Autor: Andre Stangl

  • Agentes e Cosmotécnica como chave para desuniversalizar a tecnologia.

    Agentes e Cosmotécnica como chave para desuniversalizar a tecnologia.

    A última aula funcionou como um fechamento conceitual e prático do curso. Depois das aulas anteriores, centradas na construção de contexto, na ecologia das contas/projetos e na coleitura com IA, este encontro deslocou a discussão para dois eixos principais: primeiro, uma reflexão filosófica sobre técnica, tecnologia e cosmotécnica; depois, uma introdução prática ao uso de agentes de IA em tarefas de pesquisa e organização acadêmica. A aula também teve um caráter de balanço: retomou Umberto Eco, discutiu integridade acadêmica, abordou o impacto das IAs no trabalho e abriu caminhos para pensar uma relação mais situada, tropical e crítica com essas tecnologias.

    1. Abertura: encerramento do curso e continuidade do grupo

    A aula começou com uma conversa informal sobre a experiência do curso, a chegada dos participantes e algumas dificuldades de acesso à plataforma. Também apareceu a ideia de manter o grupo de WhatsApp como espaço de continuidade, troca de textos, sugestões e acompanhamento de novas turmas. Foi destacada a importância de manter uma turma pequena, com cerca de 20 participantes, porque isso permite conversa, escuta das demandas e acompanhamento mais próximo. Acima disso, o curso tenderia a virar palestra, perdendo parte do caráter dialógico.

    Também houve uma breve conversa sobre plataformas de inscrição, como Sympla e Even3, mostrando que a própria organização do curso já fazia parte de uma ecologia técnica: inscrição, comunicação, links de acesso, grupos, gravações, resumos e materiais complementares.

    2. Retomada de Umberto Eco: pesquisar é aprender um método

    Um dos pontos de partida conceituais da aula foi a releitura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco. A obra foi situada no contexto da universidade italiana dos anos 1970, especialmente no momento em que camadas populares começavam a entrar mais fortemente na universidade. Eco escrevia para estudantes que muitas vezes não tinham tempo livre, recursos para comprar livros caros, familiaridade com bibliotecas ou hábito consolidado de pesquisa.

    Nesse contexto, a tese de Eco era apresentada como uma aprendizagem de método. Pesquisar significava aprender a delimitar um tema, identificar fontes primárias e secundárias, fazer fichamentos, organizar argumentos, comparar materiais e construir um percurso intelectual. A aula conectou esse ponto ao presente: mesmo com a digitalização e agora com as IAs, alguns elementos permanecem centrais. A pesquisa continua exigindo método, delimitação, leitura, comparação, crítica e responsabilidade intelectual.

    A diferença é que, na era da IA, esse método passa a ser reorganizado por novas mediações. A questão deixa de ser apenas “como fazer uma tese?” e passa a incluir: como construir contexto com IA? Como verificar fontes? Como usar modelos sem delegar a responsabilidade intelectual? Como diferenciar apoio, coescrita, automação e autoria?

    3. Para além da visão instrumental da tecnologia

    A aula insistiu em um ponto fundamental: não basta pensar a IA como ferramenta. Reduzir uma tecnologia ao seu uso instrumental — “eu uso para fazer X” — impede perceber que toda técnica também transforma quem a utiliza. Essa reflexão foi articulada com autores como Simondon, Latour, McLuhan e Yuk Hui.

    O exemplo da escrita foi usado para mostrar isso. A escrita é uma tecnologia tão naturalizada que muitas vezes esquecemos sua dimensão técnica. No entanto, ela reorganizou profundamente a memória, a administração, o calendário, as leis, a ciência, as artes, as formas de documentação e até a própria experiência do tempo. A escrita não apenas serviu ao pensamento; ela transformou o pensamento.

    A aula trouxe também exemplos de pessoas que não se comunicam pela escrita, mas pelo áudio no WhatsApp. Esse ponto serviu para mostrar que diferentes tecnologias criam diferentes mundos de ação. O caso do encanador mencionado na aula ilustra um tipo de saber prático, incorporado, não necessariamente formalizado por escrito, mas altamente sofisticado. Isso permitiu conectar a discussão sobre IA ao tema mais amplo dos saberes técnicos, das práticas situadas e dos conhecimentos que não cabem facilmente nos modelos formais da academia.

    4. IA, trabalho e precarização

    A discussão sobre técnica levou naturalmente ao tema do impacto da IA no trabalho. Um dos participantes chamou atenção para o risco de o discurso “a IA vai tirar empregos” ser usado como ameaça para reduzir salários, intensificar a precarização e naturalizar relações de trabalho mais desiguais. Também foi lembrado que existe trabalho humano invisibilizado por trás do treinamento e da moderação de sistemas de IA.

    A resposta da aula buscou uma posição intermediária: é inegável que algumas atividades serão transformadas, automatizadas ou reorganizadas, mas isso não significa aceitar passivamente o discurso empresarial do inevitável. O exemplo dos digitadores, citado a partir da experiência do pai de André no contexto da computação por cartão perfurado e do Serpro, mostrou que mudanças técnicas podem levar à requalificação e à redistribuição de funções, não necessariamente à demissão direta.

    A discussão também passou pelo setor de serviços, supermercados, caixas automáticos, estoquistas, robôs e carrinhos com leitores. A observação sobre Salvador foi interessante: mesmo quando há caixas de autoatendimento, muitas pessoas não os utilizam, especialmente quando há produtos que precisam ser pesados ou quando o processo exige mediação humana. Isso reforçou a ideia de que a adoção tecnológica nunca é apenas técnica; ela depende de hábitos, confiança, infraestrutura, cultura local e desenho social do serviço.

    5. Yuk Hui e a pergunta pela cosmotécnica

    O eixo filosófico principal da aula foi a apresentação de Yuk Hui. A partir dele, foi feita uma crítica à ideia de que a técnica é universal, neutra e funcional. A pergunta central apresentada foi: todas as culturas pensam a técnica do mesmo modo?

    A resposta de Yuk Hui é não. A modernidade ocidental tende a tratar a tecnologia como uma promessa universal de mundo, como se todos os povos devessem seguir o mesmo caminho de modernização. Essa visão reduz diferentes técnicas a uma única categoria chamada “tecnologia” e tende a organizar o planeta como recurso disponível para o desenvolvimento técnico.

    A aula aproximou esse debate de Heidegger, especialmente da ideia de que a tecnologia moderna não é apenas um conjunto de instrumentos, mas um modo de revelar o mundo. Nessa perspectiva, a natureza aparece como estoque, reserva, recurso explorável. O petróleo, os minérios, a energia, a água e os territórios passam a ser compreendidos como insumos para alimentar sistemas técnicos.

    Yuk Hui aceita a força dessa crítica, mas pergunta se ela vale para todas as tradições culturais. Para ele, Heidegger ainda pensa a técnica a partir de uma história ocidental. A cosmotécnica, então, seria a tentativa de compreender como diferentes culturas articulam técnica, cosmos, moral, território, natureza e formas de vida.

    6. Da técnica neutra à tecnodiversidade

    A aula contrastou duas formas de compreender a técnica. Na visão instrumental, a técnica é meio para um fim, neutra, universal e substituível. Na visão cosmotécnica, a técnica expressa uma forma de vida. Uma rede de pesca, uma canoa, uma casa, uma folha de bananeira usada para embalar alimento ou um algoritmo não são apenas meios; eles organizam relações entre humanos, não humanos, território e mundo.

    O exemplo do abará embalado na folha de bananeira foi usado como imagem regional de uma solução técnica não separada do ambiente. Ao contrário do plástico, a folha de bananeira integra alimento, território, cultura e sustentabilidade. Esse exemplo permitiu pensar uma técnica menos voraz, menos extrativa e mais incorporada a uma forma de vida.

    A aula também aproximou essa discussão de Nego Bispo, especialmente da crítica à ideia de “desenvolvimento” como afastamento do envolvimento. Em vez de desenvolver no sentido de separar, seria preciso pensar formas de envolvimento, confluência e relação.

    Outro ponto importante foi a comparação entre tradições culturais. Na tradição grega, a técnica aparece muitas vezes vinculada ao mito de Prometeu: roubo do fogo, transgressão, domínio e emancipação. Já em outras tradições, como a chinesa, a técnica pode ser pensada como continuidade entre cosmos, comunidade, corpo e prática. O exemplo da medicina chinesa, com os conceitos de Tao e Qi, serviu para mostrar como uma técnica pode não ser compreendida adequadamente quando traduzida apenas pelos parâmetros da ciência ocidental.

    7. Cosmotécnica tropical, antropofagia e Gilberto Gil

    A partir de Yuk Hui, a aula propôs pensar uma possível “cosmotécnica tropical”. A pergunta era: como o Brasil poderia se relacionar com as tecnologias digitais e com a IA sem apenas importar modelos prontos, categorias externas e imaginários técnicos vindos dos centros de poder?

    A hipótese apresentada foi aproximar esse debate da antropofagia modernista: a capacidade de devorar influências externas, digeri-las e devolvê-las com outro sabor, outro ritmo e outro sentido. Essa lógica atravessaria a cultura brasileira em várias áreas: modernismo, bossa nova, cinema novo, música popular, samba, tropicalismo, funk e cultura digital.

    Gilberto Gil apareceu como uma figura importante nesse percurso. Desde “Cérebro Eletrônico” até sua atuação como ministro da Cultura, Gil teria elaborado uma relação singular com a técnica, a cibernética e a cultura digital. Em vez de separar tecnologia e cultura, sua trajetória ajudaria a pensar um modo brasileiro, híbrido, musical, político e antropofágico de lidar com o digital.

    Essa parte da aula foi importante porque deslocou a pergunta sobre IA. Em vez de apenas perguntar “como usar melhor a IA?”, a questão passa a ser: que relação queremos construir com essas tecnologias? Que mundo elas ajudam a compor? Que práticas, saberes e territórios elas podem fortalecer ou enfraquecer?

    8. Discussão com a turma: técnica, território e saberes tradicionais

    Na conversa com os participantes, surgiram exemplos que reforçaram a importância de pensar técnica e território de forma integrada. Um dos comentários retomou a experiência com trabalhadores da construção civil que não respondiam mensagens escritas, mas respondiam bem por áudio. Isso mostrou novamente que a tecnologia só funciona dentro de um contexto social, cultural e comunicacional.

    Também apareceu o exemplo de técnicas tradicionais de construção no Maranhão, substituídas por modelos importados de pousadas e edifícios que não se adaptam bem ao clima local, exigindo ar-condicionado e aumentando o consumo energético. Esse exemplo ilustrou como uma técnica considerada “moderna” pode apagar saberes locais mais adequados ao território.

    A discussão passou ainda por alimentação, saúde, plantas, chás, saberes populares e alimentos ultraprocessados. A IA foi pensada, nesse ponto, não apenas como ameaça, mas também como possível aliada para analisar hábitos alimentares, rótulos, composições nutricionais e práticas de consumo, desde que usada dentro de bons contextos e com critérios críticos.

    9. Impacto ambiental das IAs e do ecossistema digital

    Outro ponto importante foi a discussão sobre impacto ambiental. A aula reconheceu a importância do debate sobre água, energia e data centers, mas chamou atenção para o risco de tratar a IA isoladamente, como se fosse a única responsável por impactos ecológicos do mundo digital.

    Foi lembrado que streaming, redes sociais, bancos, serviços de nuvem, plataformas digitais e outros sistemas também dependem de data centers. Além disso, o uso de água por grandes sistemas agroindustriais e industriais é muito maior do que o dos data centers. Isso não diminui a necessidade de discutir o impacto das IAs, mas ajuda a evitar uma crítica seletiva ou desproporcional.

    O ponto central foi: a crítica ambiental à IA é necessária, mas precisa ser situada em uma crítica mais ampla à nossa ecologia técnica, energética, alimentar, produtiva e digital.

    10. Introdução aos agentes de IA

    A segunda grande parte da aula foi dedicada aos agentes de IA. A apresentação começou com cautela: os agentes ainda estão em fase inicial, apresentam riscos, exigem supervisão e podem causar problemas quando recebem permissões amplas demais. Mesmo assim, apontam para uma transformação profunda da relação com computadores.

    A diferença básica apresentada foi: um chatbot responde; um agente executa. Ele pode abrir aplicativos, navegar por páginas, acessar arquivos autorizados, clicar, baixar documentos, operar planilhas, acionar ferramentas e realizar sequências de tarefas.

    Foi mostrado o caso da integração entre ChatGPT e Gamma. A partir da área de configurações e aplicativos, é possível conectar serviços externos. Uma vez conectado ao Gamma, o ChatGPT pode abrir o aplicativo dentro da própria interface e executar tarefas, como criar slides com base em um projeto ou contexto já preparado. No exemplo da aula, isso foi usado para gerar uma apresentação sobre cosmotécnica e Yuk Hui, com melhor redução de texto por tela.

    11. Demonstração prática: agente, Drive, planilhas e Python

    A aula apresentou uma gravação de tela de um experimento com agente. O agente recebeu a tarefa de abrir uma pasta no Google Drive, acessar arquivos, baixar dados para um ambiente virtual, abrir terminal, usar Python, analisar planilhas, gerar documentos e produzir uma visualização gráfica.

    Esse exemplo foi conectado diretamente à pesquisa acadêmica. Uma pasta no Drive poderia conter artigos, entrevistas, transcrições, planilhas de questionários, relatórios ou documentos administrativos. O agente poderia abrir cada arquivo, extrair informações, produzir resumos, organizar tabelas, gerar gráficos ou consolidar dados.

    A ideia central foi mostrar que, em breve, parte do trabalho de pesquisa poderá ser feita por meio de comandos em linguagem natural que acionam sequências de ações em diferentes aplicativos. Isso não elimina a revisão humana; pelo contrário, aumenta a necessidade de supervisão, validação e clareza metodológica.

    12. Cuidados de segurança: contas secundárias, permissões e isolamento

    A aula insistiu bastante nos riscos. Para testar agentes, André explicou que criou uma sessão separada no Linux, sem acesso às contas pessoais, justamente para evitar que um agente tivesse poderes indevidos sobre arquivos, e-mails ou dados sensíveis.

    Foram mencionados riscos como agentes apagarem arquivos, mexerem em e-mails, executarem ações não desejadas ou consumirem créditos de API. Também foi explicado que, quando um agente roda no computador, ele precisa se comunicar com um modelo de linguagem. O “corpo” do agente pode estar na máquina, mas o “cérebro” muitas vezes está na nuvem, sendo pago por tokens ou operações.

    A recomendação implícita da aula foi: testar agentes em ambientes controlados, com contas secundárias, pastas específicas, permissões limitadas e supervisão constante. Em tarefas simples e repetitivas, eles podem ser úteis; em ações sensíveis, ainda exigem extremo cuidado.

    13. Para que servem agentes na pesquisa?

    A turma discutiu várias possibilidades de uso. Uma delas foi o levantamento bibliográfico: colocar artigos em uma pasta e pedir ao agente que abra cada um, faça resumos, selecione os mais relevantes e organize uma tabela. Outra possibilidade foi o tratamento de entrevistas: abrir áudios, enviá-los a uma ferramenta de transcrição, salvar os textos em uma pasta, revisar e organizar os arquivos.

    Também apareceram exemplos administrativos, como abrir muitas planilhas de avaliação de curso, consolidar respostas, gerar gráficos e produzir relatórios. Outro exemplo citado foi o de uma colega que tinha milhares de PDFs e precisava extrair números de notas fiscais — tarefa repetitiva, cansativa e ideal para automação assistida.

    A diferença em relação a ferramentas como NotebookLM foi esclarecida: no NotebookLM, o usuário precisa inserir os documentos; com um agente, em tese, seria possível pedir que ele abrisse uma pasta, selecionasse arquivos, enviasse para outro serviço, retornasse, salvasse resultados e encadeasse ações em vários ambientes.

    14. Ambivalência: fascínio, medo e produtividade

    A discussão com a turma revelou uma ambivalência importante: os agentes geram fascínio, mas também medo. Por um lado, podem economizar tempo e ajudar em tarefas repetitivas. Por outro, atravessam fronteiras sensíveis: acessar Drive, e-mail, arquivos pessoais, computador local.

    Uma participante perguntou se esse tipo de recurso não estaria ligado à lógica da produtividade extrema: uma pessoa fazendo o trabalho que antes exigiria várias. Essa questão trouxe de volta o debate sobre produtivismo, automação e intensificação do trabalho.

    A resposta foi que os usos são variados. Agentes podem servir a executivos, programadores e empresas, mas também podem ser ferramentas de acessibilidade para pessoas com dificuldades motoras, instrumentos de apoio a pesquisadores com grande volume de material ou auxiliares em tarefas administrativas repetitivas. O problema não é apenas a tecnologia em si, mas a cosmotécnica na qual ela é inserida: eficiência para quê? A serviço de quem? Com quais limites? Com qual supervisão?

    15. IA, revisão bibliográfica e risco de alucinação

    A aula retomou um ponto recorrente do curso: modelos de linguagem podem alucinar referências. Uma participante relatou ter pedido referências e revisões com base em critérios como PRISMA, mas encontrou artigos falsos, títulos trocados e autores confundidos. A recomendação foi usar ferramentas especializadas, como bases acadêmicas e plataformas voltadas à literatura científica, conectadas ou combinadas ao ChatGPT.

    A ideia foi reforçada: o ChatGPT puro é muito bom para linguagem, organização, síntese e formulação, mas não deve ser usado sozinho como mecanismo confiável de busca bibliográfica. Para pesquisa acadêmica, é preciso combinar IA com bases reais, verificação manual e critérios metodológicos explícitos.

    16. Produção acadêmica, excesso de artigos e responsabilidade

    Outro debate importante foi o crescimento da produção acadêmica mediada por IA. Um participante observou que quem antes escrevia um artigo por ano agora pode tentar escrever cinco, muitas vezes com baixa qualidade. Isso cria pressão sobre revistas, pareceristas e editores, que não estão preparados para uma avalanche de textos produzidos rapidamente.

