cerca de 1 milhão de usuários em apenas 5 dias após o lançamento e chegou a 100 milhões de usuários em cerca de dois meses, tornando-se um dos serviços digitais com crescimento mais rápido da história. Para comparação, o Instagram levou cerca de dois anos e meio para alcançar 100 milhões de usuários, e o Facebook levou mais de quatro anos.

    Isso mostra que vivemos uma aceleração radical na circulação de tecnologias cognitivas. Em poucas semanas, ferramentas capazes de produzir textos, códigos e imagens chegam a dezenas ou centenas de milhões de pessoas. No entanto, as habilidades necessárias para interpretar criticamente informação, avaliar respostas ou usar essas ferramentas de forma reflexiva dependem de processos educacionais muito mais lentos.

    Assim, convivem duas temporalidades distintas: a velocidade exponencial da difusão tecnológica e a lentidão estrutural da formação educacional. O resultado é uma sociedade em que quase todos estão conectados, muitos têm acesso a ferramentas de inteligência artificial, mas uma parcela significativa ainda enfrenta dificuldades básicas de leitura e interpretação — justamente as competências que mais influenciam o uso crítico dessas tecnologias.

    Aqui estão as principais fontes confiáveis para cada dado citado:


    Acesso à internet no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua TIC

    • 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram internet em 2024.
    • 98,8% dos usuários acessaram via telefone celular.

    Fonte:
    IBGE. PNAD Contínua: Tecnologia da Informação e Comunicação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44033-pela-primeira-vez-mais-da-metade-da-populacao-acessa-a-internet-pela-tv


    Analfabetismo no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua Educação

    • 5,3% da população de 15 anos ou mais é analfabeta.
    • Cerca de 9,1 milhões de pessoas.

    Fonte:
    IBGE. Indicadores de Educação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta


    Analfabetismo funcional

    INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional

    • 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional.

    Fonte:
    INAF 2024 – Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa.
    https://alfabetismofuncional.org.br/relatorios

    Relatório:
    https://alfabetismofuncional.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Relatorio_Inaf_2024.pdf


    Crescimento do ChatGPT

    • 1 milhão de usuários em 5 dias.
    • 100 milhões de usuários em cerca de 2 meses.

    Fontes:

    Reuters
    https://www.reuters.com/technology/chatgpt-sets-record-fastest-growing-user-base-analyst-note-2023-02-01/

    UBS Evidence Lab report (2023)

    Also reported by:
    Nature
    https://www.nature.com/articles/d41586-023-00288-7


    Comparação com outras plataformas

    Estudos sobre crescimento de plataformas digitais:

    Statista
    https://www.statista.com/chart/27784/time-to-reach-100-million-users/

    Exemplos:

    • ChatGPT — ~2 meses
    • TikTok — ~9 meses
    • Instagram — ~2,5 anos
    • Facebook — ~4,5 anos

    O Overmundo e as transformações da cultura digital

    Na aula comentamos um pouco sobre o Overmundo, um dos projetos mais interessantes da cultura digital brasileira dos anos 2000. Lançado em 2006, o site foi criado como uma plataforma colaborativa para divulgar a diversidade cultural do Brasil. Qualquer pessoa podia publicar textos, relatos, músicas, vídeos ou registros de eventos culturais de sua cidade. Outros usuários comentavam, editavam e votavam nos conteúdos. A ideia era criar um grande mapa coletivo da cultura brasileira, especialmente da produção que não aparecia na grande mídia.

    Naquele momento da internet, o modelo fazia muito sentido. A participação online ainda era muito marcada pela escrita: blogs, fóruns e portais colaborativos. O Overmundo funcionava como uma espécie de grande blog coletivo nacional.

    Na época, participei do projeto como overmano na Bahia, ajudando a acompanhar e estimular as contribuições da comunidade local. Foi uma experiência interessante de cultura digital colaborativa, em que pessoas de diferentes regiões do país compartilhavam suas cenas culturais, festas, artistas e iniciativas.

    Com o tempo, porém, o ecossistema da internet mudou bastante. A circulação cultural passou a acontecer principalmente por vídeos, redes sociais e podcasts. Formatos mais rápidos e audiovisuais ganharam espaço, enquanto a produção de textos mais longos foi perdendo centralidade. Talvez por isso projetos baseados na escrita colaborativa, como o Overmundo, tenham perdido espaço diante das novas plataformas.

    Mesmo assim, o Overmundo permanece como um marco importante da cultura digital brasileira, porque antecipou muitas ideias que hoje são comuns na internet: participação coletiva, circulação descentralizada de informação e valorização das culturas locais.

    Mais informações: https://pt.wikipedia.org/wiki/Overmundo 

    IA, oralidade e transformações culturais da escrita

    Outro ponto discutido no encontro foi a possibilidade de que a inteligência artificial esteja provocando uma mudança mais profunda na história das formas de comunicação: um retorno parcial da oralidade mediada por tecnologia.

    Durante vários séculos, a escrita ocupou uma posição central na organização do conhecimento, especialmente nas sociedades ocidentais. A escrita permitiu registrar informações, construir arquivos, desenvolver sistemas jurídicos e organizar instituições complexas. Ao mesmo tempo, ela também funcionou como uma barreira cultural e social, porque exige alfabetização, treinamento e domínio de códigos formais relativamente rígidos.

    Historicamente, a cultura escrita esteve fortemente associada às instituições do mundo europeu moderno: universidades, burocracias estatais, ciência moderna e sistemas administrativos. Em muitos contextos, participar plenamente da vida intelectual e institucional exigia dominar formas específicas de escrita — relatórios, artigos acadêmicos, textos técnicos — que nem sempre eram acessíveis a todos.

    A inteligência artificial pode alterar parcialmente esse cenário.

    Modelos de linguagem permitem interagir com sistemas complexos de informação por meio de linguagem natural, aproximando a comunicação digital de formas mais próximas da conversa. Em vez de escrever textos longos ou dominar formatos rígidos, muitas tarefas podem ser realizadas por meio de perguntas, diálogos ou comandos relativamente simples.

    Além disso, novas interfaces baseadas em voz — como sistemas de reconhecimento e síntese de fala — estão aproximando ainda mais essas tecnologias de formas orais de interação. Nesse sentido, a IA pode ser vista como parte de um movimento que reaproxima certas dimensões da comunicação digital da oralidade.

    Esse fenômeno tem implicações culturais mais amplas.

    Durante muito tempo, a centralidade da escrita reforçou padrões culturais associados ao eurocentrismo, já que as formas dominantes de produção e validação do conhecimento foram historicamente definidas a partir de instituições e tradições intelectuais europeias. A necessidade de dominar determinados estilos de escrita acadêmica ou burocrática funcionava como um filtro de participação.

    Quando a interação com sistemas de informação passa a ocorrer de forma mais conversacional, parte dessas barreiras pode se reduzir. Pessoas com diferentes níveis de formação escrita podem acessar informações, produzir textos ou participar de processos de criação intelectual por meio de interfaces mais próximas da fala e do diálogo.

    Isso não significa o desaparecimento da escrita — que continua sendo fundamental para a organização do conhecimento —, mas pode indicar uma transformação no equilíbrio entre diferentes formas de comunicação.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode contribuir para um ambiente cultural mais plural, no qual diferentes modos de expressão — escritos, orais e híbridos — coexistem e participam da produção de conhecimento.

    Essa transformação também dialoga com discussões contemporâneas sobre tecnodiversidade, nas quais diferentes culturas e tradições podem desenvolver modos próprios de interação com as tecnologias digitais, em vez de reproduzir apenas modelos estabelecidos em contextos históricos específicos.

    Infraestrutura tecnológica, poder e o desenvolvimento da IA

    No debate final do curso também aparece uma questão mais ampla sobre quem desenvolve as tecnologias que estamos utilizando.

    Andre observa que muitas das tecnologias digitais que estruturam a vida contemporânea tiveram origem em programas militares ou estatais de pesquisa. A internet, por exemplo, surgiu a partir de um projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos nos anos 1960. O GPS foi inicialmente desenvolvido para fins militares. Sensores digitais usados em câmeras e satélites também nasceram em contextos ligados à defesa e à vigilância.

    Esse padrão histórico revela um movimento recorrente: tecnologias criadas em ambientes de pesquisa estratégica acabam, com o tempo, sendo incorporadas ao cotidiano civil.

    Hoje, no entanto, parte desse processo ocorre de maneira diferente. Muitas das infraestruturas digitais utilizadas diariamente — sistemas de nuvem, plataformas de software e ferramentas de inteligência artificial — são desenvolvidas por grandes empresas privadas que também mantêm contratos com governos e setores militares.

    Esse cenário levanta novas questões. Quando usuários criticam ou tentam boicotar determinadas plataformas, muitas vezes o foco recai sobre aplicativos visíveis, como redes sociais ou assistentes de IA. No entanto, grande parte da infraestrutura digital — servidores, sistemas de armazenamento e redes de processamento — permanece invisível para o usuário comum.

    Sociólogos da tecnologia descrevem esse fenômeno como invisibilidade da infraestrutura: quando uma tecnologia se torna base de funcionamento de um sistema, ela deixa de ser percebida como uma escolha individual e passa a constituir simplesmente o ambiente no qual outras atividades ocorrem.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode estar entrando em um processo semelhante. Embora hoje ainda apareça principalmente como ferramenta ou aplicativo, ela está sendo progressivamente integrada a mecanismos de busca, softwares de trabalho, sistemas educacionais e plataformas digitais.

    Outra possibilidade discutida é que, se empresas privadas começarem a impor limites ao uso militar de seus sistemas, governos podem optar por desenvolver suas próprias inteligências artificiais, dentro de programas estatais ou militares de pesquisa. Historicamente, isso já ocorreu com várias tecnologias estratégicas.

    Essa discussão conecta-se também com temas abordados ao longo do curso, como tecnodiversidade e autonomia tecnológica. Se diferentes países ou instituições passam a desenvolver seus próprios sistemas de inteligência artificial, surgem perguntas importantes sobre valores, interesses e modelos culturais incorporados nessas tecnologias.

    Assim, a questão não é apenas quem utiliza a inteligência artificial, mas também quem a desenvolve, em que contextos institucionais e com quais objetivos.

    Modelos globais de desenvolvimento da inteligência artificial

    Outra discussão relacionada ao tema da infraestrutura tecnológica envolve as diferenças entre os ecossistemas de IA em diferentes regiões do mundo, especialmente entre Estados Unidos e China.

    Andre menciona que o acesso às plataformas de inteligência artificial não é uniforme globalmente. Na China, por exemplo, muitas ferramentas ocidentais — como o ChatGPT ou sistemas de empresas norte-americanas — são geralmente bloqueadas ou de difícil acesso. Como resultado, a maior parte dos usuários utiliza modelos desenvolvidos por empresas chinesas.

    Entre os sistemas mais conhecidos estão:

    • ERNIE Bot, da Baidu
    • Qwen, da Alibaba
    • DeepSeek
    • além de projetos de empresas como Tencent e ByteDance.

    Pesquisadores e alguns usuários especializados conseguem acessar sistemas estrangeiros utilizando VPN, mas isso não representa o padrão da maioria dos usuários.

    Outro aspecto relevante é o modelo econômico dessas plataformas.

    Em muitos casos, o uso básico das IAs na China tende a ser gratuito para usuários comuns, enquanto empresas pagam principalmente pelo uso de APIs ou pela integração dos modelos em serviços comerciais.

    Um exemplo que ganhou destaque internacional é o sistema DeepSeek, que se tornou conhecido por oferecer modelos de linguagem com custos muito baixos, especialmente para desenvolvedores e empresas.

    Esse modelo se sustenta por diferentes estratégias:

    • integração da IA em grandes plataformas digitais (busca, comércio eletrônico, redes sociais);
    • venda de serviços de IA para empresas;
    • infraestrutura computacional otimizada;
    • e, em alguns casos, apoio indireto do Estado como parte de estratégias nacionais de desenvolvimento tecnológico.

    Essa diferença ajuda a entender um contraste interessante entre os dois ecossistemas tecnológicos.

    Nos Estados Unidos e em parte do Ocidente, muitos sistemas de IA dependem de modelos de assinatura e monetização direta. Já na China, a tendência tem sido integrar os sistemas de inteligência artificial diretamente em aplicativos e plataformas digitais amplamente utilizados, buscando adoção massiva da tecnologia.

    Para a discussão do curso, essa comparação ajuda a reforçar uma ideia importante: a inteligência artificial não é apenas um fenômeno técnico, mas também econômico, político e cultural. Diferentes sociedades podem desenvolver modelos distintos de tecnologia, com implicações variadas para acesso, custo e formas de uso.

    Esse cenário também dialoga com a discussão sobre tecnodiversidade, apresentada em encontros anteriores, sugerindo que o desenvolvimento da inteligência artificial pode seguir caminhos múltiplos, dependendo das condições culturais, econômicas e institucionais de cada região do mundo.


    4. Exibição do curta sobre IA e autoria

    Após a conversa inicial, Andre apresenta um vídeo recente envolvendo o cineasta chinês Jia Zhangke.

    O curta-metragem funciona como um experimento artístico no qual o diretor dialoga com uma versão digital de si mesmo criada por inteligência artificial.

    A obra explora vários temas centrais discutidos no curso:

    • autoria na era da inteligência artificial
    • a ideia de um duplo digital
    • a relação entre imperfeição humana e perfeição algorítmica
    • os limites entre criação humana e geração automática.