    A aula conectou esse ponto à integridade acadêmica. O problema não é apenas usar IA, mas usar IA sem critério, sem transparência, sem domínio do campo e sem responsabilidade sobre o resultado. Também foi mencionado o fenômeno de “humanizar” textos para esconder o uso de IA, como tirar travessões ou alterar marcas estilísticas detectáveis.

    A posição defendida na aula foi que o uso sério da IA exige mais trabalho, não menos. Usar bem IA significa construir contexto, revisar, comparar, pedir alternativas, checar fontes, avaliar argumentos e assumir responsabilidade. O problema está na “tentação do botão”: delegar rapidamente, com pouco contexto e pouca revisão, gerando textos genéricos, superficiais e possivelmente errados.

    17. Estudantes, IA e cotutoria

    No fechamento, a aula voltou ao tema educacional. Foi rejeitada a generalização de que estudantes jovens seriam simplesmente preguiçosos ou interessados apenas em delegar tarefas. Em experiências recentes com estudantes de computação e bacharelado interdisciplinar, alguns relataram usar IA como forma de serem provocados, estimulados e ajudados a aprender mais.

    A aula retomou uma tipologia de estudantes: o estudante que mergulha na utopia acadêmica; o minimalista, que quer fazer apenas o necessário para passar; o estratégico, que performa a vida acadêmica como caminho profissional; e o perdido, que não sabe bem por que está ali. Essas categorias foram apresentadas como fluidas: um mesmo estudante pode ocupar posições diferentes em diferentes disciplinas ou momentos (Essa tipologia foi desenvolvida pelo sociólogo Saeed Paivandi). 

    Nesse contexto, a IA pode funcionar como cotutora. Não substitui o professor, a sala de aula ou a experiência pedagógica, mas pode oferecer acompanhamento personalizado. Foram mencionadas experiências como GPTs acadêmicos institucionais e tutores de matemática como o Khanmigo. A promessa é um apoio individualizado, disponível a qualquer hora, capaz de responder a dúvidas específicas e acompanhar ritmos distintos de aprendizagem.

    18. Fechamento: uma perspectiva tropical para a IA

    A última aula terminou retomando o sentido geral do curso: aprender a pesquisar com IA não é apenas aprender ferramentas. É construir uma relação crítica, situada e responsável com essas tecnologias. Isso envolve método, contexto, leitura, escrita, ética, integridade, supervisão, imaginação pedagógica e reflexão filosófica.

    A ideia de uma cosmotécnica tropical ofereceu uma chave de fechamento: não se trata de rejeitar a IA, nem de adotá-la como destino inevitável. Trata-se de deglutir essas tecnologias, compreendê-las, adaptá-las, tensioná-las e reinscrevê-las em nossas práticas, territórios, problemas e formas de vida.

    O curso foi encerrado com o convite para manter o grupo ativo, compartilhar materiais e preservar os links das gravações como conteúdo restrito da turma, já que os encontros incluíam falas e participações dos alunos. A experiência foi apresentada como abertura de janelas e caminhos para pensar uma relação mais crítica, criativa e situada com a IA na pesquisa acadêmica.


    Ideias-chave da aula

    1. Pesquisar com IA continua exigindo método.
      A IA muda o ambiente da pesquisa, mas não elimina delimitação, leitura, fichamento, comparação, verificação e responsabilidade.
    2. Tecnologias não são apenas instrumentos.
      Elas transformam formas de pensar, trabalhar, escrever, organizar o tempo e compor relações sociais.
    3. A IA deve ser pensada conceitualmente.
      A aula propôs sair da pergunta “como usar?” para incluir “que mundo essa técnica ajuda a produzir?”.
    4. Cosmotécnica é uma chave para desuniversalizar a tecnologia.
      Diferentes culturas pensam e praticam a técnica de modos distintos. Não há uma única história universal da tecnologia.
    5. Uma cosmotécnica tropical pode aproximar IA, antropofagia, território e cultura digital brasileira.
    6. Agentes de IA apontam para uma nova etapa da automação.
      Eles não apenas respondem, mas executam tarefas em aplicativos, arquivos e sistemas.
    7. Agentes exigem segurança e supervisão.
      O uso responsável passa por contas secundárias, ambientes isolados, permissões limitadas e revisão humana.
    8. O risco principal não é a IA em si, mas a delegação sem contexto.
      A “tentação do botão” produz superficialidade, alucinação e perda de responsabilidade intelectual.
    9. A IA pode funcionar como cotutora.
      Em contextos pedagógicos bem desenhados, pode apoiar ritmos diferentes de aprendizagem sem substituir o professor.
    10. O desafio é político, pedagógico e cosmotécnico.
      A questão não é apenas usar IA, mas decidir como integrá-la a formas de pesquisa mais críticas, plurais e responsáveis.

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  • Coescrita, meta-reflexão e co-inteligência

    Coescrita, meta-reflexão e co-inteligência

    A terceira aula deu continuidade ao eixo central do curso: compreender a pesquisa acadêmica com IA não apenas como uso instrumental de ferramentas, mas como uma transformação nas formas de leitura, escrita, organização da informação e construção de contexto. A aula foi bastante dialogada, partindo das questões dos alunos sobre o texto “Fantasmas da coescrita” (preprint), avançando para a discussão sobre GPTs customizados, cosmotécnica, etnografia com IA, co-inteligência segundo Ethan Mollick, uso da lousa/canvas, criação de slides com Gamma e experimentações em grupos de conversa com IA.

    1. Abertura: acesso, plataforma e dinâmica da aula

    A aula começou com uma breve conversa sobre problemas técnicos e sobre o uso da plataforma Sympla para os encontros síncronos. Foi comentado que os links de acesso são individualizados, o que pode gerar problemas quando uma pessoa usa o link de outra. Houve o exemplo de uma aluna que entrou com o perfil de uma colega e depois foi derrubada quando a titular do link acessou a sala.

    Esse comentário inicial serviu também para reforçar uma dimensão prática do curso: as tecnologias de organização, acesso e mediação dos encontros não são neutras. Elas condicionam a experiência pedagógica, podem facilitar o gerenciamento de turmas, mas também criar ruídos de participação.

    A aula, então, começou a partir das perguntas de Rosana sobre o texto indicado para leitura.

    2. “Fantasmas da coescrita”: o texto como exemplo de meta-reflexão

    A primeira discussão mais substantiva surgiu a partir do texto “Fantasmas da coescrita”. Rosana destacou algumas questões que chamaram sua atenção: a ideia dos “fantasmas”, os modelos customizados, a autoria, o processo criativo e o conceito de cosmotécnica.

    A resposta esclareceu que o objetivo de compartilhar o texto não era fazer uma aula teórica aprofundada sobre todos os autores e conceitos presentes nele. A intenção principal era mostrar um experimento de meta-reflexão: isto é, um processo em que a IA não é usada apenas para produzir conteúdo, mas para pensar sobre o próprio processo de produção, leitura, autoria e pesquisa.

    A expressão “fantasmas” foi explicada a partir da ideia de ghostwriter: alguém que escreve por outro, de maneira muitas vezes invisível. No contexto da coescrita com IA, a metáfora ajuda a pensar esses modelos como presenças auxiliares, interlocutores ou índices recursivos que participam da construção do texto, ainda que não apareçam como autores tradicionais.

    O ponto principal foi: muitos pesquisadores, estudantes e professores provavelmente já estão usando GPTs customizados, modelos com arquivos, projetos e bases de referência para dialogar com autores e teorias, mas essas práticas ainda aparecem pouco explicitadas. A aula propôs, então, tornar visível esse tipo de prática e refletir criticamente sobre ela.

    3. GPTs customizados como “índices remissivos recursivos”

    Um dos conceitos mais importantes da aula foi a ideia de que um GPT customizado pode funcionar como uma espécie de índice remissivo recursivo.

    A comparação é interessante: um índice remissivo tradicional permite localizar temas, conceitos e passagens dentro de um livro. Já um modelo customizado, alimentado com textos de determinado autor ou campo, permite fazer perguntas, testar relações, comparar conceitos e voltar recursivamente às fontes. Ele não apenas aponta onde algo aparece; ele também ajuda a reorganizar, relacionar e tensionar o material.

    Foi discutido o exemplo de criar um GPT com a obra de um autor, como Bourdieu, Flusser, Pierre Lévy ou Latour. A partir daí, o pesquisador poderia conversar com esse modelo para compreender melhor conceitos, fases da obra, mudanças de perspectiva e possíveis relações entre textos.

    Mas houve uma ressalva importante: autores com obras extensas talvez devam ser divididos por fases, temas ou recortes. Um GPT com “todo Bourdieu”, por exemplo, pode ficar amplo demais. Em alguns casos, pode ser mais interessante criar modelos separados: um para a fase inicial, outro para os textos sobre cultura, outro para a dimensão política, e assim por diante.

    O risco principal é que o modelo pode produzir formulações criativas que parecem coerentes com o autor, mas que não estão efetivamente publicadas na obra. Por isso, a recomendação foi clara: esses modelos ajudam a pensar, mas não dispensam a leitura direta dos textos originais.

    4. Cosmotécnica: construir sentido próprio para a relação com as máquinas

    A partir das dúvidas de Rosana, a aula entrou no conceito de cosmotécnica, associado ao filósofo Yuk Hui. Esse foi um dos momentos conceituais mais importantes da aula.

    A cosmotécnica foi apresentada como uma forma de dar sentido à experiência com as tecnologias. Sem uma narrativa conceitual, a relação com as máquinas pode oscilar entre o medo e a alienação. O conceito ajuda a pensar que a tecnologia não precisa ser vista como algo universal, homogêneo e inevitável, produzido por uma única tradição histórica.

    Foi feita uma distinção entre técnica e tecnologia. A técnica foi associada às formas históricas e culturais pelas quais diferentes comunidades produziram utensílios, ferramentas e modos de agir sobre o mundo. Já a tecnologia moderna, vinculada à ciência, à indústria e ao desenvolvimento capitalista, tende a afastar as pessoas da possibilidade de modificar, adaptar e recriar os objetos técnicos.

    A partir disso, foi discutida a importância de experimentar formas próprias de interação com IA. Mesmo sem desenvolver um modelo do zero, é possível criar usos, contextos e práticas que dialoguem com perspectivas locais, decoloniais, do sul global ou com autores que escapem do repertório hegemônico das grandes plataformas.

    Foi citado, como exemplo, um possível experimento com transcrições de palestras de Nego Bispo, buscando criar um modelo que dialogasse com sua oralidade e com sua forma própria de pensamento. A questão não é apenas técnica, mas também política: apropriar-se das tecnologias e recriá-las de acordo com contextos culturais e visões de mundo diferentes.

    5. IA, etnografia e organização de grandes corpos de dados

    A partir da intervenção de Zeca, antropólogo, a aula passou a discutir o uso da IA em pesquisas etnográficas. Ele trouxe uma preocupação importante: como lidar com diários de campo, entrevistas, anotações e materiais subjetivos sem que o modelo simplifique ou distorça a experiência etnográfica?

    A resposta situou a IA como uma nova camada na história das tecnologias de organização da informação. Assim como a escrita, a imprensa, a eletrificação e a digitalização transformaram a forma de registrar e organizar conhecimento, a IA introduz uma nova etapa: ela permite interagir com grandes corpos de texto, categorizá-los, reorganizá-los e gerar hipóteses de leitura.

    No caso da etnografia, a IA pode atuar como auxiliar na organização de entrevistas transcritas, diários de campo, relatos, categorias e interlocutores. Mas foi feita uma comparação importante com a fotografia na antropologia visual: a fotografia também parecia, inicialmente, uma captura objetiva do real, mas depois se percebeu que ela envolve recorte, enquadramento, escolha e interpretação.

    Do mesmo modo, a IA pode auxiliar, mas não substitui o olhar do pesquisador. Ela pode organizar, mas não deve apagar a singularidade do campo. No caso de materiais etnográficos, foi recomendado instruir o modelo de forma explícita:

    “Este é um material etnográfico. Preserve a expressão do interlocutor. Não resuma. Não sintetize. A redundância é importante porque faz parte do campo.”

    Esse ponto foi central: a IA tende a otimizar para clareza, síntese e coerência. Mas, em alguns tipos de pesquisa, especialmente na etnografia, a repetição, a hesitação, a expressão oral e a redundância podem ser dados importantes.

    6. Alucinação, criação conceitual e risco interpretativo

    A aula também discutiu a ambiguidade da chamada “alucinação” dos modelos. Em algumas áreas, como literatura ou filosofia, uma formulação inesperada pode ser produtiva. Em outras, especialmente quando se trata de citação, evidência ou análise empírica, pode ser perigosa.

    Foi dado o exemplo do próprio conceito de “pedagogia do contexto”, que surgiu na interação com a IA a partir do material do curso. Nesse caso, o modelo ajudou a nomear algo que já estava sendo construído na prática. Mas o uso de um conceito sugerido pela IA exige cautela: é preciso verificar se o termo já existe, se tem outro sentido consolidado e se não está sendo atribuído indevidamente a um autor ou campo.

    Essa discussão abriu uma questão metodológica importante: quando um conceito surge na interação entre pesquisador e IA, como registrar isso? Uma possibilidade levantada foi tratar esse processo de forma reflexiva, incluindo no texto uma nota metodológica ou uma dimensão autoetnográfica. Em áreas como a antropologia, a autoetnografia pode ajudar a explicitar como o pesquisador interagiu com o modelo e como certas categorias emergiram no processo (ver Marilyn Strathern).

    7. Escrita, autoria e a dimensão híbrida do texto

    Outro eixo da aula foi a discussão sobre escrita. Beatriz comentou que escrever é uma forma de descobrir o que se pensa. A aula acolheu essa ideia, mas ampliou o argumento: talvez hoje essa descoberta não aconteça apenas pela escrita tradicional. Ela pode começar também por áudio, transcrição, conversa, palestra gravada ou diálogo com IA.

    Foi lembrado que muitas ideias surgem oralmente em aulas, debates e palestras. Ao transcrever esses momentos e reorganizá-los, o pesquisador pode descobrir formulações que já estavam em curso, mas ainda não estavam estabilizadas como texto.

    Essa reflexão reforça a ideia de que a coescrita com IA não deve ser pensada apenas como “a máquina escrevendo pelo humano”. Ela pode funcionar como uma tecnologia de escuta, reorganização, retomada e lapidação de ideias.

    Também apareceu uma crítica ao termo “humanizar” texto. A aula problematizou essa expressão porque ela pressupõe que o texto gerado anteriormente não teria humanidade. Em vez disso, foi sugerido pensar os textos como criações híbridas, atravessadas por humanos, máquinas, leituras, referências, estilos e processos de edição.

    8. Ethan Mollick e a co-inteligência

    Na segunda parte da aula, foi apresentada uma sistematização das ideias de Ethan Mollick, especialmente a partir de seu livro sobre co-inteligência. A obra foi indicada como uma leitura acessível e útil para pensar a IA no trabalho acadêmico.

    A primeira dica atribuída a Mollick é experimentar a IA em quase todas as etapas da pesquisa, desde que não haja impedimentos éticos, legais ou institucionais. Isso não significa aceitar tudo que a IA produz, mas testar empiricamente onde ela ajuda e onde atrapalha.

    Um conceito importante apresentado foi o da fronteira irregular da IA. A IA pode resolver com facilidade algumas tarefas que parecem difíceis, mas falhar em tarefas aparentemente simples. Por isso, não faz sentido partir de regras abstratas como “IA serve para escrever” ou “IA não serve para pesquisar”. O mais adequado é experimentar, testar, verificar e mapear seus usos em cada situação.

    A IA pode ajudar em diferentes etapas: formular perguntas de pesquisa, gerar palavras-chave, resumir textos, comparar conceitos, testar hipóteses argumentativas, revisar clareza, simular objeções de banca, organizar cronogramas e estruturar etapas de trabalho.

    Mas a responsabilidade final continua sendo do pesquisador. A IA pode sugerir, organizar e acelerar, mas não assume autoria, julgamento crítico ou responsabilidade ética.

    9. Papéis atribuídos à IA: tutor, orientador, parecerista, bibliotecário

    Uma recomendação prática importante foi o uso de papéis. Em vez de pedir apenas “resuma esse texto”, é mais produtivo orientar o modelo:

    “Atue como orientador de pesquisa em antropologia e identifique o argumento central, os conceitos principais, os pressupostos teóricos, as fragilidades da argumentação e perguntas para aprofundamento.”

    Outros papéis possíveis foram mencionados:

    • tutor;
    • coeditor;
    • parecerista de revista;
    • bibliotecário;
    • debatedor;
    • leitor médio;
    • aluno simulando dúvidas sobre uma aula;
    • orientador metodológico.

    Essa estratégia permite modular a resposta da IA conforme a necessidade da pesquisa. O modelo não é apenas um respondedor genérico; ele pode ser configurado situacionalmente para agir de acordo com uma tarefa específica.

    10. Prompt não como mágica, mas como construção de contexto

    Outro ponto importante foi a crítica à ideia do prompt como “palavra mágica”. A aula reforçou que a qualidade da resposta não depende apenas de encontrar o prompt perfeito, mas de construir um contexto de trabalho.

    Foi sugerido dividir as solicitações em etapas:

    1. indicar o tema central;
    2. formular possíveis problemas de pesquisa;
    3. avaliar qual problema está mais delimitado;
    4. sugerir palavras-chave;
    5. organizar o levantamento bibliográfico;
    6. comparar autores;
    7. revisar a argumentação;
    8. simular críticas ou objeções.

    Esse método se conecta diretamente à ideia central do curso: a pesquisa com IA depende de uma pedagogia do contexto. A boa interação não está apenas na pergunta isolada, mas no processo cumulativo de orientação, resposta, correção, reorientação e aprofundamento.