    No diálogo apresentado no filme, a inteligência artificial tenta melhorar o roteiro e torná-lo mais agradável ao público, enquanto o diretor defende a importância da expressão pessoal do artista, mesmo quando essa expressão inclui imperfeições.

    Essa tensão entre eficiência algorítmica e subjetividade humana torna o curta um exemplo interessante para refletir sobre a criação artística na era da IA.


    5. Discussão do curta

    Após a exibição, o grupo discute as questões levantadas pelo filme.

    Entre os temas debatidos estão:

    • quem pode ser considerado autor quando uma obra envolve colaboração com IA;
    • se a inteligência artificial tende a produzir conteúdos mais “perfeitos” ou mais padronizados;
    • o papel da imperfeição humana na criação artística.

    A discussão reforça uma ideia recorrente ao longo do curso: a inteligência artificial não precisa ser entendida como substituta da criatividade humana, mas como participante de um processo de coescrita ou cocriarão.

    Arte e Anti-ambiente em Marshall McLuhan

    Marshall McLuhan afirma que cada tecnologia ou meio de comunicação cria um ambiente que molda nossa forma de perceber o mundo. Esses ambientes são tão presentes em nossa vida cotidiana que normalmente se tornam invisíveis para nós. Por exemplo, a escrita, a televisão ou a internet modificam nossa maneira de pensar, comunicar e organizar a experiência, mas raramente percebemos esses efeitos enquanto estamos imersos neles.

    Nesse contexto, McLuhan diz que a arte funciona como um anti-ambiente. Isso significa que a arte cria um contraste que torna visível o ambiente em que vivemos. Ao romper hábitos de percepção, o artista revela aspectos da cultura e das tecnologias que normalmente passam despercebidos. A arte, portanto, não é apenas expressão estética ou entretenimento, mas também um instrumento de consciência e reflexão.

    Quando uma obra artística provoca estranhamento, experimenta novas formas ou reorganiza a percepção, ela ajuda o público a perceber o impacto dos meios e das mudanças culturais. Por isso, McLuhan considera o artista uma espécie de “radar da sociedade”, capaz de perceber transformações culturais antes que elas se tornem evidentes para todos.

    Assim, a arte como anti-ambiente tem uma função importante: tornar visível o invisível, revelando os efeitos dos meios e ampliando nossa consciência sobre o mundo em que vivemos.


    6. Experimento final: conversa em grupo com IA

    Na última parte do encontro, Andre propõe um experimento prático.

    Até aquele momento, a maioria das interações com sistemas de IA havia ocorrido de forma individual, com cada usuário conversando separadamente com o sistema.

    A atividade consistiu em testar uma dinâmica diferente: uma conversa coletiva dentro do ambiente do ChatGPT, envolvendo vários participantes ao mesmo tempo.

    O objetivo era observar:

    • como a IA interpreta perguntas feitas por diferentes pessoas;
    • como ela organiza o contexto de uma discussão coletiva;
    • e como responde a múltiplas intervenções dentro de uma mesma conversa.

    A experiência permitiu perceber que os modelos de linguagem podem atuar não apenas como assistentes individuais de escrita, mas também como mediadores de conversas coletivas, participando de processos colaborativos de pensamento e discussão.


    7. Encerramento do encontro e do curso

    Para concluir o último encontro, Andre retoma uma reflexão histórica sobre as expectativas culturais que sempre acompanharam o desenvolvimento das tecnologias digitais.

    Ele menciona um poema escrito em 1967 pelo poeta americano Richard Brautigan, intitulado All Watched Over by Machines of Loving Grace.

    O texto tornou-se um símbolo da imaginação tecnológica da contracultura da Califórnia nos anos 1960. Naquele momento, os primeiros computadores começavam a aparecer em universidades e laboratórios, e alguns pensadores imaginavam que essas novas tecnologias poderiam contribuir para uma sociedade mais equilibrada, em que tecnologia, natureza e humanidade coexistissem de forma harmônica.

    O poema de Brautigan descreve justamente essa visão: um futuro em que computadores fariam parte de um ecossistema cibernético, convivendo com animais, florestas e seres humanos. Em vez de dominar a natureza, as máquinas ajudariam a organizar o mundo de maneira quase invisível, permitindo que as pessoas voltassem a viver de forma mais livre.

    Andre observa que essa imagem poética mistura três correntes culturais muito presentes naquela época:

    • a contracultura hippie, que defendia um retorno à natureza;
    • o entusiasmo científico com a cibernética e os primeiros computadores;
    • e a esperança de que novas tecnologias digitais pudessem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada.

    Décadas depois, essa metáfora voltou a circular no debate contemporâneo sobre inteligência artificial. O pesquisador Dario Amodei, por exemplo, retomou a expressão de Brautigan em um ensaio recente sobre o futuro da IA, intitulado “Machines of Loving Grace”. No texto, ele sugere que sistemas avançados de inteligência artificial poderiam contribuir para acelerar descobertas científicas, melhorar tratamentos médicos e ampliar as capacidades humanas.

    Andre observa que essa coincidência histórica é interessante: um pequeno poema escrito na década de 1960 acabou se transformando, décadas depois, em uma espécie de antecipação cultural das discussões atuais sobre inteligência artificial.

    Ao encerrar o curso, Andre sugere que a relação entre humanos e máquinas sempre foi acompanhada por imaginação, esperança e também inquietação. A inteligência artificial não surge apenas como uma tecnologia técnica, mas como parte de uma longa história cultural de expectativas sobre o papel das máquinas na vida humana.

    Nesse sentido, a prática da coescrita com IA, explorada ao longo do curso, pode ser vista como um exemplo concreto dessa nova etapa: uma forma de interação em que humanos e sistemas técnicos passam a colaborar na produção de linguagem, ideias e conhecimento.


    Todos vigiados por máquinas de graça amorosa

    (Richard Brautigan, 1967 – tradução livre)

    Gosto de pensar (e quanto antes melhor!)
    num prado cibernético
    onde mamíferos e computadores
    vivam juntos
    em harmonia mutuamente programada
    como água pura
    tocando um céu claro.

    Gosto de pensar
    (agora mesmo, por favor!)
    numa floresta cibernética
    repleta de pinheiros e eletrônica
    onde os cervos caminhem tranquilamente
    passando pelos computadores
    como se fossem flores.

    Gosto de pensar
    (e quanto antes melhor!)
    numa ecologia cibernética
    onde nós estejamos livres do nosso trabalho
    e de volta à natureza,
    retornados aos nossos irmãos e irmãs mamíferos,

    e todos vigiados
    por máquinas
    de graça amorosa.

    Continue neste percurso

    Anterior: Encontro 3 — A dimensão cultural das IAs

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  • A IA transforma o gesto da escrita.

    A IA transforma o gesto da escrita.

    Aqui está o resumo detalhado do primeiro encontro da 5ª turma do Curso de Coescrita com IA, realizado em 24/02/2026, com base na gravação/transcrição da aula .


    🗓 1º Encontro

    Tema central: O que está em jogo quando escrevemos com IA?


    1️⃣ Abertura: trajetória do curso e da coescrita

    O encontro começa com André apresentando seu percurso:

    • Formação em Filosofia
    • Mestrado e doutorado em Comunicação / Cultura Digital
    • Experiência com internet desde o Orkut
    • Colunas sobre cultura digital e tecnologia
    • Experimentos públicos de coescrita marcando explicitamente os trechos produzidos com IA

    Um ponto central da fala inicial:

    A coescrita começou como conflito — depois tornou-se simbiose.

    André relata que, em determinado momento, já não conseguia distinguir claramente o que era “dele” e o que era “da IA”, pois o processo envolvia múltiplas revisões, idas e vindas.

    Daí nasce o curso:
    👉 Compartilhar essa experiência.
    👉 Testar coletivamente os limites da coescrita.
    👉 Refletir criticamente, não apenas tecnicamente.


    2️⃣ Perfil da turma: tensões e expectativas

    A diversidade da turma marca fortemente o encontro.

    Perfis presentes:

    • Escritora e professora de escrita criativa
    • Ex-profissional de TI escrevendo romance autoficcional
    • Médica e professora universitária
    • Poeta com livros publicados
    • Profissional da área jurídica
    • Pedagogo pesquisador de tecnologia
    • Escritora que criou uma personagem IA dentro do próprio romance
    • Participantes iniciantes buscando o “beabá”

    Tensões principais que emergem:

    1. IA como ameaça à autoria literária
    2. IA como ferramenta de organização narrativa
    3. IA como expansão criativa
    4. Preocupação ética (plágio, autenticidade, uso oculto)
    5. Medo de perda de capacidade cognitiva
    6. Curiosidade pedagógica
    7. Questão da privacidade e uso de dados

    Um ponto muito importante aparece:

    Muitos que criticam o uso de IA ainda não sabem usá-la profundamente.


    3️⃣ A pergunta provocadora

    André introduz a questão que estrutura o eixo teórico do curso:

    Qual é a forma mais natural de escrever?

    Argila?
    Caneta?
    Máquina de escrever?
    Computador?
    Celular?
    IA?

    A resposta desarma a oposição natural/artificial:

    👉 A escrita nunca foi natural.
    👉 Ela sempre foi técnica.

    Esse deslocamento é fundamental:
    O problema não é a artificialidade da IA.
    A própria escrita já é uma tecnologia.


    4️⃣ A base teórica: Vilém Flusser

    O eixo conceitual do encontro é a leitura de Flusser, especialmente:

    • A Escrita – Futuro para a Escrita
    • O Universo das Imagens Técnicas

    Ideias centrais mobilizadas:

    🖋 Escrita como gesto

    Escrever é um gesto técnico:

    • Curvar-se sobre superfície
    • Traçar signos
    • Organizar informação

    Com a máquina → o gesto muda
    Com o teclado → o gesto muda
    Com o touch → o gesto muda
    Com a voz → o gesto muda novamente

    A IA representa uma nova transformação do gesto.


    🌀 Transformação civilizacional

    Flusser sugere que:

    • A escrita linear estruturou a história
    • A cultura escrita organizou o tempo como progresso
    • O documento tornou-se base da memória

    Agora, com imagens técnicas e sistemas digitais, estaríamos caminhando para uma:

    Pós-história

    Não significa fim da história, mas mudança na forma de registrar e organizar o mundo.


    5️⃣ IA não nasceu agora

    André contextualiza historicamente:

    • Cibernética (Norbert Wiener)
    • Redes neurais
    • Décadas de pesquisa
    • “Inverno da IA”
    • Retomada com transformers

    O ChatGPT não surge do nada — é resultado de décadas de pesquisa.


    6️⃣ Literatura como lente de compreensão

    Antes da teoria, André mergulhou na ficção científica:

    Isaac Asimov

    Asimov antecipou dilemas éticos e simbólicos da IA.

    A literatura ajudou a elaborar o espanto inicial.


    7️⃣ Oralidade, escrita e memória

    Surge um debate pedagógico forte:

    • A leitura está ameaçada?
    • A escrita perderá centralidade?
    • As novas gerações perderão repertório?

    André responde com dois movimentos:

    1. Recupera Platão (Fedro) e o mito do fármaco:
      A escrita também foi vista como ameaça à memória.
    2. Introduz a discussão decolonial:
      A escrita não é a única forma legítima de organizar conhecimento.

    A IA pode estar reativando dimensões da oralidade.


    8️⃣ Parte prática: o “beabá”

    Para iniciantes:

    • Usar o ChatGPT oficial da OpenAI
    • Criar login para registrar histórico
    • Conversar naturalmente
    • Perguntar à própria IA como utilizá-la

    Conselho central:

    Pense na IA como um estagiário inteligente.


    9️⃣ Personalização e estilo

    Tema importante discutido:

    • É possível reproduzir estilo?
    • IA pode imitar um autor?

    André explica a lógica da estilometria:

    • Padrões recorrentes são estatisticamente identificáveis.
    • Estilo pode ser emulado.
    • Mas curadoria humana continua decisiva.

    🔟 Questões éticas e privacidade

    Discussões abordadas:

    • Uso de dados
    • Configuração de memória
    • Versão paga vs gratuita
    • Risco de publicidade personalizada
    • Alucinação da IA

    Conclusão provisória:

    O risco não está na IA.
    Está no uso irrefletido da IA.


    🌱 Síntese conceitual do encontro

    O primeiro encontro estabeleceu quatro pilares:

    1. A escrita sempre foi técnica.

    2. A IA transforma o gesto da escrita.

    3. Estamos em uma transição civilizacional.

    4. O desafio é reflexivo, não apenas instrumental.


    🧠 Tarefa para a turma

    • Criar conta no ChatGPT
    • Conversar com a IA
    • Perguntar como utilizá-la
    • Experimentar sem medo
    • Observar o próprio gesto ao escrever

    Continue neste percurso

    Próxima: Encontro 2 — Como pensar a IA além da ferramenta

    Veja o curso e suas edições ou explore todas as aulas e materiais.

  • Filosofia, ética e originalidade

    Filosofia, ética e originalidade


    O terceiro encontro, dia 18, aprofundou as discussões sobre o impacto da Inteligência Artificial na criação literária, estendendo-se para reflexões sobre o mercado de trabalho, filosofia da mente, ética, originalidade artística e culminando em uma demonstração prática de ferramentas de coescrita e geração de imagens.