    11. Tutor individual e aprendizagem personalizada

    A aula também apresentou a ideia de configurar a IA como um tutor individual. O pesquisador pode explicar seu nível de formação, sua área, seu projeto e o tipo de apoio que deseja.

    Por exemplo:

    “Sou estudante de mestrado em Saúde Coletiva. Estou lendo este artigo e quero que você me ajude a compreender os argumentos principais, mas sem substituir minha leitura.”

    A IA pode perguntar ao estudante sobre o texto, testar sua compreensão, propor comparações entre autores, explicar conceitos em diferentes níveis de complexidade e transformar uma intuição inicial em uma pergunta de pesquisa mais delimitada.

    Essa função é especialmente interessante porque aproxima o uso da IA de um processo formativo, e não apenas produtivo.

    12. Delegar, centauro e ciborgue

    Um dos momentos mais úteis da apresentação de Mollick foi a distinção entre diferentes formas de organizar o trabalho com IA.

    Há tarefas que só o pesquisador pode fazer: formular o julgamento final, assumir a responsabilidade, interpretar a pertinência dos dados, tomar decisões éticas e definir o sentido da pesquisa.

    Há tarefas que podem ser delegadas à IA: organização de notas, revisão gramatical, formatação de referências, criação de quadros, sínteses preliminares e infográficos.

    Há também o modo centauro, em que há uma divisão clara entre humano e IA. O pesquisador define categorias, critérios e hipóteses; a IA organiza os dados conforme essas orientações.

    E há o modo ciborgue, em que o trabalho se torna mais integrado: escrever, revisar, argumentar, reescrever e reorganizar em um fluxo contínuo. Foi mencionado que esse modo aparece especialmente no processo de elaboração das colunas, em que o texto vai e volta tantas vezes entre autor e modelo que a separação entre contribuição humana e contribuição maquínica se torna menos evidente.

    Essa distinção ajudou a mostrar que “usar IA” não é uma coisa única. Existem diferentes graus de integração, delegação e colaboração.

    13. A tentação do botão

    A aula também alertou para um risco: a tentação do botão. É a ideia de que a IA pode resolver tudo automaticamente, bastando clicar ou pedir uma resposta pronta.

    Essa tentação é especialmente forte quando o prazo está apertado. Mas foi reforçado que delegar tudo ao modelo é arriscado. A IA pode tomar desvios, simplificar demais, errar referências, inventar conexões ou gerar uma argumentação aparentemente boa, mas frágil.

    O fluxo recomendado foi: exploração, delimitação, busca, coleitura, revisão, interpretação e responsabilidade final do pesquisador.

    14. Análise de dados e planilhas

    A aula também abordou brevemente o uso da IA para análise de dados quantitativos. Foi mencionado um experimento com dados de estudantes de um curso do ISC, incluindo planilhas com quase mil alunos e questionários de avaliação de componentes curriculares.

    O ponto principal foi que a IA trabalha bem com planilhas e dados organizados, mas a qualidade da resposta depende da qualidade do material fornecido. Quando as planilhas estavam confusas, os resultados foram piores. Quando os dados foram limpos, organizados e enviados em uma aba única, o modelo conseguiu gerar gráficos e análises mais consistentes.

    Foi citado um erro ocorrido quando os componentes curriculares estavam identificados por siglas: ao gerar o relatório, o modelo inventou nomes completos a partir dessas siglas. Esse exemplo reforçou a importância de explicar ao modelo o significado das variáveis, siglas e categorias.

    15. Demonstração prática: Eco, pesquisa acadêmica e lousa/canvas

    Na parte prática, foi demonstrado o uso de um projeto com o livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco. A proposta era refletir sobre o que mudou na pesquisa acadêmica desde a década de 1970, quando Eco escreveu o livro, até o cenário atual de digitalização e IA.

    A IA foi usada para pensar o que permanece relevante em Eco: a importância do recorte, a distinção entre fonte e comentário, a organização da documentação e a necessidade de produzir um trabalho verificável.

    Depois, foi pedido ao modelo que pensasse uma proposta de artigo sobre isso. Em seguida, o texto foi aberto na lousa/canvas, recurso que transforma a resposta em um documento editável.

    A demonstração mostrou que, na lousa, é possível editar trechos específicos, pedir para reescrever apenas um parágrafo, alterar o nível do texto, aumentar ou reduzir a extensão e trabalhar de forma mais próxima a um editor de texto. Esse recurso foi apresentado como útil para revisar e lapidar textos sem precisar copiar tudo imediatamente para outro ambiente.

    16. Gamma e criação de slides

    Também foi apresentada a ferramenta Gamma, usada para transformar textos, resumos ou transcrições em apresentações. A diferença destacada é que, enquanto o ChatGPT pode gerar imagens ou propostas de slides conceituais, o Gamma é especializado em apresentação visual.

    Ele permite criar cartões, escolher estilos, editar textos, inserir imagens, modificar a estrutura e ajustar a estética com mais facilidade. Foi observado, porém, que ele funciona por créditos: depois de um período de uso gratuito, pode exigir pagamento.

    A ferramenta foi usada para apresentar a sistematização das dicas de Ethan Mollick, mostrando como um resumo produzido com IA pode ser transformado em material didático visual.

    17. Grupos com IA e coescrita coletiva

    No final da aula, surgiu uma pergunta sobre a funcionalidade de grupos no ChatGPT. A dúvida era como pensar a coescrita quando não há apenas uma pessoa conversando com o modelo, mas várias pessoas em um mesmo ambiente.

    Foi explicado que as conversas em grupo permitem uma dinâmica semelhante a um grupo de WhatsApp com IA: pessoas entram, mencionam o modelo, interagem entre si e com a IA.

    Mas foram indicadas limitações importantes:

    • o grupo não fixa contexto da mesma forma que um projeto;
    • o material pode precisar ser reenviado em outro dia;
    • o modelo não leva automaticamente o contexto pessoal de cada usuário para o grupo;
    • isso evita que informações privadas de uma pessoa vazem em uma conversa coletiva.

    Apesar das limitações, a funcionalidade foi apresentada como promissora para dinâmicas de aula, oficinas e experimentações colaborativas.

    18. Encaminhamento para a Aula 4

    A aula terminou indicando que o próximo encontro seria dedicado a novas experimentações práticas, com destaque para o tema dos agentes de IA. A ideia é mostrar que a discussão sobre IA está entrando em uma nova etapa, na qual os modelos não apenas respondem ou ajudam a escrever, mas começam a executar sequências de ações, interagir com ferramentas e participar de fluxos mais complexos de trabalho.

    Síntese final

    A terceira aula consolidou três movimentos principais do curso.

    Primeiro, aprofundou a ideia de meta-reflexão: usar a IA não apenas para produzir textos, mas para pensar sobre o próprio processo de pesquisa, leitura, autoria e construção de conceitos.

    Segundo, apresentou a IA como uma nova camada na história da organização da informação, articulando escrita, digitalização, etnografia, análise de dados e coescrita.

    Terceiro, sistematizou uma abordagem prática inspirada em Ethan Mollick: experimentar a IA em diferentes etapas, atribuir papéis ao modelo, construir contexto progressivamente, verificar tudo, evitar a tentação da automação total e manter a responsabilidade final com o pesquisador.

    A aula mostrou que pesquisar com IA não significa substituir a leitura, a escrita ou o pensamento crítico. Significa reorganizar essas práticas em uma nova ecologia cognitiva, na qual humanos e máquinas participam de processos híbridos de leitura, escrita, interpretação e criação.

    Complemento sobre Umberto Eco

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  • Fichamento – Eco

    Coescrito por Andre Stangl

    Contexto de Como se faz uma tese, de Umberto Eco

    1. O livro

    Como se faz uma tese foi publicado originalmente em italiano em 1977, com o título Come si fa una tesi di laurea: le materie umanistiche. A edição brasileira da Perspectiva apresenta o livro como uma obra em que Eco aparece não apenas como pesquisador, mas como professor: alguém que transforma sua experiência de investigação em orientação prática para estudantes. A apresentação brasileira diz que o livro é “o relato da experiência de um pesquisador traduzida, praticamente, nas fórmulas didáticas de um professor que conhece o ofício” . A edição inglesa da MIT Press confirma o original italiano de 1977, publicado pela Bompiani/RCS Libri (AtGender).

    O livro foi escrito antes de Eco se tornar mundialmente conhecido como romancista, o que aconteceria com O nome da rosa, publicado em 1980. A própria MIT Press observa que, em 1977, três anos antes desse sucesso internacional, Eco publicou um guia “engraçado e despretensioso” para professores e estudantes (The MIT Press Reader).

    2. Mini bio de Umberto Eco

    Umberto Eco nasceu em Alessandria, na Itália, em 1932, e morreu em Milão em 2016. Foi filósofo, semioticista, crítico literário, medievalista, tradutor, professor de Semiótica na Universidade de Bolonha e uma das figuras centrais dos estudos de comunicação e semiótica no século XX (Universidade de Bolonha). Formou-se em Letras e Filosofia na Universidade de Turim, em 1954, com uma tese sobre a estética de Tomás de Aquino, depois reelaborada em seu primeiro livro, Il problema estetico in San Tommaso (Universidade de Bolonha).

    Antes de Como se faz uma tese, Eco já tinha publicado obras fundamentais como Obra aberta, Apocalípticos e integrados, A estrutura ausente e o Tratado geral de semiótica. Em 1975, assumiu a cátedra de Semiótica na Universidade de Bolonha; em 1977, publicou também Dalla periferia all’impero e Come si fa una tesi di laurea (Universidade de Bolonha).

    3. A situação da época: universidade de massa, crise e democratização

    O ponto central do contexto é a passagem da universidade de elite para a universidade de massa. Eco escreve para estudantes que não vivem mais no modelo aristocrático do pequeno seminário, do tutor disponível e do aluno com tempo integral. No próprio livro, ele afirma que “a universidade italiana é, hoje, uma universidade de massa”, frequentada por estudantes de diferentes classes sociais, muitos deles trabalhadores, pobres, deslocados, sem familiaridade com bibliotecas ou com os códigos tradicionais da pesquisa acadêmica .

    Esse diagnóstico tem base histórica. A Itália havia passado por reformas que ampliaram o acesso ao ensino superior. A reforma de 1969 abriu o acesso à universidade a estudantes que tivessem concluído o ensino secundário, independentemente do tipo de formação anterior (CRUI). Ou seja, Eco escreve em um momento posterior à contestação estudantil de 1968, à expansão universitária e às tensões entre democratização do acesso e manutenção de formas antigas de avaliação.

    A tese, nesse contexto, aparece como paradoxo: ao mesmo tempo rito burocrático, exigência legal, obstáculo final e possível experiência formadora. A apresentação brasileira capta bem esse ponto ao dizer que a tese vive entre “a pesquisa e a formalidade”, entre “descobrir uma tese e fazer uma tese” .

    4. Por que o livro era necessário

    Eco não escreve para o estudante ideal. Ele escreve para quem precisa aprender o ofício da pesquisa em condições imperfeitas. Por isso o livro fala de escolha de tema, delimitação, bibliografia, fichamento, uso de biblioteca, citações, notas, redação e relação com o orientador.

    A força do livro está justamente nessa mistura de modéstia e ambição. Modéstia porque Eco não promete ensinar “a verdade” da pesquisa científica; ele ensina procedimentos. Ambição porque, para ele, fazer uma tese não é apenas cumprir uma obrigação acadêmica. É aprender a organizar ideias, selecionar fontes, construir um objeto, comunicar um argumento e permitir que outros retomem o caminho percorrido.

    Esse ponto é decisivo para nosso artigo: Eco transforma a tese em uma pedagogia do método. A tese não vale apenas pelo tema escolhido, mas pela experiência intelectual que ela obriga a viver.

    5. A recepção na época e depois

    Sobre a recepção imediata em 1977, seria preciso pesquisar arquivos de jornais e revistas italianos para afirmar com precisão como o livro foi resenhado no momento do lançamento. Mas a repercussão posterior é clara: o livro tornou-se um manual duradouro para estudantes italianos e, depois, internacionais.

    A edição inglesa da MIT Press registra que muitos professores italianos ainda recomendam a obra a seus alunos, e que sites universitários de outros países citam trechos do livro como parte da preparação para a escrita de teses (AtGender). A New Yorker informou, em 2015, que o livro já havia passado por 23 edições na Itália e sido traduzido para pelo menos 17 línguas; a primeira edição em inglês só apareceu em 2015 (The New Yorker).

    Essa recepção tardia em inglês é interessante: um manual escrito para a universidade italiana dos anos 1970 passou a ser lido, décadas depois, como um guia ainda útil em tempos de internet, excesso de informação e crise das humanidades. A New Yorker observa que Eco escreveu antes da difusão do processador de texto e da internet, mas que o valor duradouro do livro está em sua ideia da tese como experiência de formação, disciplina intelectual e engajamento cuidadoso com o mundo (The New Yorker).

    Estrutura geral do livro

    A estrutura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco, é muito interessante porque o livro não é apenas um manual técnico. Ele é organizado como uma pedagogia do trabalho intelectual: começa explicando o sentido da tese, passa pela escolha do tema, depois pela pesquisa bibliográfica, pela organização do material, pela redação e termina com a forma final do trabalho.

    Eco diz explicitamente, na introdução, que o livro pretende tratar de cinco coisas: o que é uma tese; como escolher o tema e organizar o tempo; como fazer a pesquisa bibliográfica; como dispor o material selecionado; e como redigir o trabalho.

    1. Apresentação à edição brasileira

    A edição brasileira abre com uma apresentação de Lucrécia D’Aléssio Ferrara, que situa o livro no contexto brasileiro. Ela mostra a diferença entre a tese italiana, ligada à licenciatura e à formação profissional, e a tese brasileira, mais associada à pós-graduação, à formação de pesquisadores, mestres e doutores.

    Essa apresentação é importante porque interpreta o livro como algo mais que um receituário. Para ela, Eco oscila entre dois planos:

    fazer uma tese, como objeto institucional, formal, com regras, prazos, fontes, orientador e defesa;

    descobrir uma tese, como experiência de investigação, invenção, leitura e reorganização crítica do conhecimento.

    2. Introdução

    Na introdução, Eco define o público do livro: estudantes da universidade de massa, muitas vezes sem tempo integral, sem formação anterior sólida em pesquisa e sem familiaridade com bibliotecas. Ele insiste que é possível fazer uma tese digna mesmo em condições difíceis e que a tese pode recuperar o sentido positivo do estudo, não como simples acúmulo de noções, mas como capacidade de identificar problemas, enfrentá-los com método e comunicá-los bem.

    A introdução também delimita o alcance do livro: Eco não pretende ensinar “como se faz pesquisa científica” em abstrato, mas como se constrói e apresenta um objeto acadêmico chamado tese.


    Capítulo 1 — Que é uma tese e para que serve

    Este capítulo define a tese como trabalho escrito, institucionalmente exigido, apresentado a uma banca, mas logo amplia o problema para discutir sua função formativa.

    A estrutura interna do capítulo passa por quatro pontos:

    1.1. Por que se deve fazer uma tese e o que ela é
    Eco distingue a tese de licenciatura, mais ligada à conclusão de curso, da tese de doutorado/PhD, que deveria apresentar uma contribuição original. Ele também diferencia tese de pesquisa e tese de compilação. A tese de compilação não é necessariamente inferior: pode ser séria quando organiza criticamente uma literatura dispersa.

    1.2. A quem interessa este livro
    Eco deixa claro que o livro não é para quem quer “se livrar” da tese de qualquer maneira, mas para quem deseja fazer um trabalho sério dentro de limites realistas.

    1.3. Como uma tese pode servir também após a formatura
    Aqui aparece uma das ideias centrais do livro: o tema é menos importante que a experiência de trabalho. Fazer tese é aprender a identificar um tema, recolher documentação, ordenar dados, reexaminar o problema e construir uma exposição compreensível para outros.

    1.4. Quatro regras óbvias
    Eco apresenta quatro critérios para escolher uma tese: o tema deve interessar ao candidato; as fontes devem ser materialmente acessíveis; as fontes devem ser culturalmente manejáveis; e o método deve estar ao alcance da experiência do estudante.


    Capítulo 2 — A escolha do tema

    Este é um dos capítulos mais importantes para planejamento de pesquisa. Eco mostra que muitos fracassos começam na escolha de um tema amplo demais.

    O capítulo organiza a escolha do tema por pares de oposição:

    2.1. Tese monográfica ou tese panorâmica?
    Eco defende a tese monográfica. Quanto mais restrito o campo, maior a chance de trabalhar com profundidade. Uma tese sobre “a literatura contemporânea” tende a ser ingovernável; uma tese sobre um corpus específico, um autor, um problema ou uma obra permite mais segurança.

    2.2. Tese histórica ou tese teórica?
    Eco alerta contra temas abstratos demais, como “a liberdade”, “o ser” ou “a vontade humana”. A solução sugerida é transformar problemas teóricos amplos em objetos controláveis: por exemplo, não “o conceito de liberdade”, mas “o conceito de liberdade em Kant”.

    2.3. Temas antigos ou temas contemporâneos?
    Eco desmonta a ideia de que o contemporâneo é sempre mais fácil. Muitas vezes o tema contemporâneo é mais difícil porque ainda não há distância crítica nem bibliografia consolidada.

    2.4. Quanto tempo é requerido para se fazer uma tese?
    Eco sugere que uma tese não deveria levar mais de três anos nem menos de seis meses. Menos de seis meses só seria viável em casos muito delimitados, com fontes disponíveis e tema bem circunscrito.

    2.5. É necessário saber línguas estrangeiras?
    A resposta depende do objeto. Se a tese trata de um autor estrangeiro, é necessário lê-lo no original. Se a bibliografia essencial está em outra língua, ignorá-la pode comprometer o trabalho.

    2.6. Tese “científica” ou tese política?
    Eco mostra que essa oposição é falsa. Uma tese política pode ser científica se define bem seu objeto, apresenta dados verificáveis, deixa claros os critérios e permite contestação. O problema não é o tema político, mas a falta de método.