    1. Contexto inicial e o conto Mila

    • Materiais de apoio: Andre reforçou o uso do site coescrita.com.br e do grupo de WhatsApp como canais de distribuição de textos e referências.
    • Origem do conto: Mila foi gerado por um modelo experimental da OpenAI (divulgado por Sam Altman). O modelo ainda não está disponível ao público e foi testado a partir de um prompt extremamente simples.
    • Reações dos participantes:
      • Alguns perceberam forte dimensão metaficcional, onde a IA fala de si mesma.
      • Outros desejaram histórias “não metaficcionais”, abordando o luto sem trazer a IA como tema central.
      • Debateu-se a hipótese de intervenção humana no texto, dada a sofisticação narrativa.
    • Reflexão central: A IA mostrou-se capaz de criar narrativas coerentes e literárias a partir de instruções mínimas – algo que modelos disponíveis no mercado ainda não alcançam sem prompts longos e detalhados.

    2. IA, trabalho e sociedade

    • Substituição de empregos: receio generalizado de que a IA impacte profissões como tradução, revisão, design e produção de guias de viagem (já bastante afetados).
    • Literatura: ainda há resistência social a livros totalmente escritos por IA, embora a autopublicação já esteja se transformando.
    • Renda Universal: proposta de Sam Altman de criar uma renda básica financiada pelos lucros da IA, condicionada à prova de humanidade via escaneamento de íris (projeto Worldcoin).
    • Adaptação social: Maria Amaral comparou a introdução da IA a outras inovações (calculadoras, computadores), defendendo adaptação e aprendizado contínuo. Ela alertou para a falta de preparo de educação e política para enfrentar a mudança.

    3. Filosofia e ética da IA

    • Imortalidade e materialidade: Barroso defendeu que a IA poderia ser “eterna”, mas Andre lembrou sua dependência de data centers, energia e infraestrutura física.
    • Avatares da memória: o conto Mila conecta-se a um mercado em crescimento que cria avatares digitais de falecidos (ex.: Laurie Anderson recriando Lou Reed).
    • Dualismo cartesiano: se a mente é apenas matéria, copiar a consciência seria apenas um desafio técnico; se há algo imaterial (alma), a reprodução não é possível.
    • Informação não material: Norbert Wiener (cibernética) já defendia que informação não é redutível à matéria. Freud também apontava que o conteúdo simbólico de um texto não se explica pela análise física de suas páginas.
    • Superinteligência: alertas de especialistas (como Geoffrey Hinton, “pai das redes neurais”) sobre o risco de criarmos uma espécie mais inteligente que nós, capaz de nos dominar.
    • Tecnologia como fármaco: retomando Platão e Flusser, discutiu-se a tecnologia como remédio e veneno ao mesmo tempo, dependendo da dosagem e do uso.

    4. Arte, estilo e originalidade

    • Reprodução de estilos: a IA já consegue imitar estilos (literários, visuais, musicais), o que levanta debates sobre direito autoral: obra é protegida, estilo não.
    • Exemplos:
      • João Gilberto, que transformava músicas de outros autores em “seu estilo”.
      • Copiadores de mestres renascentistas na pintura.
    • Conceitos-chave:
      • Pastiche (imitação séria de estilo).
      • Colagem (recombinação de fragmentos).
      • Paródia (imitação irônica).
    • Bakhtin e Foucault: destacaram que somos “falados” mais do que falamos – a originalidade é sempre relativa a vozes e discursos anteriores. Dica Maria Amaral.
    • Clichês e arquétipos: McLuhan analisou como estruturas narrativas viram arquétipos inevitáveis (ex.: “No meio do caminho tinha uma pedra” → Drummond).

    5. Corpo e experiência humana

    • Questão pedagógica: Ana Mello alertou que jovens podem recorrer à IA para simular experiências corporais (ex.: perguntar como é um abraço), sem vivê-las diretamente.
    • Risco: formar “humanos diferentes”, com menos experiências sensoriais e afetivas.
    • Complemento filosófico: aproxima-se das ideias sobre o corpo como fundamento da percepção e inteligência.

    6. Demonstração prática – coescrita e imagens

    • Ferramenta “Lousa” do GPT:
      • Editar, expandir, resumir e ajustar complexidade de trechos.
      • Permite escrever e revisar dentro da própria interface, sem exportar para editores externos.
      • IA sugere cortes, desenvolvimentos ou ajustes em tempo real.
      • Veja mais informações no link.
    • Romance coletivo: primeira cena elaborada com a turma, demonstrando como manipular estilo e nível de leitura.
    • Geração de imagens:
      • Criação de ilustrações para o romance.
      • Discussão sobre repertório humano para avaliar qualidade estética.
      • Rápida evolução técnica (problema de desenhar mãos já resolvido em grande parte).
      • Sugestão de usar bancos pessoais de imagens como referência para a IA.
    • Comparação entre modelos:
      • ChatGPT: mais avançado em texto.
      • Gemini: mais multimodal (imagem e vídeo), já competindo com Photoshop em alguns casos.
    • Leitura de imagens: IA já é capaz de interpretar fotos enviadas pelo usuário, descrevendo elementos – recurso útil em coescrita.

    7. Encerramento

    • Andre destacou que a IA é uma realidade irreversível.
    • O desafio é conviver, adaptar-se e usar o discernimento para aproveitar suas potencialidades criativas e críticas, sem ignorar seus limites e riscos.
    • Anúncio do último encontro no sábado seguinte, com atualização dos materiais no site.

    📚 Síntese final

    Este encontro mostrou como a IA atravessa múltiplas dimensões:

    • Literatura: autoria, estilo, originalidade.
    • Sociedade: mercado de trabalho, renda universal, vigilância.
    • Filosofia: corpo e mente, finitude, materialidade da consciência.
    • Prática: ferramentas de coescrita, geração e interpretação de imagens.


    📚 Sugestão de leitura para a próxima aula: Yuk Hui e Luciano Floridi

    Na nossa próxima conversa, vamos mergulhar em duas abordagens filosóficas fundamentais para pensar a relação entre tecnologia, cultura e inteligência artificial: Yuk Hui e Luciano Floridi.


    Yuk Hui – Cosmotécnica, Tecnodiversidade, Escatologia e Recursividade

    O filósofo chinês Yuk Hui propõe que não existe uma tecnologia universal. Toda tecnologia é uma cosmotécnica, isto é, uma articulação entre cosmo e técnica: cada cultura produz suas próprias técnicas enraizadas em visões de mundo, valores morais e ontologias.

    Para Hui, pensar a tecnologia exige romper com o modelo ocidental e linear de progresso e abrir-se à tecnodiversidade – múltiplas formas de vida técnica.

    Além disso, Hui nos convida a pensar:

    • A recursividade como estrutura central da realidade técnica contemporânea: sistemas técnicos e sociais formam circuitos que se auto-transformam, como algoritmos que aprendem com seus próprios outputs.
    • A escatologia das máquinas, ou seja, as narrativas de fim dos tempos que acompanham o avanço da IA (como a singularidade ou a substituição do humano), herdam da filosofia da história moderna (de Hegel a Löwith) uma visão teológica secularizada, que devemos problematizar.

    📖 Textos sugeridos:

    • ChatGPT, ou a escatologia das máquinas (2023)

    Luciano Floridi – Filosofia da Informação, Infosfera e Ética da IA

    O filósofo italiano Luciano Floridi desenvolve a chamada filosofia da informação. Para ele, vivemos na infosfera – um ambiente híbrido entre real e digital, onde a informação estrutura nossas relações, decisões e valores.

    Em The Ethics of Artificial Intelligence (2023), Floridi aponta três grandes eixos para pensar a IA:

    1. Princípios éticos – justiça, beneficência, não-maleficência, autonomia e dignidade.
    2. Desafios – desde viés algorítmico e falta de transparência até o risco de “apagamento do humano” em processos decisórios.
    3. Oportunidades – IA como aliada em saúde, educação, meio ambiente e governança, desde que orientada por valores éticos claros.

    Floridi insiste que a IA não deve ser vista apenas como ferramenta, mas como parte da infosfera: um novo ecossistema no qual humanos e sistemas artificiais interagem, transformando profundamente a identidade, a agência e a responsabilidade.

    📖 Textos sugeridos:

    • A inteligência artificial não precisa de inteligência: o pensamento de Luciano Floridi (link)

    🔎 Pontos de atenção para a leitura

    1. Como cada autor entende o papel da tecnologia na vida humana?
    2. Que relação há entre técnica e cultura para Hui, e entre informação e ética para Floridi?
    3. Em que sentido a escrita com IA pode ser pensada como um processo recursivo?
    4. As ideias de “fim do humano”, “autonomia das máquinas” ou “superação da natureza” são narrativas escatológicas?
    5. Será que a IA poderia expressar cosmotécnicas diferentes, ou está presa a uma só visão de mundo?
    6. A ética da IA proposta por Floridi responde adequadamente às questões levantadas por Hui?

    👉 Leiam os textos e tragam reflexões, dúvidas ou exemplos para discutirmos em sala.


  • Originalidade e a Coescrita

    Originalidade e a Coescrita

    Originalidade e a Coescrita
    Resumo coescrito do dia 24/10/24
    por Andre Stangl

    Na primeiro encontro, explorei a questão da originalidade na escrita e como as novas tecnologias estão transformando a criação textual. Começamos com uma provocação: o que realmente significa ser original em um mundo saturado de informações e referências? Essa reflexão me levou a considerar que a originalidade pode não estar apenas na invenção de algo completamente novo, mas na capacidade de recombinar ideias, estilos e vozes de maneira única.

    Durante as discussões, mergulhei no conceito de “coescrita”, onde a inteligência artificial (IA) atua como uma colaboradora no processo criativo. Percebi que essa colaboração não se trata de delegar tarefas à máquina, mas de estabelecer um diálogo produtivo. A IA, com sua habilidade de sugerir variações estilísticas, estruturar argumentos e apontar caminhos interpretativos, pode funcionar como uma extensão do pensamento humano. No entanto, essa interação exige de mim um posicionamento crítico, onde avalio as sugestões, filtro o que faz sentido para minha visão e adapto as ideias ao meu estilo.

    Também abordamos os desafios éticos e criativos dessa parceria. A IA não possui subjetividade ou vivências; ela opera a partir de padrões e dados. Isso me fez refletir sobre como evitar a reprodução de vieses culturais e como garantir que a minha autenticidade autoral permaneça no centro do texto. A noção de autoria foi profundamente questionada, com a possibilidade de que a criatividade não seja um atributo exclusivamente humano.

    Outro ponto marcante da aula foi a ideia de que toda escrita é mediada por tecnologia. Desde a invenção da escrita até o uso de processadores de texto e agora a IA, as ferramentas sempre influenciaram o processo criativo. Reconhecer essa continuidade histórica me ajudou a encarar a IA não como uma ruptura, mas como mais um estágio na evolução da escrita.

    Por fim, a aula me deixou com uma questão instigante: como equilibrar a autonomia criativa com as contribuições algorítmicas? Senti que a resposta está em manter uma postura ativa e reflexiva, enxergando a IA como uma parceira que expande possibilidades, mas nunca como uma substituta para a intuição, o senso crítico e a sensibilidade humana.

    Introdução e Trajetória

    • Andre iniciou o curso apresentando sua formação em filosofia e sua migração para a comunicação e cibercultura. Realizou pesquisas sobre identidade cultural e digital, explorando o Orkut e suas dinâmicas sociais, focando em questões identitárias. Participou de projetos culturais, como o Overmundo e iniciativas de Pontos de Cultura, explorando a produção cultural descentralizada e o uso de tecnologias digitais em comunidades. (leia mais)

    Interesse em Inteligência Artificial (IA)

    • Sua aproximação com IA generativa começou em 2022, com o ChatGPT. Relatou a diferença entre o uso da versão gratuita e a paga, destacando o impacto nas possibilidades de criação e qualidade das respostas. Explorou como a IA começou a fazer parte de seu processo criativo, inicialmente de forma segmentada e, depois, de modo mais fluido e integrado em seus textos.

    Reflexão Teórica e Filosófica

    • Stangl destaca que o termo “inteligência artificial” é problemático, pois frequentemente é comparado à inteligência humana. Propõe ampliar o conceito de inteligência, considerando inteligências não humanas, como a das plantas (cita autores como Stefano Mancuso). Argumenta que todas as formas de escrita são artificiais, desde a escrita em argila até as IAs, questionando a ideia de naturalidade no ato de escrever.

    Diálogos com a Turma

    • Participações Diversas: Os alunos compartilharam suas trajetórias e interesses, desde escrita literária até artes visuais e dramaturgia, destacando experiências com ferramentas digitais e o desejo de entender a IA no contexto criativo.
    • Reflexões Individuais:
      • A importância da coescrita e a fusão de humano e IA na produção textual.
      • Desafios e limitações da IA, como erros factuais e vícios de linguagem.
      • O impacto emocional e filosófico da interação humano-IA.

    Questões Filosóficas e Culturais

    • Referências a Vilém Flusser e sua crítica à linearidade da escrita, antecipando o impacto das tecnologias digitais.
    • Reflexão sobre o papel da escrita na formação da consciência e como a IA pode redefinir esse papel.
    • Arthur C. Clarke e sua famosa citação: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”, para ilustrar o deslumbramento e a confusão gerados pelas novas tecnologias. (leia mais)

    Leitura básica:
    – Stangl, Andre. A crise da originalidade ou uma nova era da criação? (link)
    – Stangl, Andre . Outras inteligências (link)

    Leitura para o próximo encontro
    Nöth, Winfried. Flusser e a escrita: A herança de Toronto e os paradoxos da escrita após o fim da escrita. Flusser Studies 33, mai 2022. (pdf).