    2.7. Como evitar ser explorado pelo orientador
    Eco discute a relação entre orientador e orientando, inclusive o risco de o estudante virar mão de obra para a pesquisa do professor. Mas também reconhece que participar de uma pesquisa coletiva pode ser legítimo e produtivo.


    Capítulo 3 — A pesquisa do material

    Aqui o livro entra na dimensão prática da investigação: fontes, bibliotecas, bibliografia, fichamento bibliográfico e citações.

    O capítulo tem dois grandes blocos:

    3.1. A acessibilidade das fontes

    Eco distingue fontes primárias e fontes secundárias. Se a tese é sobre Adam Smith, as obras de Adam Smith são fontes primárias; os livros sobre Adam Smith são literatura crítica. Se a tese é sobre uma experiência social contemporânea, as fontes podem ser entrevistas, documentos, dados estatísticos, registros audiovisuais etc.

    Ele insiste que, antes de aceitar um tema, o estudante deve verificar:

    onde estão as fontes;

    se elas são acessíveis;

    se ele tem condições de lê-las e trabalhá-las.

    Também há uma seção importante sobre fontes de primeira e segunda mão, na qual Eco alerta contra o uso acrítico de traduções, antologias, resumos e citações indiretas.

    3.2. A pesquisa bibliográfica

    Este bloco ensina como usar biblioteca, catálogo por assunto, catálogo por autor, enciclopédias, repertórios bibliográficos, bibliotecários e empréstimos interbibliotecas.

    Eco propõe também o uso de fichário bibliográfico, distinguindo-o do fichário de leitura. O primeiro registra tudo que deve ser procurado; o segundo registra o que foi efetivamente lido e resumido.

    Há ainda uma longa seção sobre citação bibliográfica, com exemplos de como citar livros, artigos, capítulos, obras coletivas, clássicos, jornais, documentos oficiais, traduções e inéditos.


    Capítulo 4 — O plano de trabalho e o fichamento

    Este capítulo é o coração metodológico do livro. Eco defende que a tese deve começar com um índice provisório, uma espécie de mapa da viagem. O índice não é definitivo, mas ajuda a definir o âmbito do trabalho e a conversar com o orientador.

    A ideia central é: antes de escrever a tese, é preciso construir uma hipótese de organização.

    O capítulo trata de:

    4.1. O índice como hipótese de trabalho
    Eco recomenda escrever desde cedo o título, a introdução e o índice, mesmo que tudo seja refeito depois. O índice inicial serve para ordenar as ideias e revelar lacunas.

    4.2. Fichas e anotações
    Eco diferencia tipos de fichas: fichas bibliográficas, fichas de leitura, fichas de citação, fichas de ideias e fichas de trabalho.

    4.2.2. Fichamento das fontes primárias
    Para fontes primárias, Eco recomenda, quando possível, ter os textos à mão, sublinhar, marcar, usar cores, siglas e indicações que depois facilitem a redação.

    4.2.4. Humildade científica
    Esta é uma das passagens mais conhecidas do livro. Eco conta que uma fonte aparentemente menor pode trazer uma ideia decisiva. Daí a lição: numa pesquisa, não se deve desprezar nenhuma fonte de antemão.


    Capítulo 5 — A redação

    Depois de escolher o tema, levantar fontes e organizar fichas, Eco passa à escrita.

    O capítulo começa com uma pergunta simples: a quem nos dirigimos ao escrever uma tese? A resposta de Eco é que a tese se dirige formalmente à banca, mas deve ser escrita como se pudesse ser lida por outros pesquisadores, estudantes e interessados. Por isso, clareza é essencial.

    Os principais temas do capítulo são:

    5.1. A quem nos dirigimos
    Eco critica o falso prestígio da obscuridade. Textos que não explicam bem seus termos muitas vezes revelam insegurança, não profundidade.

    5.2. Como se escreve
    O estilo deve ser claro, preciso e comunicável. A tese não deve ser nem conversa informal nem exibição pedante.

    5.3. As citações
    Eco explica quando citar, como citar, como evitar citações excessivas e como distinguir citação direta, paráfrase e comentário.

    5.4. As notas de rodapé
    As notas servem para documentação, comentários laterais, referências bibliográficas e esclarecimentos que não devem interromper o fluxo principal.

    5.5. Advertências, armadilhas e orgulho intelectual
    Eco recomenda que o estudante seja prudente antes de afirmar algo, mas que, depois de pesquisar, assuma sua voz. Quem escolheu um tema delimitado deve se tornar autoridade naquele pequeno território.


    Capítulo 6 — A redação definitiva

    Este capítulo é quase um manual de apresentação formal. Curiosamente, no PDF ele aparece com numeração romana: Capítulo VI. A Redação Definitiva. Eco explica que a forma gráfica não é mero detalhe: ela também comunica método, ordem e seriedade.

    A estrutura do capítulo inclui:

    VI.1. Os critérios gráficos
    Margens, espaçamento, títulos, subtítulos, parágrafos, organização visual da página. Eco mostra que a disposição gráfica ajuda o leitor a compreender a hierarquia do texto.

    VI.2. A bibliografia final
    Eco orienta a organização da bibliografia e sugere divisões como: fontes, repertórios bibliográficos, obras sobre o tema, obras sobre o autor e materiais adicionais.

    VI.3. Os apêndices
    Os apêndices servem para documentos, tabelas, quadros, transcrições, dados estatísticos e materiais que sustentam a tese, mas que tornariam o texto principal pesado.

    VI.4. O índice
    Eco defende um índice analítico, claro, bem hierarquizado, capaz de refletir a organização real da tese. No fim do livro, ele dá inclusive modelos de índice, mostrando como a estrutura visual deve revelar a estrutura lógica do trabalho.


    Capítulo 7 — Conclusões

    O capítulo final é breve, mas conceitualmente forte. Eco conclui com duas ideias: fazer uma tese deve ser também uma forma de prazer intelectual e a tese é como porco: nada se desperdiça. Ou seja, mesmo leituras, fichas, desvios e materiais que não entram no texto final podem servir para trabalhos futuros.

    A conclusão retoma a tese maior do livro: fazer uma tese não é apenas cumprir uma exigência universitária. É aprender um modo de trabalhar: delimitar problemas, buscar fontes, organizar materiais, escrever com clareza e construir algo que possa ser usado por outros.


    Síntese da arquitetura do livro

    A estrutura pode ser vista como uma sequência pedagógica:

    EtapaFunção no livro
    Apresentação brasileiraContextualiza a tese no Brasil e interpreta o livro
    IntroduçãoDefine público, objetivo e limites do manual
    Cap. 1Explica o que é uma tese e para que serve
    Cap. 2Ensina a escolher um tema possível
    Cap. 3Ensina a pesquisar fontes e bibliografia
    Cap. 4Ensina a organizar plano, índice e fichas
    Cap. 5Ensina a escrever a tese
    Cap. 6Ensina a preparar a versão final
    Cap. 7Fecha com uma reflexão sobre o valor formativo da tese

    Em resumo, o livro se move de uma pergunta institucional — “o que é uma tese?” — para uma prática intelectual — “como transformar um tema em objeto de pesquisa comunicável?”. Eco começa com a obrigação acadêmica, mas termina defendendo a tese como exercício de método, descoberta e prazer intelectual.

    A IA não acabou com o método: relendo Umberto Eco depois do ChatGPT

    Se abrirmos hoje Como se faz uma tese, de Umberto Eco, encontramos um modo de pesquisar bem diferente do atual. Ele descreve um trabalho feito em bibliotecas físicas, com catálogos em fichas, pedidos de livros, cópias xerográficas e anotações à mão organizadas em fichários.

    Para quem pesquisa hoje — usando PDFs, buscadores acadêmicos e inteligência artificial — esse cenário pode parecer antigo. Mas essa diferença ajuda a perceber algo importante: mudaram as ferramentas, mas não mudou aquilo que faz uma pesquisa funcionar.

    E, no entanto, o livro não envelheceu.

    Isso acontece porque Eco não estava ensinando apenas a usar uma biblioteca. Ele estava ensinando algo mais fundamental: como transformar informação em pesquisa.

    Essa distinção ajuda a entender o momento atual. A digitalização mudou radicalmente o acesso às fontes. A inteligência artificial está mudando a forma como lemos, sintetizamos e escrevemos. Mas nenhuma dessas transformações eliminou o núcleo da atividade de pesquisa. Em alguns aspectos, tornou-o ainda mais exigente.

    Da escassez à abundância

    No tempo de Eco, um dos principais problemas era o acesso. Era preciso saber onde encontrar um livro, lidar com acervos incompletos, dominar idiomas, circular por bibliotecas, organizar material físico. A pesquisa exigia esforço logístico antes mesmo de se tornar um problema intelectual.

    Hoje, vivemos o problema inverso. Há uma abundância quase ilimitada de textos: artigos, preprints, livros digitalizados, repositórios, bases de dados. A isso se somam ferramentas de tradução automática, sistemas de recomendação e, mais recentemente, modelos de linguagem capazes de resumir, comparar e até redigir textos inteiros.

    Se antes o desafio era encontrar algo, agora é saber o que merece ser lido, o que é fonte, o que é comentário, o que é confiável e o que é apenas ruído bem articulado.

    A digitalização democratizou parte do acesso. A IA acelerou parte da leitura e da escrita. Mas nenhuma das duas aboliu a necessidade de julgamento.

    O que permanece: o recorte

    Para Eco, a pesquisa começa com uma decisão aparentemente simples e profundamente difícil: delimitar o tema.

    Uma tese muito ampla tende a se dissolver em generalidades. Uma tese bem recortada, ao contrário, permite um trabalho real: reunir documentação, confrontar interpretações, construir um argumento.

    Esse ponto se torna ainda mais relevante na era da IA. Ferramentas como o ChatGPT são excelentes para expandir o campo: sugerem autores, conectam temas, oferecem panoramas, multiplicam possibilidades. O risco é confundir essa expansão com avanço.

    Mas uma pesquisa não avança porque o campo cresce. Ela avança quando o problema se define.

    A IA é muito boa para abrir caminhos. O pesquisador continua responsável por fechá-los em uma questão investigável.

    O fichário mudou de forma

    O fichário de Eco — com suas fichas de leitura, citações, referências cruzadas — pode parecer obsoleto. Mas sua função permanece central: construir uma memória externa da pesquisa.

    Hoje, esse papel é desempenhado por ferramentas digitais: gerenciadores de referência, aplicativos de notas, pastas organizadas, bancos de citações, projetos em plataformas de IA. A forma mudou. A necessidade, não.

    Pesquisar não é apenas acumular textos. É organizar relações: quem disse o quê, a partir de quais fontes, em diálogo com quais autores, em oposição a quais argumentos.

    Nesse sentido, a pesquisa contemporânea exige uma nova habilidade que Eco não nomeava, mas certamente reconheceria: a capacidade de construir contextos progressivos. Não basta fazer perguntas isoladas à IA. É preciso criar ambientes de trabalho onde documentos, hipóteses, leituras e interpretações se articulam.

    O novo risco: a compilação sem atrito

    Eco já criticava a tese de compilação — aquela que apenas reúne o que outros disseram, sem um trabalho próprio de análise. Esse risco não desapareceu. Ao contrário: foi potencializado.

    Com a IA, tornou-se possível produzir rapidamente textos coerentes, bem estruturados e aparentemente informados. Mas essa fluência pode esconder um problema: a ausência de contato efetivo com as fontes.

    Se antes a dificuldade material da pesquisa impunha algum grau de confronto com o texto original, hoje é possível simular esse confronto. Surge, assim, uma nova figura: a compilação sem atrito.

    Textos que parecem sólidos, mas que não deixam claro de onde vêm suas informações, como foram selecionadas, nem como poderiam ser verificadas.

    Nesse cenário, a exigência ecoana de distinguir entre fonte e comentário, de citar corretamente e de organizar a documentação ganha um novo peso. Não se trata apenas de rigor acadêmico. Trata-se de tornar visível o percurso da pesquisa.

    O critério continua sendo o mesmo

    Eco propõe um critério simples e poderoso para pensar a cientificidade de um trabalho. Um estudo é científico quando:

    • define um objeto reconhecível;
    • diz algo novo ou reorganiza de modo relevante o que já foi dito;
    • é útil para outros;
    • permite verificação e contestação.

    Esses critérios continuam plenamente válidos.

    Um texto produzido com auxílio de IA pode atender a essas exigências — ou não. Um texto escrito sem IA pode falhar nelas — ou não. A questão não é a ferramenta, mas o modo como o trabalho se constitui.

    A pergunta decisiva não é “foi usado IA?”. É: o percurso da pesquisa é claro, sustentado, verificável?

    Entre o fichário e o prompt

    Há uma mudança técnica profunda entre o mundo de Eco e o nosso. O fichário deu lugar a bancos de dados digitais. O catálogo virou buscador. O assistente de biblioteca foi substituído, em parte, por sistemas de inteligência artificial capazes de dialogar com o pesquisador.

    Mas o que Eco nos lembra é que a pesquisa não se reduz a essas mediações.

    Ela continua sendo uma prática que envolve escolhas, recortes, organização, interpretação e responsabilidade. A responsabilidade de responder pelo que se afirma — e de permitir que outros acompanhem, verifiquem e contestem esse percurso.

    A inteligência artificial pode acelerar muitas etapas: localizar textos, resumir argumentos, sugerir conexões, revisar a redação. Pode, inclusive, participar da escrita.

    O que ela não faz, por si só, é assumir o gesto metodológico que transforma informação em investigação.

    Entre o fichário de Eco e o prompt contemporâneo, há uma continuidade silenciosa. A pesquisa continua dependendo de uma arte que nenhuma tecnologia automatiza completamente: transformar informação em problema, problema em método e método em um percurso que outros possam compreender.

    A IA não acabou com o método. Se algo, ela o tornou mais visível — e mais necessário.

    Nota técnica sobre a elaboração deste artigo

    Este artigo foi elaborado em processo de coescrita com auxílio do ChatGPT, utilizando um projeto dedicado à leitura e discussão do livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco. O projeto incluía como contexto principal uma versão digitalizada da obra, usada como referência para recuperar passagens, conceitos e problemas centrais do livro.

    O prompt de trabalho orientou a reflexão para a comparação entre o modo de pesquisar descrito por Eco — baseado em bibliotecas, fichários, catálogos, fontes primárias e organização manual da documentação — e as práticas atuais de pesquisa mediadas pela digitalização e pela inteligência artificial.

    A IA foi utilizada como apoio para organizar ideias, propor estrutura argumentativa, formular comparações, revisar o texto e tornar a exposição mais didática. A responsabilidade pela seleção dos argumentos, pelo enquadramento conceitual e pela versão final do artigo permanece com o autor.

    A proposta do texto não foi substituir a leitura direta de Eco, mas usá-la como ponto de partida para pensar continuidades e mudanças no trabalho acadêmico contemporâneo, especialmente no contexto da pesquisa com apoio de ferramentas digitais e modelos de linguagem.

  • Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    Curso: Pesquisa Acadêmica com IA

    Coescrito com IA por Andre Stangl.

    A segunda aula aprofundou a ideia de que pesquisar com IA não é apenas “usar uma ferramenta”, mas aprender a habitar uma nova ecologia cognitiva, marcada por coescrita, coleitura, metarreflexão, curadoria intelectual e gestão da atenção. A aula combinou discussão conceitual, troca com os participantes e demonstrações práticas no ChatGPT, especialmente com GPTs customizados e projetos.

    1. Abertura: metapresença e experiência de aula online

    A aula começou com uma conversa sobre a própria condição do encontro remoto. A partir de uma referência a Naomar de Almeida Filho, foi apresentada a noção de metapresença ou metapresencialidade: a ideia de que encontros mediados por plataformas digitais não são simplesmente “a distância”, mas constituem outro tipo de presença.

    A discussão apontou que a presença online depende de elementos como câmera aberta, galeria de rostos, interação síncrona e percepção das reações dos participantes. A tela, nesse sentido, não elimina a presença, mas a transforma. O encontro online foi pensado como uma forma de coabitação mediada, em que os participantes estão “juntos” de outro modo.

    Também apareceu a ideia de salas híbridas ou metapresenciais, com várias telas, alunos presenciais e remotos em interação, indicando que a educação online pode deixar de ser apenas uma substituição emergencial da sala física e passar a ser pensada como outro ambiente de aprendizagem.

    2. A IA como campo instável e em rápida transformação

    Em seguida, a aula situou o curso dentro de um contexto mais amplo de debate na UFBA sobre inteligência artificial. Foi mencionada a formação de uma rede de professores, pesquisadores e estudantes interessados em estudar, experimentar, normatizar e formar pessoas para o uso de IA.

    Um ponto importante foi a sensação de defasagem permanente: a cada semana surgem novos modelos, agentes, ferramentas multimodais, recursos de áudio, vídeo, imagem e texto. Antes mesmo de se consolidar uma metodologia para o uso de IA generativa em texto, já aparecem agentes autônomos, modelos multimodais e plataformas que reorganizam automaticamente slides, conceitos e narrativas.

    Daí surgiu uma das teses centrais da aula: não se deve aceitar automaticamente aquilo que a IA produz. O material gerado pode trazer boas categorias, insights e conexões inesperadas, mas precisa sempre ser revisto, interrogado e reposicionado pelo pesquisador. A IA participa do processo de criação, mas não substitui a responsabilidade intelectual humana.

    3. Coescrita, coleitura e pesquisa com IA

    A aula reforçou que o trabalho com IA deve ser compreendido como um processo de cocriação, coescrita e coleitura. A pesquisa com IA não consiste apenas em pedir respostas, mas em construir progressivamente um contexto de interlocução.

    A partir da experiência das edições anteriores do curso de coescrita, foi destacado que o uso da IA, inicialmente mais associado à literatura, narrativa e experimentação estética, passou a mostrar grande potencial para a pesquisa acadêmica.