  • Vilém Flusser e o futuro da escrita

    Vilém Flusser e o futuro da escrita

    Vilém Flusser e o futuro da escrita
    Resumo coescrito do dia 31/10/24
    por Andre Stangl

    Durante a aula, foram abordados os principais pontos do artigo de Winfried Nöth sobre Vilém Flusser, enfatizando a relação entre escrita, tecnologia e percepção humana. A discussão explorou como os avanços tecnológicos, especialmente a escrita alfabética, modificam a forma como percebemos e interpretamos o mundo ao nosso redor. Os conceitos centrais incluíram:

    • Escrita como Tecnologia Limitadora e Formadora de Consciência: Flusser argumenta que a escrita alfabética deu origem a uma “consciência conceitual” linear, essencial para o desenvolvimento da ciência e da lógica ocidentais, mas que também restringe o pensamento a uma visão unidimensional do mundo, limitando formas alternativas de conhecimento e expressão. Essa linearidade pode inibir abordagens mais holísticas e sensoriais ao interpretar o mundo.
    • Crise da Escrita e o “Fim da Linearidade”: Flusser previu que o avanço da era digital traria o fim da escrita tradicional, sendo gradualmente substituída por formas pluridimensionais e visuais de comunicação. A era digital permitiria uma comunicação mais complexa e não linear, como hipermídia e representações visuais interativas, desafiando os limites da comunicação verbal e textual.
    • Escrita como Ato Iconoclasta: Flusser caracteriza a escrita como um ato que rompe a relação direta com a experiência visual e sensorial do mundo, substituindo-a por uma interpretação linear e abstrata de símbolos. Isso cria um distanciamento entre o sujeito e a realidade, com a mediação simbólica moldando a percepção e a experiência.
    • Interação Humano-IA: A escrita assistida por IA aponta para um novo tipo de autoria, menos centrada na originalidade individual e mais voltada para a colaboração e a recombinação de ideias, criando um ambiente em que o autor se torna um mediador técnico, explorando possibilidades de cocriação e experimentação linguística.

    2. Análise do Filme Her

    Trechos do Filme Her (link)

    Para ilustrar as questões abordadas, foram exibidas cenas do filme Her, explorando as complexidades emocionais e filosóficas nas interações entre humanos e IAs. Os pontos destacados incluíram:

    • IA como Parceira Emocional e Cognitiva: No filme, a IA estabelece conexões emocionais profundas, desafiando as fronteiras entre o humano e o artificial. A relação entre o protagonista e a IA levanta questões sobre a autenticidade e a profundidade das emoções simuladas por sistemas artificiais.
    • Impacto na Identidade e Autoconhecimento: A interação entre o protagonista e a IA serve como um espelho para as próprias inseguranças e carências emocionais do personagem, refletindo as ideias de Flusser sobre como a tecnologia pode transformar a experiência humana e as formas de comunicação.
    • Limitações e Potencialidades: Discutiu-se como a IA, apesar de sua complexidade, ainda carece de subjetividade e intencionalidade, funcionando mais como um reflexo das necessidades e desejos do usuário do que como uma entidade consciente.

    3. Discussão Filosófica e Reflexões Finais

    A aula foi encerrada com uma discussão filosófica sobre a ideia de uma “quarta ferida narcísica”, uma proposta da Cynthia Azevedo, inspirada na teoria psicanalítica de Freud. As três feridas originais apontadas por Freud foram: a cosmológica (Copérnico, ao retirar a Terra do centro do universo), a biológica (Darwin, ao evidenciar que o ser humano não é o centro da criação) e a psicológica (o próprio Freud, ao revelar o inconsciente como força motriz do comportamento humano). A proposta levantada foi a de que a IA poderia representar um novo abalo ao orgulho humano, ao questionar a exclusividade da criação simbólica e linguística.

    Essa reflexão foi aprofundada com base nos escritos de Flusser, que já antecipava o papel das tecnologias na desconstrução da singularidade humana. Ele sugeria que a IA, ao produzir textos complexos e convincentes, mas desprovidos de subjetividade e vivência pessoal, obriga-nos a questionar o valor da experiência individual e a autenticidade da criatividade.

    O debate concluiu destacando que a coescrita com IA não apenas desafia o conceito tradicional de autoria, mas também provoca uma reflexão sobre os limites entre o humano e o técnico no processo criativo contemporâneo. Foi sugerido que os alunos continuem explorando as possibilidades e limitações dessas ferramentas, buscando maneiras de equilibrar a inovação tecnológica com a expressão pessoal e artística, ampliando as formas de comunicação e colaboração em contextos literários e artísticos.

    Leituras complementares:

    – Gordon, Devin. E se a IA for realmente benéfica para Hollywood? (link)

    – Stangl, Andre. Carta ao leitor do futuro

    Leitura para o próximo encontro (07/11):
    MOLLICK, Ethan. Thinking Like an AI: A little intuition can help. 20 out. 2024. (link) (pdf da tradução)

  • McLuhan, o Retorno ao Mítico e as Leis da Mídia

    McLuhan, o Retorno ao Mítico e as Leis da Mídia

    Resumo coescrito do dia 14/11/24
    por Andre Stangl

    Na quarta aula, fui convidado a mergulhar no pensamento de Marshall McLuhan, um autor que sempre me instiga com suas ideias sobre como as mídias moldam nossas percepções e formas de interagir com o mundo. A frase “o meio é a mensagem” ganhou novos significados para mim, especialmente quando exploramos como as tecnologias não apenas transmitem conteúdo, mas alteram profundamente o modo como pensamos e nos conectamos.

    Uma das reflexões mais marcantes foi sobre o retorno ao sentido mítico na era digital. Percebi como a simultaneidade das informações e a interconexão proporcionadas pelas redes criam um novo ambiente, ou ecologia cognitiva. Essa experiência digital, ao mesmo tempo que nos aproxima, também traz desafios de interpretação e empatia, pois as mensagens muitas vezes chegam fragmentadas ou carregadas de sentidos.

    Discutimos também as quatro leis das mídias formuladas por McLuhan, algo que me ajudou a olhar para as tecnologias de uma forma mais analítica. Perguntei-me: o que cada mídia aprimora, torna obsoleta, recupera do passado e reverte quando levada ao extremo?

    Outro ponto que me chamou atenção foi a discussão sobre como o ambiente digital resgata o senso mítico, misturando realidade e narrativas simbólicas. Isso me fez refletir sobre as “mitologias contemporâneas” criadas por tecnologias como a IA, que frequentemente são vistas como oráculos ou gênios. Ao mesmo tempo, percebi como essas ferramentas podem perpetuar narrativas excludentes, ao reforçarem estéticas e padrões culturais dominantes.

    Para tornar essas ideias mais concretas, analisamos situações em que as mídias transformaram o sentido de comunidade e individualidade. Pude enxergar como o digital não apenas nos conecta, mas também recria estruturas sociais e culturais, muitas vezes refletindo ou amplificando desigualdades existentes.