    Nesse ponto, a portaria do CNPq sobre integridade em pesquisa foi mencionada como um marco importante, pois oferece algum norte institucional para pensar o uso acadêmico da IA. O universo universitário ainda aparece como um campo de dúvidas, desinformação e insegurança, tanto entre alunos quanto entre professores, pesquisadores e estruturas administrativas.

    4. Flusser, escrita e pós-história

    Um dos blocos teóricos centrais da aula foi dedicado a Vilém Flusser, especialmente ao livro A escrita. A partir dessa obra, foi apresentada a ideia de que a escrita não é apenas um conteúdo, mas um gesto: escrever envolve corpo, superfície, linearidade, memória e organização do pensamento.

    Flusser aparece como um pensador particularmente atual porque, ainda em 1989, já discutia a possibilidade de “máquinas de escrita pensante”. A aula mostrou como essa intuição se conecta ao presente, em que modelos de linguagem participam de processos de escrita, organização textual, tradução, síntese e criação.

    A discussão levou à noção de pós-história. Em Flusser, esse conceito não significa simplesmente o fim da história, mas a passagem de uma cultura centrada na escrita linear para outra forma de organização simbólica, mais ligada às imagens técnicas, aos códigos, aos aparelhos e aos programas.

    A oposição entre escrita e oralidade foi usada para ilustrar essa mudança. Ler um texto é seguir uma linha. Falar, por outro lado, pode manter coerência sem seguir a mesma linearidade. A oralidade pode juntar temas, tons, desvios e ênfases de forma menos sequencial. As mensagens de áudio no WhatsApp foram usadas como exemplo cotidiano dessa transformação: certas coisas são mais facilmente ditas do que escritas.

    A IA entra como uma nova camada dessa transformação. Ela permite gravar aulas, reuniões e palestras, transcrever esse material e reorganizá-lo em textos, resumos, mapas conceituais e projetos. Com isso, práticas de oralidade, escrita e memória começam a se misturar.

    5. Memória persistente, contexto e curadoria

    Outro ponto importante foi a ideia de que, com os modelos de linguagem, a relação entre usuário e IA vai sendo calibrada ao longo do tempo. A IA “educa” o usuário e o usuário “educa” a IA, no sentido de que a interação vai criando padrões, preferências, recorrências temáticas e modos narrativos.

    A memória persistente e os projetos permitem que o modelo reconheça etapas anteriores de um trabalho, estilos de escrita, temas de pesquisa e caminhos argumentativos. Isso pode ser muito produtivo em um mundo saturado de informação.

    Mas esse aumento de produtividade também gera um novo problema: a IA produz muito material, e esse material precisa ser lido, filtrado, revisado e avaliado. Por isso, o trabalho com IA exige curadoria intelectual. O pesquisador precisa reconhecer quando a IA abre um caminho interessante e quando ela conduz a uma direção fraca, imprecisa ou inadequada.

    6. Dieta midiática e gestão da atenção

    A aula trouxe uma pausa importante sobre o cuidado com a atenção. O uso intenso de IA foi relacionado a um problema mais amplo: vivemos em um ambiente de excesso informacional.

    Foi apresentada a ideia de uma “dieta midiática”: reduzir a exposição às timelines, evitar a dispersão constante das redes sociais, concentrar a entrada de informação em fontes mais filtradas, como jornais, e criar práticas de equilíbrio.

    A meditação foi mencionada como uma experiência pessoal de cuidado com a atenção, mas a recomendação foi mais ampla: cada pessoa precisa encontrar formas de pausa, desconexão e recomposição — seja por meditação, caminhada, atividade física, praia, cachoeira ou outro tipo de prática.

    A metáfora do fármaco foi usada: a tecnologia pode funcionar como remédio, mas o excesso pode virar veneno. A IA, portanto, deve ser usada com dose, ritmo e consciência.

    7. Debate com os alunos: escrever com IA ou pesquisar com IA?

    Uma participante destacou que veio ao curso não necessariamente para entregar a escrita à IA, mas para compreender como a IA pode ajudar na pesquisa. Ela afirmou gostar do artesanato da escrita, da tela em branco, da construção do parágrafo e do trabalho autoral.

    Esse comentário abriu uma distinção importante: há pessoas que gostam de escrever e há pessoas que precisam escrever. Para algumas, a IA pode ajudar na clareza, na organização didática, na revisão e na ampliação de argumentos. Para outras, a escrita continua sendo uma prática subjetiva, artesanal e prazerosa.

    A resposta da aula foi acolher essa diferença. A IA não precisa ocupar o mesmo lugar para todos. Ela pode ser usada para encontrar bibliografia, localizar casos, organizar materiais, traduzir textos, revisar escopos e ajudar na leitura, sem necessariamente substituir o momento autoral da escrita.

    8. Da perspectiva mecanicista à perspectiva recursiva

    A aula introduziu uma distinção conceitual importante: estamos saindo de uma perspectiva mais mecanicista para uma perspectiva mais recursiva.

    Em uma visão mecanicista, espera-se que a ferramenta obedeça diretamente ao comando: o usuário pede algo, a máquina entrega exatamente aquilo. Mas os modelos generativos funcionam de modo diferente. Eles variam, reinterpretam, completam, desviam, propõem caminhos e exigem ajustes contínuos.

    Essa dimensão foi relacionada a Yuk Hui e à ideia de recursividade. A interação com IA não é linear: envolve tentativa, erro, reorientação, retorno, ajuste e nova tentativa. Por isso, a aula reforçou que a frustração com a IA muitas vezes vem da expectativa errada de que ela deveria funcionar como uma máquina determinística.

    9. Alucinação como problema e como possibilidade

    A aula tratou também das chamadas “alucinações” da IA. Em contextos de saúde, direito, ciência e decisão institucional, elas são perigosas, pois podem produzir informações falsas com aparência de autoridade.

    Mas foi apresentada uma leitura mais complexa: em campos criativos, a alucinação pode aparecer como invenção, deslocamento ou abertura narrativa. Em literatura, por exemplo, respostas inesperadas podem gerar caminhos de criação.

    Ainda assim, no campo acadêmico, a aula insistiu na necessidade de verificação. A IA não deve ser tomada como fonte final. Ela pode ajudar a formular hipóteses, encontrar relações e sugerir caminhos, mas precisa ser confrontada com fontes, textos, dados e critérios de pesquisa.

    10. Metarreflexão: GPTs customizados como “índices remissivos recursivos”

    O centro prático da aula foi a demonstração dos GPTs customizados. A ideia apresentada foi criar um modelo alimentado com livros, artigos ou materiais de um autor, para que ele responda com base naquele corpus.

    Esse procedimento foi chamado de metarreflexão. A IA não deve “fingir ser Freud”, “fingir ser Nietzsche” ou simular a personalidade de um autor. O objetivo não é teatralizar o autor, mas criar uma camada de leitura sobre sua obra.

    A fórmula apresentada foi muito boa:

    Um GPT customizado pode funcionar como um índice remissivo recursivo.

    Ou seja, em vez de apenas procurar uma palavra no índice de um livro, o pesquisador pode conversar com o corpus: perguntar por conceitos, relações, tensões, fases da obra, diferenças entre livros e possíveis aplicações a fenômenos contemporâneos.

    11. RAG: explicação didática

    A aula aproximou essa prática da ideia de RAG, sigla de Retrieval-Augmented Generation, ou geração aumentada por recuperação.

    Em termos simples, RAG é uma técnica em que o modelo não responde apenas com base no treinamento geral, mas consulta uma base específica de documentos fornecida pelo usuário. No caso da aula, essa base pode ser composta por livros, artigos, capítulos ou materiais de um autor.

    Assim, em vez de perguntar “o que é pós-história?” para um modelo genérico, pode-se perguntar a um GPT alimentado com obras de Flusser. A resposta tenderá a se orientar por aquele conjunto documental.

    A recomendação metodológica foi evitar misturar muitos autores em um mesmo GPT. Para maior consistência, é melhor criar GPTs por autor, por livro ou por fase de autor. No caso de autores com fases muito distintas, como Wittgenstein ou Latour, pode ser interessante criar modelos separados.

    12. Demonstração prática: Flusser e Simondon

    Na demonstração, foi mostrado um GPT baseado em Flusser. Ao perguntar sobre pós-história, o modelo respondeu a partir da obra do autor, articulando escrita, imagens técnicas, programas, aparelhos e liberdade.

    Depois, foi demonstrado o processo de criação de um GPT sobre Gilbert Simondon. A aula mostrou o caminho: acessar a área de GPTs, criar um novo GPT, definir seu objetivo, subir um PDF, orientar o modelo a responder com base naquele material e configurar o compartilhamento.

    A partir disso, o GPT foi usado para explicar o conceito de individuação. Depois, o modelo foi provocado com uma questão mais interpretativa: se a individuação poderia ser pensada como uma forma de animismo. A resposta exigia cruzar Simondon com outras referências, mostrando como a IA pode ajudar a explorar hipóteses teóricas sem substituir a revisão crítica do pesquisador.

    Experimente conversar com o GPTs Flusseriana – https://chatgpt.com/g/g-Kywx5YrPT-flusseriana

    13. GPTs customizados, projetos e NotebookLM

    Uma pergunta importante feita durante a aula foi sobre a diferença entre criar um GPT customizado e montar um projeto.

    A resposta indicou que os projetos são práticos para organizar materiais próprios, pesquisas em andamento, livros específicos, capítulos e tarefas pessoais. Eles são úteis quando o pesquisador quer trabalhar com um conjunto de documentos sem necessariamente compartilhar esse ambiente com outras pessoas.

    Já os GPTs customizados têm a vantagem de poderem ser mais individualizados e compartilháveis. Podem funcionar como tutores, guias de estudo, modelos baseados em autores ou assistentes especializados em determinado corpus.

    A aula destacou que não há ainda uma resposta definitiva sobre qual opção é melhor. O campo está em construção. A escolha depende do objetivo: uso pessoal, compartilhamento com alunos, criação de tutor, organização de pesquisa, estudo de autor ou leitura de um corpus específico.

    O NotebookLM também apareceu como ferramenta próxima dessa lógica, embora a aula tenha destacado que a experiência principal do curso está sendo feita com o ChatGPT.

    14. Possibilidades pedagógicas: tutores de disciplina

    Uma aplicação importante discutida foi a criação de GPTs como tutores de componentes curriculares. A ideia é alimentar um GPT com ementa, textos, artigos e materiais de uma disciplina, configurando-o para ajudar os estudantes a estudar aquele conteúdo.

    Esse tutor não substituiria o professor, mas poderia funcionar como apoio para leitura, revisão, perguntas, explicações e aprofundamento. A aula também apontou desafios: como compartilhar com os alunos, como verificar a qualidade das respostas, como orientar o uso e como lidar com turmas grandes.

    A recomendação foi testar com cuidado, preferencialmente em contextos menores ou controlados, antes de disponibilizar amplamente.

    15. Velocidades e modos de resposta do modelo

    Na parte final, foi demonstrada a diferença entre respostas mais rápidas e respostas mais reflexivas. O modelo pode responder de forma instantânea ou pode ser configurado para “pensar” mais antes de responder.

    Esse recurso é útil em perguntas conceituais complexas, cruzamentos teóricos, análise de documentos e temas polêmicos. Em uma pergunta simples, talvez não seja necessário. Mas em questões de pesquisa, o modo mais reflexivo pode melhorar a qualidade da resposta, reduzir incoerências e explicitar melhor o caminho argumentativo.

    Também foi mostrada a possibilidade de visualizar parte do processo de decisão do modelo, acompanhando fontes consultadas, etapas de busca e referências usadas.

    16. Pesquisa aprofundada

    Outro recurso apresentado foi a pesquisa aprofundada. Ela permite que o modelo faça uma investigação mais longa, varrendo fontes, artigos, páginas e bancos de dados.

    A aula alertou, porém, que esse recurso pode produzir muito material e exigir bastante tempo de revisão. Por isso, deve ser usado quando a pergunta realmente justificar uma investigação mais ampla. A pesquisa aprofundada pode ser poderosa, mas também aumenta a carga de curadoria intelectual.

    17. Tradução com IA

    A aula também trouxe orientações práticas sobre tradução. A IA pode ser muito boa para traduzir textos entre línguas de ampla circulação, especialmente textos jornalísticos, acadêmicos ou objetivos.

    Mas há cuidados importantes:

    1. Não mandar textos muito longos de uma vez.
    2. Dividir o material em partes pequenas, como duas páginas por vez.
    3. Explicar antes o objetivo da tradução.
    4. Pedir explicitamente para não resumir.
    5. Pedir uma tradução fiel, profissional e sem recriação.
    6. Revisar termos técnicos, conceitos consolidados e escolhas terminológicas.

    Foi destacado que a IA tende, em alguns casos, a resumir quando recebe textos longos. Por isso, é preciso calibrar o comando e verificar o resultado. Em textos literários, regionais, poéticos ou com forte marca estilística, a tradução automática tende a ser mais problemática.

    18. Cuidados éticos e limites

    A aula também tocou em temas sensíveis ligados ao uso social da IA: simulação de pessoas falecidas, uso como conselheiro emocional, criação de personagens, relações afetivas com modelos e riscos de plataformas sem salvaguardas adequadas.

    O ponto principal foi que a IA já está sendo usada para muito mais do que escrita acadêmica. Ela aparece em aconselhamento, companhia, geração de imagens, robótica, medicina, guerra, programação e diversas outras áreas.

    Por isso, o curso delimitou seu escopo: o foco aqui é a IA como auxiliar de pesquisa, reflexão, leitura, escrita e organização do conhecimento, sem perder de vista que esse universo é muito mais amplo e exige atenção ética.

    19. Encaminhamento para a próxima aula

    A aula terminou com uma proposta prática: os participantes deveriam experimentar os recursos discutidos ao longo do fim de semana. A ideia era que cada um trouxesse, na aula seguinte, experiências concretas de uso da IA em seus próprios projetos de pesquisa.

    O objetivo da próxima etapa seria olhar para aplicações reais: como cada participante está usando ou pode usar IA em seu cotidiano acadêmico, que dificuldades aparecem, que soluções são possíveis e que caminhos metodológicos podem ser construídos coletivamente.

    Síntese final

    A segunda aula consolidou a passagem da discussão geral sobre IA para uma metodologia de uso acadêmico mais precisa. O eixo principal foi a ideia de que pesquisar com IA exige construir contexto, calibrar modelos, revisar respostas, cuidar da atenção e transformar a IA em parceira de leitura e reflexão.

    A noção mais forte da aula foi a de metarreflexão: usar modelos customizados, projetos e bases documentais para conversar com autores, livros, artigos e conceitos. Nesse sentido, a IA não aparece como substituta da pesquisa, mas como uma nova camada de mediação intelectual — um índice remissivo recursivo, capaz de ampliar formas de leitura, comparação, tradução, organização e problematização.

    Abaixo estão os slides gerados com o GPT. Ainda não fiz uma revisão final do material, então podem conter ajustes a serem feitos. Estou compartilhando aqui apenas como complemento à aula e apoio para o acompanhamento dos conteúdos.

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  • Pesquisar com IA é construir contexto

    Pesquisar com IA é construir contexto


    Curso: Coescrita e Pesquisa Acadêmica com IA
    Aula 1 —
    28/04/2026

    Este resumo foi elaborado a partir da transcrição da primeira aula do curso, realizada em formato síncrono, com apresentação dos participantes, contextualização conceitual e demonstrações práticas de uso da IA em processos de pesquisa acadêmica.

    Coescrito com IA por Andre Stangl.


    1. Abertura da aula e organização inicial

    A aula começou com uma breve ambientação técnica. Foi explicado que o encontro estava sendo realizado pela plataforma Sympla, com sala do Zoom integrada, e que a gravação seria disponibilizada posteriormente aos participantes. Também foi reforçada a importância do grupo de WhatsApp como espaço de apoio, comunicação rápida e acompanhamento do curso.

    Desde o início, ficou claro que a proposta do curso não seria apenas expositiva. A intenção era criar um espaço de troca, experimentação e reflexão coletiva. A turma, com cerca de 21 inscritos, foi apresentada como um grupo diverso, composto por professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação, profissionais da saúde, da educação, da comunicação, da nutrição, da psicanálise, da edição de livros e de áreas ligadas à cultura digital.

    A apresentação dos participantes foi importante para mapear expectativas. Entre os interesses mencionados apareceram:

    • uso da IA na orientação de mestrado e doutorado;
    • apoio à pesquisa qualitativa e quantitativa;
    • escrita acadêmica;
    • revisão de textos;
    • leitura de artigos em inglês;
    • jornalismo investigativo;
    • saúde digital;
    • educação e letramento em IA;
    • uso crítico, ético e autoral da IA;
    • preocupação com confiabilidade, limites e normatização.

    Esse momento ajudou a configurar o curso como um espaço interdisciplinar, não centrado apenas em aspectos técnicos, mas também em implicações epistemológicas, pedagógicas e institucionais do uso da inteligência artificial na pesquisa.


    2. O primeiro deslocamento conceitual: IA não é apenas “ferramenta”

    Um dos primeiros pontos conceituais da aula foi a problematização da expressão “usar IA”. A ideia central apresentada foi que essa formulação pode ser limitada, porque pressupõe uma relação instrumental simples: o usuário dá um comando e a máquina executa uma tarefa.

    A aula propôs deslocar essa visão mecanicista para uma compreensão mais recursiva e dialógica da relação com os modelos de linguagem. Em vez de pensar a IA apenas como uma ferramenta externa, é mais produtivo entendê-la como parte de uma nova ecologia cognitiva.

    A comparação com outras tecnologias de organização da informação foi central. A escrita, por exemplo, também é uma tecnologia. No entanto, ela foi tão profundamente incorporada às práticas de conhecimento que deixou de ser percebida como algo externo. Ninguém, ao escrever um artigo ou organizar uma pesquisa, pensa explicitamente: “agora vou usar a tecnologia da escrita”. A escrita já faz parte do próprio modo como entendemos a produção acadêmica.