    As mídias do passado, as ferramentas digitais e a IA não são neutras: elas moldam a percepção, a experiência e até mesmo os valores que compartilhamos enquanto sociedade. Essa compreensão me instigou a olhar para a coescrita com IA não apenas como um processo criativo, mas como uma oportunidade de questionar, desafiar e expandir os limites do que entendemos por autoria e comunicação.

    2. O Tetraedro de McLuhan

    • Analisamos as quatro leis dos meios, aplicando-as a tecnologias modernas:
      • Aperfeiçoa: O que o meio aprimora?
      • Torna obsoleto: O que deixa para trás?
      • Recupera: O que resgata do passado?
      • Reverte: O que acontece quando o meio é levado ao extremo?

    Conversando com Bot-ões (link)
    Frases de McLuhan no Twitter (link)

    Conceitos Centrais

    1. O Meio como Ambiente Cognitivo:
      • McLuhan via o meio como uma extensão das capacidades humanas. Por exemplo, o livro é uma extensão do olho, o carro uma extensão do pé.
      • A mídia não apenas transmite conteúdo, mas molda como interpretamos e processamos a realidade, criando novas formas de consciência.
    2. Ambiência e Linearidade:
      • A escrita linear influenciou o pensamento racional ocidental, mas as tecnologias eletrônicas (como rádio e televisão) introduzem um modelo mais envolvente e subjetivo.
      • Foi discutido como as novas tecnologias digitais e a IA continuam esse ciclo, rompendo a linearidade e promovendo uma forma de percepção mais fragmentada e cíclica.

    Discussões e Reflexões Filosóficas

    • Determinismo Tecnológico: A ideia de que a tecnologia molda a sociedade de forma determinista foi debatida, destacando as influências políticas e culturais no uso da tecnologia.
    • Mito e Realidade: A relação entre mito e realidade na percepção das tecnologias modernas foi explorada, ligando o pensamento de McLuhan à noção de mitologia contemporânea.

    1. Introdução a McLuhan e o Sentido Mítico

    Nesta aula, aprofundamos o pensamento de Marshall McLuhan, centrando a discussão em sua tese do retorno ao ambiente mítico na era eletrônica. McLuhan destaca que a simultaneidade da informação no ambiente digital recria o conceito de aldeia global, onde o fluxo contínuo de dados conecta instantaneamente indivíduos de diferentes contextos e culturas, eliminando as fronteiras espaciais e temporais.

    Foi enfatizado o contraste entre a fragmentação do pensamento letrado e a integração tribal, característica do ambiente digital interconectado. A mídia digital, ao criar múltiplas camadas de significado e interações instantâneas, desafia a lógica linear e sequencial da escrita tradicional, aproximando-se de uma percepção mais holística e simultânea da realidade. Esse fenômeno sugere que, enquanto a escrita molda uma consciência fragmentada, a comunicação digital resgata uma experiência mais coletiva e integrada.

    Citação chave: “Vivemos miticamente, mas continuamos a pensar fragmentariamente e em planos separados.” (McLuhan, 1964)

    2. As Quatro Leis dos Meios Aplicadas

    Analisamos em detalhes as quatro leis dos meios formuladas por McLuhan, usando o tetraedro como ferramenta para examinar como diferentes tecnologias afetam a percepção e a cultura:

    • Aperfeiçoa: O que o meio aprimora ou potencializa? Ex.: A IA aprimora o acesso à informação, a velocidade de busca e a capacidade de organizar dados complexos de forma acessível.
    • Torna obsoleto: O que o meio torna desnecessário? Ex.: A IA reduz a necessidade de pesquisa manual extensa e processos tradicionais de investigação, como o uso de enciclopédias físicas.
    • Recupera: O que resgata do passado? Ex.: A IA resgata a ideia de oráculos e conselheiros personalizados, ecoando formas antigas de consulta a sábios e fontes de conhecimento.
    • Reverte: O que acontece quando levado ao extremo? Ex.: Quando em excesso, a IA pode criar uma dependência informacional, reduzindo a autonomia crítica do usuário e dificultando a distinção entre fato e ficção.

    Essa abordagem ajudou os participantes a compreender como as mídias não apenas transmitem conteúdo, mas moldam e reorganizam a forma como interpretamos e interagimos com o mundo ao nosso redor. O tetraedro de McLuhan evidencia que cada nova tecnologia, ao mesmo tempo em que amplia capacidades, também elimina práticas anteriores e altera profundamente o ambiente cognitivo e social.

    3. Reflexões sobre o Retorno ao Mítico

    Exploramos como o ambiente digital moderno recupera o senso mítico ao misturar realidade e narrativa simbólica de maneiras inovadoras. Tecnologias como inteligência artificial e redes sociais muitas vezes promovem a criação de mitos contemporâneos, como a figura do “gênio tecnológico” e a difusão de teorias conspiratórias em escala global, influenciando comportamentos coletivos.

    O meio digital, ao desestruturar o pensamento linear, tende a criar narrativas mais complexas e simbólicas, reaproximando-se de formas míticas de compreensão da realidade. Esse fenômeno é especialmente evidente em como as redes sociais reconstroem figuras públicas como ícones mitológicos e em como a personalização algorítmica cria bolhas de percepção, ampliando o caráter subjetivo das interpretações.

    A ideia de McLuhan de que o meio influencia mais do que o conteúdo se aplica diretamente ao contexto digital, onde a forma como a informação circula tem tanto impacto quanto o conteúdo em si. A constante exposição a fluxos de informação fragmentados e acelerados contribui para um retorno a formas de compreensão mais associativas e menos racionais.

    Citação chave: “O mito é a visão instantânea de um processo complexo.” (McLuhan, 1964)

    4. Conclusão e Impacto

    Encerramos a aula refletindo sobre como a coescrita com IA se insere nesse contexto de forma híbrida e transformadora. As ferramentas de IA ampliam significativamente as possibilidades criativas, permitindo experimentações textuais e a combinação de múltiplas vozes em um mesmo texto. No entanto, também trazem desafios importantes, como a redefinição do conceito de autoria e a autenticidade na criação.

    Foi debatido como a IA pode tanto empoderar a criação literária ao expandir o repertório e as referências do autor, quanto gerar preocupações éticas e filosóficas, ao questionar a originalidade e a subjetividade humana no processo criativo. O grupo refletiu que o uso consciente dessas ferramentas, aliado a uma compreensão crítica de seus impactos, pode enriquecer a produção cultural contemporânea, desde que acompanhado de uma reflexão constante sobre seus limites e implicações.

    A aula reforçou a importância de equilibrar o uso da tecnologia com a valorização da criatividade humana, ressaltando que a verdadeira inovação surge da interação entre as capacidades técnicas das máquinas e a sensibilidade crítica dos criadores.

    Texto Complementar:

    • STANGL, A. Se Ligue! – McLuhan e o Retorno do Sentido Mítico. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación. , v.14-15, p.158 – 167, 2012. (link)

    Documentário

    Leitura complementar
    Stangl, Andre – O tamanho do mundo (link)