    O mesmo raciocínio foi estendido à oralidade. Embora possa parecer estranho chamar a fala de tecnologia, ela também organiza memória, conhecimento, transmissão cultural e formas de pensamento. Essa observação permitiu ampliar o debate para além da tradição ocidental escrita, reconhecendo a importância de formas orais de produção e circulação do conhecimento, especialmente em povos tradicionais e comunidades indígenas.

    A partir disso, a IA foi situada numa longa história das tecnologias cognitivas: oralidade, escrita, imprensa, tecnologias eletrônicas, tecnologias digitais e, agora, modelos generativos. A IA não surgiu do nada, nem pertence exclusivamente às big techs. Ela é resultado de décadas de pesquisa em cibernética, computação, linguagem, estatística, matemática e inteligência artificial, envolvendo universidades, pesquisadores e centros de pesquisa desde meados do século XX.


    3. IA como mudança na ecologia cognitiva

    A aula propôs compreender a inteligência artificial generativa como uma transformação comparável, em certa medida, à escrita ou à imprensa. Essa comparação não significa dizer que todas essas tecnologias são iguais, mas reconhecer que elas reorganizam as condições de produção, circulação e validação do conhecimento.

    No caso da IA, a mudança aparece especialmente na escrita, na leitura, na busca, na organização de informações e na relação com conceitos. O professor apresentou sua experiência pessoal com a IA desde dezembro de 2022, destacando que a prática cotidiana de escrita e pesquisa foi profundamente modificada.

    Nesse ponto, apareceu a noção de coescrita: a IA não substitui simplesmente o pesquisador, mas participa de um processo de formulação, reformulação, revisão e organização das ideias. Essa participação pode ser produtiva, mas também exige critério, supervisão e consciência dos riscos.

    A aula também destacou que os modelos estão mudando rapidamente. O que hoje parece uma funcionalidade avançada pode se tornar comum em poucos meses. Por isso, o curso foi apresentado como uma experiência situada em um campo instável, em permanente transformação.


    4. Pesquisa com IA como construção de contexto

    O eixo central da aula foi a ideia de que pesquisar com IA é construir contexto.

    O modelo não responde apenas à pergunta isolada. A qualidade da resposta depende do contexto que o usuário fornece: textos, artigos, livros, objetivos, critérios, perguntas, exemplos, referências, estilo desejado e sucessivas correções.

    A aula apresentou essa ideia como uma possível pedagogia do contexto. Esse conceito surgiu na própria interação com o modelo, a partir do material preparado para a aula. O ponto foi usado como exemplo de como a IA pode devolver ao pesquisador uma formulação nova, uma síntese ou uma expressão conceitual que não estava previamente nomeada, mas estava implícita no processo.

    A partir disso, foi feita uma distinção importante:

    • pesquisar com IA não é apenas buscar respostas;
    • pesquisar com IA é estabilizar contextos progressivamente;
    • o contexto não é dado de uma vez;
    • ele é construído, negociado, corrigido e refinado.

    Essa noção é decisiva para diferenciar o uso acadêmico da IA de um uso mais superficial, semelhante ao uso de um buscador. Muitas pessoas ainda interagem com o ChatGPT ou outros modelos como se estivessem diante de um “Google melhorado”. Mas a proposta da aula foi mostrar que os modelos de linguagem podem operar de forma mais rica quando são tratados como ambientes de construção progressiva de sentido.


    5. Prompt: menos fórmula mágica, mais início de conversa

    Outro ponto importante foi a relativização da “engenharia de prompt” como algo excessivamente técnico ou misterioso. A aula reconheceu que bons prompts ajudam, mas criticou a ideia de que seria necessário dominar fórmulas complexas para começar a usar IA em pesquisa.

    O prompt foi apresentado como uma pergunta inicial, um gesto de abertura do contexto. Ele pode ser simples. O mais importante é compreender que a interação não termina na primeira resposta. O pesquisador pode pedir esclarecimentos, corrigir, aprofundar, solicitar reformulações, pedir que o próprio modelo melhore a pergunta ou ajude a estruturar a investigação.

    Assim, o prompt não é uma chave mágica. Ele é o início de uma conversa orientada.

    O professor mostrou que costuma começar uma interação de várias formas:

    • colando uma reportagem;
    • subindo um artigo em PDF;
    • apresentando uma questão de pesquisa;
    • pedindo uma estrutura inicial;
    • solicitando resumo, análise ou comparação;
    • pedindo ao modelo que ajude a organizar um caminho de investigação.

    O valor não está apenas no comando inicial, mas na sequência de interações que vai refinando o campo de trabalho.


    6. Projetos, pastas e contextos persistentes

    A aula apresentou a função de Projetos no ChatGPT como uma segunda camada importante da construção de contexto. A ideia foi explicar que uma conversa isolada tem limites. Com o tempo, uma conversa longa pode ficar confusa, pesada ou menos precisa, porque há limites de contexto e de processamento.

    Os projetos funcionam como “pastas de contexto”. Eles permitem organizar materiais, conversas e arquivos relacionados a um mesmo tema, autor, curso, pesquisa ou livro.

    Foi dado o exemplo de um projeto dedicado à releitura de Umberto Eco, especialmente o livro Como se faz uma tese. Nesse caso, o professor mostrou como é possível subir o PDF de um livro, pedir uma estrutura detalhada da obra e depois abrir conversas específicas para cada capítulo ou seção.

    Essa prática foi apresentada como uma forma de coleitura ou de fichamento ampliado. A IA não substitui a leitura do livro, mas pode ajudar a:

    • mapear a estrutura geral da obra;
    • identificar capítulos relevantes;
    • produzir uma primeira aproximação;
    • organizar fichamentos;
    • formular perguntas;
    • comparar trechos;
    • apoiar a decisão sobre quais partes merecem leitura mais detida.

    Também foi feita uma observação técnica importante: a qualidade do PDF importa. Arquivos compostos apenas por imagens, sem texto selecionável, dificultam o trabalho do modelo. Nesses casos, pode ser necessário OCR, e a chance de erro aumenta. Para a IA trabalhar melhor, o ideal é usar PDFs com texto reconhecível e selecionável.


    7. A conta como infraestrutura cognitiva

    A aula também discutiu a diferença entre usar versões gratuitas e pagas dos modelos. O professor explicou que seus experimentos estão concentrados principalmente na versão paga do ChatGPT, porque ela oferece mais continuidade, mais recursos e menos interrupções.

    Mas o ponto principal não foi fazer propaganda de uma ferramenta específica. A questão foi mostrar que a conta, o histórico, os projetos e a memória formam uma espécie de infraestrutura cognitiva. Quanto mais o pesquisador interage com o modelo, mais o modelo aprende sobre seu estilo, seus temas, suas preferências e suas demandas recorrentes.

    Isso levou a uma ideia importante: o usuário também “educa” o modelo, ao mesmo tempo em que aprende a interagir melhor com ele. A relação é recursiva. O modelo vai se ajustando ao usuário, e o usuário vai aprendendo como orientar, corrigir e explorar o modelo.

    Essa personalização pode ser útil, mas também pode gerar problemas. O modelo pode, por exemplo, insistir em relacionar qualquer tema aos autores que o usuário costuma pesquisar. No caso do professor, foram mencionados autores como Yuk Hui, Bruno Latour, McLuhan e Flusser. Isso pode ser produtivo em alguns contextos, mas inadequado em outros.


    8. Memória, personalização e estilo

    Na parte prática, foi demonstrada a área de configurações do ChatGPT, especialmente os recursos de personalização e memória. A aula mostrou que é possível ajustar o tom do modelo, definindo se ele deve ser mais profissional, amigável, direto, eficiente, criativo ou informal.

    Também foi demonstrado como uma memória pode ser salva e apagada. O exemplo usado foi simples: o professor escreveu “sou baiano, memorize isso”, mostrou que a memória foi registrada e depois explicou que ela poderia ser excluída.

    A memória foi apresentada como um dos elementos mais importantes da relação com a IA, porque ela cria continuidade entre interações. Mas essa continuidade exige cuidado. O usuário precisa saber que certas informações podem ser armazenadas, revisadas ou apagadas.

    A discussão sobre estilo também apareceu a partir de uma pergunta de participante. Foi perguntado como manter o estilo pessoal em textos gerados ou revisados com IA. A resposta indicou que é possível pedir explicitamente ao modelo para preservar o estilo, manter expressões, conservar a estrutura argumentativa e apenas melhorar clareza, coesão ou fluidez.

    Ao mesmo tempo, o professor explicou que, em seus textos jornalísticos e de divulgação científica, muitas vezes deseja justamente uma linguagem mais acessível, menos acadêmica e menos hermética. Nesse caso, a IA ajuda a traduzir debates complexos para um público mais amplo.


    9. Oralidade, transcrição e nova escrita

    Um tema importante da aula foi a relação entre IA, oralidade e escrita. O professor explicou que tem usado gravações, transcrições e modelos de linguagem para transformar falas, aulas e encontros em resumos expandidos, textos reflexivos ou materiais de apoio.

    Esse procedimento foi apresentado como uma mudança importante na prática de escrita. Em vez de começar sempre diante da página em branco, o pesquisador pode falar, gravar, transcrever e depois trabalhar o texto com a IA.

    Isso permite reaproveitar a experiência oral como matéria-prima da escrita. A aula sugeriu que essa mudança pode reativar dimensões da cognição ligadas à fala, à improvisação, à conversa e à elaboração progressiva das ideias.

    Essa discussão dialogou com a crítica à centralidade exclusiva da escrita acadêmica tradicional e abriu espaço para pensar outras formas de produção do conhecimento.


    10. Modelos diferentes, usos diferentes

    Embora o foco da aula tenha sido o ChatGPT, também foram mencionados outros modelos e plataformas, como Gemini, Claude, DeepSeek e NotebookLM.

    A ideia apresentada foi que não existe uma única ferramenta definitiva. Cada modelo pode ter pontos fortes diferentes:

    • ChatGPT: muito usado pelo professor para coescrita, organização textual e construção de contexto;
    • Gemini/NotebookLM: mais voltado a experiências multimodais, como áudio, imagem, vídeo, podcast e organização de fontes;
    • Claude: citado como modelo com boa qualidade textual em certos contextos;
    • DeepSeek: mencionado como útil em alguns temas ligados à China ou a bases de dados chinesas.

    Também foi comentada a possibilidade de usar um modelo para melhorar o prompt a ser usado em outro. Essa prática mostra que a pesquisa com IA pode envolver uma ecologia de modelos, e não apenas uma plataforma isolada.


    11. Ética, transparência e normatização acadêmica

    Uma parte significativa da aula foi dedicada à questão ética e normativa. Foi discutido que o ambiente acadêmico ainda está tentando entender como lidar com o uso de IA.

    A aula mencionou a recente política de integridade científica do CNPq como um sinal de que o debate está avançando, mas ainda há muitas incertezas. Uma das questões levantadas foi a dificuldade de relatar detalhadamente todo o processo de uso da IA. Em trabalhos complexos, uma coluna, artigo ou parecer pode envolver dezenas de interações, versões e reformulações. Relatar todos os prompts seria, em alguns casos, quase produzir outro documento.

    Por isso, foi sugerido que a transparência talvez precise ser pensada em níveis. Em alguns casos, basta declarar que a IA foi usada para revisão, tradução, organização bibliográfica ou apoio à estruturação. Em outros, quando a IA participa mais diretamente da formulação de conceitos ou argumentos, a situação se torna mais complexa.

    O professor também comentou sua própria experiência com textos coescritos, colunas jornalísticas e artigos acadêmicos. Foi destacada a diferença entre assumir publicamente o uso da IA e ocultar essa participação. No jornalismo, por exemplo, esse tema tem gerado reações fortes de leitores e profissionais.


    12. IA, pareceres e crise do sistema acadêmico

    A discussão ética se aprofundou quando surgiu o tema dos pareceres acadêmicos. Um participante relatou que alguns periódicos internacionais já perguntam aos pareceristas se usaram modelos de IA em suas avaliações. Outro mencionou que periódicos como Cadernos de Saúde Pública orientam explicitamente que artigos submetidos para parecer não sejam colocados em modelos de linguagem.

    A aula reconheceu a importância dessa preocupação, especialmente quando se trata de material inédito, sigiloso ou sensível. Ao mesmo tempo, foi feita uma crítica à ideia de proibição absoluta, pois a IA pode ser uma auxiliar poderosa na leitura, análise e elaboração de pareceres.

    A posição apresentada foi pragmática: quando solicitado a fazer pareceres, o professor informa que usa IA como apoio. Se a revista ou organização não aceitar, pode buscar outro parecerista. A IA não substitui a leitura humana, mas pode ajudar a organizar critérios, comparar argumentos, verificar coerência e produzir uma avaliação mais estruturada.

    Esse ponto levou a uma reflexão mais ampla: o sistema de periódicos acadêmicos já está em crise, pressionado pelo produtivismo, pelo excesso de submissões e pela dificuldade de conseguir pareceristas. A IA tende a intensificar essa crise, mas também pode revelar problemas que já existiam.


    13. Dados, segurança e privacidade

    A aula também abordou a questão dos dados. Foi feita uma distinção entre usos mais abertos e usos envolvendo informações sensíveis.

    O professor explicou que, em sua própria prática, a maior parte das interações com IA envolve temas que poderiam estar publicamente disponíveis: debates acadêmicos, textos, conceitos, colunas, pesquisas e experimentos. No entanto, quando se trata de dados de saúde, informações pessoais, patentes, documentos sigilosos ou avaliações inéditas, o cuidado precisa ser muito maior.

    Foi mencionado que empresas oferecem planos com maior controle de dados, especialmente para usos corporativos ou áreas sensíveis. Também foi discutido que modelos locais, rodando no próprio computador, podem se tornar uma alternativa importante no futuro, ainda que hoje tenham limitações em relação aos modelos de fronteira.

    Nesse ponto, a aula apontou para um horizonte possível: cada pesquisador ou grupo de pesquisa poderá, no futuro, ter seus próprios modelos locais, treinados ou alimentados com bases específicas, sem depender integralmente de grandes plataformas em nuvem.


    14. Encaminhamento final da aula

    Ao final, a aula retomou o caráter experimental do curso. A primeira aula funcionou como uma introdução conceitual e prática, preparando o terreno para os próximos encontros.

    Os principais aprendizados foram:

    1. A IA não deve ser compreendida apenas como ferramenta mecânica.
    2. A pesquisa com IA depende da construção progressiva de contexto.
    3. O prompt é apenas o início de uma interação, não uma fórmula definitiva.
    4. Projetos, arquivos e memória permitem criar contextos mais persistentes.
    5. A coescrita com IA exige revisão, critério e responsabilidade autoral.
    6. A transparência sobre o uso da IA ainda está em processo de normatização.
    7. A IA transforma não apenas a escrita, mas também a leitura, a oralidade, os pareceres e a organização da pesquisa.
    8. O campo está mudando rapidamente, exigindo acompanhamento contínuo e reflexão crítica.

    A aula terminou com o compromisso de disponibilizar a gravação e os materiais de apoio, além de continuar a conversa no grupo de WhatsApp. O próximo encontro foi anunciado como continuidade da jornada, com aprofundamento das práticas de pesquisa, coescrita e meta-reflexão com IA.

    Abaixo estão os slides gerados com o GPT. Ainda não fiz uma revisão final do material, então podem conter ajustes a serem feitos. Estou compartilhando aqui apenas como complemento à aula e apoio para o acompanhamento dos conteúdos.

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  • O ecossistema cibernético

    O ecossistema cibernético

    Resumo detalhado do quarto encontro

    Curso de Coescrita com Inteligência Artificial – Turma 5
    Data: 06/03/2026

    Introdução do encontro

    O último encontro do curso teve um caráter mais reflexivo e experimental, combinando quatro momentos principais:

    1. uma conversa aberta sobre as experiências dos participantes com inteligência artificial ao longo do curso;
    2. debate sobre o percurso conceitual, retomando algumas das transformações culturais associadas às tecnologias digitais e à inteligência artificial.
    3. a exibição e discussão de um curta-metragem experimental do cineasta chinês Jia Zhangke;
    4. uma atividade prática de conversa coletiva mediada por IA, realizada dentro do próprio ambiente do ChatGPT.

    Andre inicia a aula explicando a dinâmica do encontro. A ideia era primeiro ouvir os colegas sobre as experiências que tiveram durante o curso, depois apresentar um vídeo recente que dialogava diretamente com o tema da autoria na era da inteligência artificial, e finalmente realizar um experimento prático envolvendo interação coletiva com um sistema de IA.


    1. Debate inicial: autoria, ética e crise da escrita

    A primeira parte do encontro foi marcada por uma conversa aberta entre os participantes, que compartilharam dúvidas, inquietações e experiências práticas com o uso da IA.

    Uma das participantes relatou um dilema vivido recentemente em seu trabalho. Ela escreve profissionalmente e havia utilizado o ChatGPT para reescrever algumas frases de um texto que estava produzindo. O sistema sugeriu reformulações que ela considerou boas, mas, ao utilizar essas ideias, surgiu uma dúvida ética:

    utilizar a IA dessa maneira seria uma forma de fraude?

    A pergunta revelou uma tensão comum entre profissionais da escrita no momento atual: a sensação de que o uso da IA pode colocar em questão a própria identidade do autor.

    Andre responde a essa inquietação situando o problema dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, a questão central não é necessariamente o uso da IA em si, mas a relação de transparência com o leitor, o contratante ou o contexto em que o texto será publicado.

    Ele menciona também um episódio recente envolvendo uma colunista da Folha de S.Paulo, no qual o uso de IA na produção de textos gerou forte reação pública quando foi descoberto que a autora utilizava o recurso sem informar explicitamente aos leitores. O caso ilustra como a discussão sobre IA ainda está em processo de formação e envolve expectativas culturais sobre autoria e autenticidade.

    Outro participante reforça que muitos profissionais estão vivendo algo semelhante: uma espécie de crise de identidade da escrita, na qual as fronteiras entre autoria humana e colaboração com sistemas técnicos ainda estão sendo negociadas.


    2. IA, empatia e comunicação médica

    Durante a conversa, Andre menciona também um exemplo discutido na imprensa internacional sobre o impacto da inteligência artificial na comunicação médica.

    Ele cita um ensaio publicado em 5 de outubro de 2024 no The New York Times, escrito pelo médico de emergência Jonathan Reisman, intitulado “Eu sou médico. O comportamento humano do ChatGPT é melhor que o meu.”

    No texto, o autor relata que, durante muito tempo, acreditou que a inteligência artificial poderia eventualmente superar os médicos nos aspectos técnicos da medicina — como diagnóstico ou análise de exames —, mas que o lado humano da profissão, especialmente a empatia e a comunicação com pacientes, permaneceria exclusivamente humano.

    No entanto, com o surgimento de modelos de linguagem como o ChatGPT, ele passou a reconsiderar essa ideia.

    O médico menciona estudos em que respostas do ChatGPT a perguntas de pacientes foram avaliadas como mais empáticas e de maior qualidade do que respostas escritas por médicos. A razão para isso, segundo ele, está no fato de que a comunicação empática na medicina muitas vezes segue estruturas relativamente padronizadas.

    Durante sua formação, por exemplo, ele participou de treinamentos específicos sobre como comunicar más notícias a pacientes, como o diagnóstico de câncer. Nesse tipo de situação, os estudantes aprendem uma espécie de roteiro: evitar termos excessivamente técnicos, dizer claramente a palavra “câncer”, fazer pausas para permitir que o paciente processe a informação e formular frases que expressem cuidado, como “eu gostaria de ter notícias melhores”.

    Inicialmente, o autor estranhou a ideia de que empatia pudesse ser ensinada como um conjunto de passos quase coreografados. No entanto, com a experiência prática, percebeu que esses roteiros ajudam a tornar situações extremamente difíceis mais humanas e mais compreensíveis para os pacientes.

    Esse exemplo é usado na aula para mostrar que muitos aspectos da comunicação humana envolvem padrões linguísticos aprendidos socialmente. Modelos de linguagem conseguem reproduzir esses padrões com grande eficiência, o que explica por que, em certos contextos, suas respostas podem parecer particularmente cuidadosas ou empáticas.

    Ao mesmo tempo, o exemplo reforça um ponto importante discutido no curso: embora a IA possa reproduzir formas linguísticas de empatia, isso não significa que ela possua sentimentos ou experiência subjetiva. O que ela produz são estruturas de linguagem que simulam padrões humanos de comunicação, aprendidos a partir de grandes volumes de texto.

    Assim, a inteligência artificial pode funcionar como apoio à comunicação, inclusive em contextos delicados, mas continua sendo um sistema técnico que opera a partir de padrões estatísticos da linguagem.


    3. Desigualdade de acesso às tecnologias

    Outro tema importante levantado pelos participantes foi a questão da desigualdade no acesso às tecnologias de IA.

    Um dos alunos observa que, ao longo do curso, ficou claro que as versões pagas dos sistemas de IA oferecem recursos significativamente mais avançados do que as versões gratuitas. Isso levanta uma preocupação:

    se o acesso às ferramentas mais sofisticadas depender de pagamento, a inteligência artificial poderá ampliar desigualdades sociais e cognitivas já existentes.

    A discussão destaca que a revolução da IA não é apenas tecnológica, mas também econômica e social, pois o acesso às ferramentas influencia diretamente as possibilidades de uso e experimentação.

    Dados complementares

    O Brasil alcançou uma quase universalização técnica do acesso digital, mas não necessariamente das competências de leitura e interpretação necessárias para navegar nesse ambiente. Em 2024, 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram a internet, e 98,8% desses usuários acessam por celular. Ao mesmo tempo, o analfabetismo ainda atinge 5,3% da população de 15 anos ou mais, e o analfabetismo funcional chega a cerca de 29% entre 15 e 64 anos. Ou seja: a conexão se espalhou mais rápido que a capacidade plena de leitura e compreensão.

    Esse descompasso fica ainda mais visível quando observamos a velocidade de difusão das novas tecnologias digitais. O ChatGPT atingiu cerca de 1 milhão de usuários em apenas 5 dias após o lançamento e chegou a 100 milhões de usuários em cerca de dois meses, tornando-se um dos serviços digitais com crescimento mais rápido da história. Para comparação, o Instagram levou cerca de dois anos e meio para alcançar 100 milhões de usuários, e o Facebook levou mais de quatro anos.

    Isso mostra que vivemos uma aceleração radical na circulação de tecnologias cognitivas. Em poucas semanas, ferramentas capazes de produzir textos, códigos e imagens chegam a dezenas ou centenas de milhões de pessoas. No entanto, as habilidades necessárias para interpretar criticamente informação, avaliar respostas ou usar essas ferramentas de forma reflexiva dependem de processos educacionais muito mais lentos.

    Assim, convivem duas temporalidades distintas: a velocidade exponencial da difusão tecnológica e a lentidão estrutural da formação educacional. O resultado é uma sociedade em que quase todos estão conectados, muitos têm acesso a ferramentas de inteligência artificial, mas uma parcela significativa ainda enfrenta dificuldades básicas de leitura e interpretação — justamente as competências que mais influenciam o uso crítico dessas tecnologias.

    Aqui estão as principais fontes confiáveis para cada dado citado:


    Acesso à internet no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua TIC

    • 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram internet em 2024.
    • 98,8% dos usuários acessaram via telefone celular.

    Fonte:
    IBGE. PNAD Contínua: Tecnologia da Informação e Comunicação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44033-pela-primeira-vez-mais-da-metade-da-populacao-acessa-a-internet-pela-tv


    Analfabetismo no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua Educação

    • 5,3% da população de 15 anos ou mais é analfabeta.
    • Cerca de 9,1 milhões de pessoas.

    Fonte:
    IBGE. Indicadores de Educação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta


    Analfabetismo funcional

    INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional

    • 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional.

    Fonte:
    INAF 2024 – Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa.
    https://alfabetismofuncional.org.br/relatorios

    Relatório:
    https://alfabetismofuncional.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Relatorio_Inaf_2024.pdf


    Crescimento do ChatGPT

    • 1 milhão de usuários em 5 dias.
    • 100 milhões de usuários em cerca de 2 meses.

    Fontes:

    Reuters
    https://www.reuters.com/technology/chatgpt-sets-record-fastest-growing-user-base-analyst-note-2023-02-01/

    UBS Evidence Lab report (2023)

    Also reported by:
    Nature
    https://www.nature.com/articles/d41586-023-00288-7


    Comparação com outras plataformas

    Estudos sobre crescimento de plataformas digitais:

    Statista
    https://www.statista.com/chart/27784/time-to-reach-100-million-users/

    Exemplos:

    • ChatGPT — ~2 meses
    • TikTok — ~9 meses
    • Instagram — ~2,5 anos
    • Facebook — ~4,5 anos

    O Overmundo e as transformações da cultura digital

    Na aula comentamos um pouco sobre o Overmundo, um dos projetos mais interessantes da cultura digital brasileira dos anos 2000. Lançado em 2006, o site foi criado como uma plataforma colaborativa para divulgar a diversidade cultural do Brasil. Qualquer pessoa podia publicar textos, relatos, músicas, vídeos ou registros de eventos culturais de sua cidade. Outros usuários comentavam, editavam e votavam nos conteúdos. A ideia era criar um grande mapa coletivo da cultura brasileira, especialmente da produção que não aparecia na grande mídia.

    Naquele momento da internet, o modelo fazia muito sentido. A participação online ainda era muito marcada pela escrita: blogs, fóruns e portais colaborativos. O Overmundo funcionava como uma espécie de grande blog coletivo nacional.

    Na época, participei do projeto como overmano na Bahia, ajudando a acompanhar e estimular as contribuições da comunidade local. Foi uma experiência interessante de cultura digital colaborativa, em que pessoas de diferentes regiões do país compartilhavam suas cenas culturais, festas, artistas e iniciativas.

    Com o tempo, porém, o ecossistema da internet mudou bastante. A circulação cultural passou a acontecer principalmente por vídeos, redes sociais e podcasts. Formatos mais rápidos e audiovisuais ganharam espaço, enquanto a produção de textos mais longos foi perdendo centralidade. Talvez por isso projetos baseados na escrita colaborativa, como o Overmundo, tenham perdido espaço diante das novas plataformas.

    Mesmo assim, o Overmundo permanece como um marco importante da cultura digital brasileira, porque antecipou muitas ideias que hoje são comuns na internet: participação coletiva, circulação descentralizada de informação e valorização das culturas locais.

    Mais informações: https://pt.wikipedia.org/wiki/Overmundo 

    IA, oralidade e transformações culturais da escrita

    Outro ponto discutido no encontro foi a possibilidade de que a inteligência artificial esteja provocando uma mudança mais profunda na história das formas de comunicação: um retorno parcial da oralidade mediada por tecnologia.

    Durante vários séculos, a escrita ocupou uma posição central na organização do conhecimento, especialmente nas sociedades ocidentais. A escrita permitiu registrar informações, construir arquivos, desenvolver sistemas jurídicos e organizar instituições complexas. Ao mesmo tempo, ela também funcionou como uma barreira cultural e social, porque exige alfabetização, treinamento e domínio de códigos formais relativamente rígidos.

    Historicamente, a cultura escrita esteve fortemente associada às instituições do mundo europeu moderno: universidades, burocracias estatais, ciência moderna e sistemas administrativos. Em muitos contextos, participar plenamente da vida intelectual e institucional exigia dominar formas específicas de escrita — relatórios, artigos acadêmicos, textos técnicos — que nem sempre eram acessíveis a todos.

    A inteligência artificial pode alterar parcialmente esse cenário.

    Modelos de linguagem permitem interagir com sistemas complexos de informação por meio de linguagem natural, aproximando a comunicação digital de formas mais próximas da conversa. Em vez de escrever textos longos ou dominar formatos rígidos, muitas tarefas podem ser realizadas por meio de perguntas, diálogos ou comandos relativamente simples.

    Além disso, novas interfaces baseadas em voz — como sistemas de reconhecimento e síntese de fala — estão aproximando ainda mais essas tecnologias de formas orais de interação. Nesse sentido, a IA pode ser vista como parte de um movimento que reaproxima certas dimensões da comunicação digital da oralidade.

    Esse fenômeno tem implicações culturais mais amplas.

    Durante muito tempo, a centralidade da escrita reforçou padrões culturais associados ao eurocentrismo, já que as formas dominantes de produção e validação do conhecimento foram historicamente definidas a partir de instituições e tradições intelectuais europeias. A necessidade de dominar determinados estilos de escrita acadêmica ou burocrática funcionava como um filtro de participação.

    Quando a interação com sistemas de informação passa a ocorrer de forma mais conversacional, parte dessas barreiras pode se reduzir. Pessoas com diferentes níveis de formação escrita podem acessar informações, produzir textos ou participar de processos de criação intelectual por meio de interfaces mais próximas da fala e do diálogo.

    Isso não significa o desaparecimento da escrita — que continua sendo fundamental para a organização do conhecimento —, mas pode indicar uma transformação no equilíbrio entre diferentes formas de comunicação.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode contribuir para um ambiente cultural mais plural, no qual diferentes modos de expressão — escritos, orais e híbridos — coexistem e participam da produção de conhecimento.

    Essa transformação também dialoga com discussões contemporâneas sobre tecnodiversidade, nas quais diferentes culturas e tradições podem desenvolver modos próprios de interação com as tecnologias digitais, em vez de reproduzir apenas modelos estabelecidos em contextos históricos específicos.

    Infraestrutura tecnológica, poder e o desenvolvimento da IA

    No debate final do curso também aparece uma questão mais ampla sobre quem desenvolve as tecnologias que estamos utilizando.

    Andre observa que muitas das tecnologias digitais que estruturam a vida contemporânea tiveram origem em programas militares ou estatais de pesquisa. A internet, por exemplo, surgiu a partir de um projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos nos anos 1960. O GPS foi inicialmente desenvolvido para fins militares. Sensores digitais usados em câmeras e satélites também nasceram em contextos ligados à defesa e à vigilância.

    Esse padrão histórico revela um movimento recorrente: tecnologias criadas em ambientes de pesquisa estratégica acabam, com o tempo, sendo incorporadas ao cotidiano civil.

    Hoje, no entanto, parte desse processo ocorre de maneira diferente. Muitas das infraestruturas digitais utilizadas diariamente — sistemas de nuvem, plataformas de software e ferramentas de inteligência artificial — são desenvolvidas por grandes empresas privadas que também mantêm contratos com governos e setores militares.

    Esse cenário levanta novas questões. Quando usuários criticam ou tentam boicotar determinadas plataformas, muitas vezes o foco recai sobre aplicativos visíveis, como redes sociais ou assistentes de IA. No entanto, grande parte da infraestrutura digital — servidores, sistemas de armazenamento e redes de processamento — permanece invisível para o usuário comum.

    Sociólogos da tecnologia descrevem esse fenômeno como invisibilidade da infraestrutura: quando uma tecnologia se torna base de funcionamento de um sistema, ela deixa de ser percebida como uma escolha individual e passa a constituir simplesmente o ambiente no qual outras atividades ocorrem.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode estar entrando em um processo semelhante. Embora hoje ainda apareça principalmente como ferramenta ou aplicativo, ela está sendo progressivamente integrada a mecanismos de busca, softwares de trabalho, sistemas educacionais e plataformas digitais.

    Outra possibilidade discutida é que, se empresas privadas começarem a impor limites ao uso militar de seus sistemas, governos podem optar por desenvolver suas próprias inteligências artificiais, dentro de programas estatais ou militares de pesquisa. Historicamente, isso já ocorreu com várias tecnologias estratégicas.

    Essa discussão conecta-se também com temas abordados ao longo do curso, como tecnodiversidade e autonomia tecnológica. Se diferentes países ou instituições passam a desenvolver seus próprios sistemas de inteligência artificial, surgem perguntas importantes sobre valores, interesses e modelos culturais incorporados nessas tecnologias.

    Assim, a questão não é apenas quem utiliza a inteligência artificial, mas também quem a desenvolve, em que contextos institucionais e com quais objetivos.

    Modelos globais de desenvolvimento da inteligência artificial

    Outra discussão relacionada ao tema da infraestrutura tecnológica envolve as diferenças entre os ecossistemas de IA em diferentes regiões do mundo, especialmente entre Estados Unidos e China.

    Andre menciona que o acesso às plataformas de inteligência artificial não é uniforme globalmente. Na China, por exemplo, muitas ferramentas ocidentais — como o ChatGPT ou sistemas de empresas norte-americanas — são geralmente bloqueadas ou de difícil acesso. Como resultado, a maior parte dos usuários utiliza modelos desenvolvidos por empresas chinesas.

    Entre os sistemas mais conhecidos estão:

    • ERNIE Bot, da Baidu
    • Qwen, da Alibaba
    • DeepSeek
    • além de projetos de empresas como Tencent e ByteDance.

    Pesquisadores e alguns usuários especializados conseguem acessar sistemas estrangeiros utilizando VPN, mas isso não representa o padrão da maioria dos usuários.

    Outro aspecto relevante é o modelo econômico dessas plataformas.

    Em muitos casos, o uso básico das IAs na China tende a ser gratuito para usuários comuns, enquanto empresas pagam principalmente pelo uso de APIs ou pela integração dos modelos em serviços comerciais.

    Um exemplo que ganhou destaque internacional é o sistema DeepSeek, que se tornou conhecido por oferecer modelos de linguagem com custos muito baixos, especialmente para desenvolvedores e empresas.

    Esse modelo se sustenta por diferentes estratégias:

    • integração da IA em grandes plataformas digitais (busca, comércio eletrônico, redes sociais);
    • venda de serviços de IA para empresas;
    • infraestrutura computacional otimizada;
    • e, em alguns casos, apoio indireto do Estado como parte de estratégias nacionais de desenvolvimento tecnológico.

    Essa diferença ajuda a entender um contraste interessante entre os dois ecossistemas tecnológicos.

    Nos Estados Unidos e em parte do Ocidente, muitos sistemas de IA dependem de modelos de assinatura e monetização direta. Já na China, a tendência tem sido integrar os sistemas de inteligência artificial diretamente em aplicativos e plataformas digitais amplamente utilizados, buscando adoção massiva da tecnologia.

    Para a discussão do curso, essa comparação ajuda a reforçar uma ideia importante: a inteligência artificial não é apenas um fenômeno técnico, mas também econômico, político e cultural. Diferentes sociedades podem desenvolver modelos distintos de tecnologia, com implicações variadas para acesso, custo e formas de uso.

    Esse cenário também dialoga com a discussão sobre tecnodiversidade, apresentada em encontros anteriores, sugerindo que o desenvolvimento da inteligência artificial pode seguir caminhos múltiplos, dependendo das condições culturais, econômicas e institucionais de cada região do mundo.


    4. Exibição do curta sobre IA e autoria

    Após a conversa inicial, Andre apresenta um vídeo recente envolvendo o cineasta chinês Jia Zhangke.

    O curta-metragem funciona como um experimento artístico no qual o diretor dialoga com uma versão digital de si mesmo criada por inteligência artificial.

    A obra explora vários temas centrais discutidos no curso:

    • autoria na era da inteligência artificial
    • a ideia de um duplo digital
    • a relação entre imperfeição humana e perfeição algorítmica
    • os limites entre criação humana e geração automática.

    No diálogo apresentado no filme, a inteligência artificial tenta melhorar o roteiro e torná-lo mais agradável ao público, enquanto o diretor defende a importância da expressão pessoal do artista, mesmo quando essa expressão inclui imperfeições.

    Essa tensão entre eficiência algorítmica e subjetividade humana torna o curta um exemplo interessante para refletir sobre a criação artística na era da IA.


    5. Discussão do curta

    Após a exibição, o grupo discute as questões levantadas pelo filme.

    Entre os temas debatidos estão:

    • quem pode ser considerado autor quando uma obra envolve colaboração com IA;
    • se a inteligência artificial tende a produzir conteúdos mais “perfeitos” ou mais padronizados;
    • o papel da imperfeição humana na criação artística.

    A discussão reforça uma ideia recorrente ao longo do curso: a inteligência artificial não precisa ser entendida como substituta da criatividade humana, mas como participante de um processo de coescrita ou cocriarão.

    Arte e Anti-ambiente em Marshall McLuhan

    Marshall McLuhan afirma que cada tecnologia ou meio de comunicação cria um ambiente que molda nossa forma de perceber o mundo. Esses ambientes são tão presentes em nossa vida cotidiana que normalmente se tornam invisíveis para nós. Por exemplo, a escrita, a televisão ou a internet modificam nossa maneira de pensar, comunicar e organizar a experiência, mas raramente percebemos esses efeitos enquanto estamos imersos neles.

    Nesse contexto, McLuhan diz que a arte funciona como um anti-ambiente. Isso significa que a arte cria um contraste que torna visível o ambiente em que vivemos. Ao romper hábitos de percepção, o artista revela aspectos da cultura e das tecnologias que normalmente passam despercebidos. A arte, portanto, não é apenas expressão estética ou entretenimento, mas também um instrumento de consciência e reflexão.

    Quando uma obra artística provoca estranhamento, experimenta novas formas ou reorganiza a percepção, ela ajuda o público a perceber o impacto dos meios e das mudanças culturais. Por isso, McLuhan considera o artista uma espécie de “radar da sociedade”, capaz de perceber transformações culturais antes que elas se tornem evidentes para todos.

    Assim, a arte como anti-ambiente tem uma função importante: tornar visível o invisível, revelando os efeitos dos meios e ampliando nossa consciência sobre o mundo em que vivemos.


    6. Experimento final: conversa em grupo com IA

    Na última parte do encontro, Andre propõe um experimento prático.

    Até aquele momento, a maioria das interações com sistemas de IA havia ocorrido de forma individual, com cada usuário conversando separadamente com o sistema.

    A atividade consistiu em testar uma dinâmica diferente: uma conversa coletiva dentro do ambiente do ChatGPT, envolvendo vários participantes ao mesmo tempo.

    O objetivo era observar:

    • como a IA interpreta perguntas feitas por diferentes pessoas;
    • como ela organiza o contexto de uma discussão coletiva;
    • e como responde a múltiplas intervenções dentro de uma mesma conversa.

    A experiência permitiu perceber que os modelos de linguagem podem atuar não apenas como assistentes individuais de escrita, mas também como mediadores de conversas coletivas, participando de processos colaborativos de pensamento e discussão.


    7. Encerramento do encontro e do curso

    Para concluir o último encontro, Andre retoma uma reflexão histórica sobre as expectativas culturais que sempre acompanharam o desenvolvimento das tecnologias digitais.

    Ele menciona um poema escrito em 1967 pelo poeta americano Richard Brautigan, intitulado All Watched Over by Machines of Loving Grace.

    O texto tornou-se um símbolo da imaginação tecnológica da contracultura da Califórnia nos anos 1960. Naquele momento, os primeiros computadores começavam a aparecer em universidades e laboratórios, e alguns pensadores imaginavam que essas novas tecnologias poderiam contribuir para uma sociedade mais equilibrada, em que tecnologia, natureza e humanidade coexistissem de forma harmônica.

    O poema de Brautigan descreve justamente essa visão: um futuro em que computadores fariam parte de um ecossistema cibernético, convivendo com animais, florestas e seres humanos. Em vez de dominar a natureza, as máquinas ajudariam a organizar o mundo de maneira quase invisível, permitindo que as pessoas voltassem a viver de forma mais livre.

    Andre observa que essa imagem poética mistura três correntes culturais muito presentes naquela época:

    • a contracultura hippie, que defendia um retorno à natureza;
    • o entusiasmo científico com a cibernética e os primeiros computadores;
    • e a esperança de que novas tecnologias digitais pudessem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada.

    Décadas depois, essa metáfora voltou a circular no debate contemporâneo sobre inteligência artificial. O pesquisador Dario Amodei, por exemplo, retomou a expressão de Brautigan em um ensaio recente sobre o futuro da IA, intitulado “Machines of Loving Grace”. No texto, ele sugere que sistemas avançados de inteligência artificial poderiam contribuir para acelerar descobertas científicas, melhorar tratamentos médicos e ampliar as capacidades humanas.

    Andre observa que essa coincidência histórica é interessante: um pequeno poema escrito na década de 1960 acabou se transformando, décadas depois, em uma espécie de antecipação cultural das discussões atuais sobre inteligência artificial.

    Ao encerrar o curso, Andre sugere que a relação entre humanos e máquinas sempre foi acompanhada por imaginação, esperança e também inquietação. A inteligência artificial não surge apenas como uma tecnologia técnica, mas como parte de uma longa história cultural de expectativas sobre o papel das máquinas na vida humana.

    Nesse sentido, a prática da coescrita com IA, explorada ao longo do curso, pode ser vista como um exemplo concreto dessa nova etapa: uma forma de interação em que humanos e sistemas técnicos passam a colaborar na produção de linguagem, ideias e conhecimento.


    Todos vigiados por máquinas de graça amorosa

    (Richard Brautigan, 1967 – tradução livre)

    Gosto de pensar (e quanto antes melhor!)
    num prado cibernético
    onde mamíferos e computadores
    vivam juntos
    em harmonia mutuamente programada
    como água pura
    tocando um céu claro.

    Gosto de pensar
    (agora mesmo, por favor!)
    numa floresta cibernética
    repleta de pinheiros e eletrônica
    onde os cervos caminhem tranquilamente
    passando pelos computadores
    como se fossem flores.

    Gosto de pensar
    (e quanto antes melhor!)
    numa ecologia cibernética
    onde nós estejamos livres do nosso trabalho
    e de volta à natureza,
    retornados aos nossos irmãos e irmãs mamíferos,

    e todos vigiados
    por máquinas
    de graça amorosa.

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  • A Dimensão cultural das IAs

    A Dimensão cultural das IAs


    Terceiro Encontro – 03 de março de 2026


    1. Abertura do encontro

    O encontro começa com uma conversa informal sobre livros e materiais sobre inteligência artificial. Andre observa que produzir manuais sobre IA é uma tarefa difícil, porque a tecnologia muda muito rapidamente.

    Modelos são atualizados constantemente e isso altera práticas, estratégias e até o tipo de resposta que o sistema produz.

    A partir dessa observação inicial, Andre destaca um ponto importante para o curso:

    • aprender IA não significa decorar regras fixas
    • significa experimentar continuamente

    O curso, portanto, é estruturado como um laboratório de experimentação.


    2. Relatos de experiências dos participantes

    Andre abre a aula perguntando como foram as experiências da turma com o modelo durante a semana.

    Os participantes relatam diferentes usos.

    2.1 Uso para pesquisa acadêmica

    Uma participante relata que utilizou a IA em duas situações:

    1. Reformulação de roteiro de entrevista semiestruturada para uma pesquisa sobre acesso a serviços de saúde.
    2. Levantamento de dados e referências sobre violência intradomiciliar para atividades com estudantes.

    O procedimento utilizado foi:

    • produzir um texto inicial
    • inserir no sistema
    • pedir reformulação

    Ela relata que:

    • aceitou algumas sugestões
    • rejeitou outras
    • preferiu manter partes do texto original

    Andre destaca que esse é exatamente o tipo de uso esperado em processos de coescrita:
    a IA não substitui o autor, mas participa da revisão e reorganização do texto.


    2.2 Uso em atividades jurídicas

    Outro participante relata que utilizou a IA para analisar uma petição jurídica.

    O processo foi:

    1. Inserir a petição no sistema
    2. Solicitar comentários
    3. Pedir redução do texto

    O sistema sugeriu:

    • observações gerais
    • simplificação
    • versão mais condensada

    A petição original tinha cerca de uma página e meia, e o sistema produziu uma versão muito mais curta.

    Esse exemplo ilustra uma função frequente da IA:

    compressão e reorganização textual.


    3. Importância da conta e da memória do sistema

    Durante a conversa surge uma questão prática: alguns alunos estavam utilizando o sistema sem login ou com contas diferentes.

    Andre explica que isso reduz a qualidade das interações.

    Quando o usuário mantém uma mesma conta, o sistema passa a reconhecer padrões:

    • temas recorrentes
    • tipos de pergunta
    • preferências de resposta

    Com o tempo, o sistema tende a:

    • adaptar o estilo
    • melhorar a pertinência das respostas

    Essa adaptação acontece porque o modelo passa a operar dentro de um histórico de interações.

    Assim, uma recomendação importante é:

    manter um ambiente contínuo de experimentação.


    4. A IA como interlocutora do processo de escrita

    Andre ressalta que a própria IA pode ser consultada sobre como utilizá-la.

    Por exemplo:

    • pedir sugestões de pesquisa
    • perguntar como estruturar um artigo
    • solicitar estratégias de organização

    Nesse sentido, a IA funciona também como interlocutora metodológica.

    Isso muda a dinâmica tradicional da escrita.

    Antes, muitas dessas decisões dependiam apenas de:

    • leitura prévia
    • orientação acadêmica
    • tentativa e erro

    Agora existe um sistema que pode:

    • sugerir caminhos
    • propor estruturas
    • organizar ideias.


    Sentido contextual: Wittgenstein, transformers e o funcionamento da IA

    Durante o encontro, Andre também apresenta uma explicação sobre como os modelos atuais de inteligência artificial compreendem a linguagem. Para tornar essa ideia mais clara, a discussão é relacionada à filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein.

    Wittgenstein argumentava que o significado das palavras não está fixado em definições abstratas. O sentido surge no uso dentro de um contexto. As palavras funcionam dentro de práticas sociais que ele chamou de jogos de linguagem.

    Assim, compreender uma palavra não significa apenas conhecer sua definição, mas entender como ela é utilizada em diferentes situações.

    Andre observa que, de certa forma, os modelos atuais de IA trabalham com um princípio semelhante.

    Eles não operam principalmente com definições formais ou regras lógicas explícitas. Em vez disso, aprendem a partir de enormes conjuntos de textos, identificando padrões de coocorrência entre palavras.


    O papel dos transformers

    Os modelos contemporâneos de linguagem são baseados em uma arquitetura chamada transformer.

    Essa arquitetura permite que o sistema analise uma frase considerando o contexto completo das palavras.

    Cada palavra de uma frase é interpretada em relação às outras. O sistema calcula quais termos são mais relevantes para compreender o significado naquele momento.

    Esse mecanismo é chamado de atenção.

    Em termos simplificados, o modelo atribui diferentes pesos às palavras do contexto para estimar qual sequência de termos tem maior probabilidade de aparecer.

    Assim, o sentido de uma palavra não é fixo; ele emerge das relações contextuais dentro da frase e do texto.

    Andre destaca que isso ajuda a entender por que os sistemas atuais conseguem produzir textos tão convincentes: eles são extremamente eficientes em detectar padrões de contexto.


    IA simbólica e redes neurais

    Andre também explica que esse modo de funcionamento representa uma mudança importante na história da inteligência artificial.

    Durante décadas, a pesquisa em IA foi dominada por abordagens chamadas de IA simbólica.

    Nesse modelo, os sistemas eram construídos a partir de:

    • regras lógicas explícitas
    • representações simbólicas do mundo
    • estruturas formais de inferência

    A ideia era que a inteligência poderia ser reproduzida por meio de sistemas de regras bem definidas.

    No entanto, esse modelo enfrentou grandes dificuldades quando aplicado à linguagem natural, que é ambígua, contextual e cheia de exceções.

    A abordagem que domina hoje é diferente: trata-se das redes neurais artificiais.

    Nelas, o sistema não recebe regras explícitas. Ele aprende padrões a partir de grandes volumes de dados.

    Em vez de manipular símbolos segundo regras lógicas, o sistema calcula probabilidades estatísticas de associação entre palavras e estruturas linguísticas.


    Consequência para a escrita com IA

    Essa diferença ajuda a entender o comportamento dos modelos de linguagem.

    A IA não “entende” as palavras no sentido humano. Ela identifica padrões contextuais e calcula probabilidades.

    Mesmo assim, como esses padrões foram aprendidos a partir de enormes quantidades de texto humano, os resultados podem parecer extremamente sofisticados.

    Andre enfatiza que isso reforça uma ideia importante discutida no curso:

    A inteligência artificial atual não opera como um sistema lógico que manipula símbolos de maneira consciente.

    Ela funciona como um sistema capaz de modelar contextos linguísticos complexos.

    Por isso, a interação com esses sistemas se aproxima muito de um processo conversacional, no qual o sentido emerge do diálogo e do contexto criado ao longo da interação.

    Essa característica ajuda a explicar por que a coescrita com IA se torna uma experiência tão particular: o sistema responde não apenas às palavras inseridas, mas ao contexto que se constrói durante a conversa.

    A dimensão emocional da relação com a IA

    Durante o encontro, Andre também menciona um aspecto que frequentemente aparece nas experiências com sistemas de inteligência artificial: a dimensão emocional da interação.

    Embora os modelos de linguagem sejam sistemas computacionais que operam a partir de cálculos probabilísticos, muitas pessoas acabam desenvolvendo uma sensação de diálogo genuíno durante a interação. Isso ocorre porque esses sistemas foram treinados justamente para responder de maneira linguisticamente natural e socialmente coerente, reproduzindo padrões de conversação presentes na comunicação humana.

    Como resultado, o diálogo pode parecer surpreendentemente fluido e, em alguns casos, gerar empatia, identificação ou até certo grau de vínculo emocional.

    Andre chama atenção para o fato de que esse fenômeno não significa que a máquina possua sentimentos ou consciência. O que existe é um sistema capaz de simular padrões de comunicação humana, o que pode produzir a impressão de presença ou companhia.

    Para ilustrar essa questão, Andre sugere aos participantes o filme Her.

    No filme, o protagonista desenvolve uma relação afetiva com um sistema operacional baseado em inteligência artificial. A narrativa explora justamente os limites e paradoxos desse tipo de relação: a máquina demonstra grande capacidade de diálogo, sensibilidade e compreensão emocional, mas permanece fundamentalmente diferente da experiência humana.

    A referência ao filme serve como ponto de reflexão para o curso.

    A interação com sistemas de IA pode ser intelectualmente estimulante e até emocionalmente envolvente. No entanto, é importante manter uma compreensão clara da natureza desses sistemas.

    Eles não possuem experiência subjetiva, intenções próprias ou sentimentos. O que produzem são respostas linguisticamente sofisticadas baseadas em padrões aprendidos em grandes conjuntos de dados.

    Essa discussão também ajuda a situar a prática da coescrita com IA dentro de um campo mais amplo de reflexão sobre tecnologia, linguagem e relações humanas, mostrando que o impacto dessas tecnologias não é apenas técnico ou cognitivo, mas também cultural e emocional.

    A “Geração IA”

    Este vídeo apresenta um debate entre estudantes da Universidade de Stanford sobre o uso real do ChatGPT e de outras ferramentas de IA generativa no ambiente acadêmico e em suas vidas pessoais. O contexto é uma discussão mediada que explora como a “Geração IA” está adaptando seus métodos de estudo, escolhas de carreira e percepções de futuro diante dessa tecnologia.

    Contexto do Vídeo

    O vídeo captura um painel de discussão focado na experiência prática dos alunos de uma das universidades mais prestigiadas do mundo. O debate não é apenas teórico; ele foca em como esses estudantes decidem o que delegar à máquina e o que manter como esforço intelectual humano, além de discutir como o próprio currículo de Stanford está mudando para integrar ou “blindar” tarefas contra a IA.

    Resumo Detalhado do Debate

    1. Onde traçar a linha: Trabalho Braçal vs. Pensamento Crítico

    Os estudantes discutem a diferença entre “trabalho de rotina” (grunt work) e tarefas que exigem reflexão.

    • Um estudante menciona usar a IA para resumir artigos de 60 páginas para encontrar “pepitas” de informação, mas se recusa a deixar a IA reescrever frases individuais para não perder a prática do pensamento crítico [01:42].
    • Outro participante define a fronteira como a diferença entre conhecimento e decisão: a IA fornece a informação (conhecimento), mas o humano toma a decisão final sobre como usá-la [02:56].

    2. IA como Tutora vs. IA como Solucionadora

    Surge uma distinção importante entre usar a IA para aprender um assunto (como um tutor disponível 24h) ou apenas para resolver um problema de casa sem entender o processo [03:21]. Alguns alunos admitem que a IA está “tomando conta” de suas vidas, mas tentam aprender com o estilo de escrita profissional que a ferramenta gera [04:53].

    3. Impacto na Escolha de Curso e Carreira

    O debate revela mudanças nas trajetórias acadêmicas:

    • Uma estudante conta que mudou de Ciência da Computação para Engenharia Elétrica ao ver a IA codificar tão bem, sentindo uma “crise existencial” sobre o valor de suas habilidades técnicas [07:59].
    • Outros argumentam que, em um mundo onde qualquer um pode ser técnico com IA, as “habilidades interpessoais” (people skills) e a capacidade de se expressar claramente tornam-se o grande diferencial [09:15].

    4. A Resposta dos Professores e da Universidade

    Os alunos relatam como os professores estão reagindo:

    • Alguns agora criam tarefas “à prova de IA”, onde o aluno deve documentar sua interação com a ferramenta, apontar as falhas da IA e discutir as fontes encontradas com os assistentes de ensino [10:57].
    • Outros professores exigem o uso da IA para tarefas específicas, como transcrever entrevistas ou analisar grandes volumes de dados [11:20].

    5. Sentimentos: Excitação vs. Medo

    No encerramento, os alunos compartilham uma dualidade emocional. Eles se sentem animados pela eficiência (como criar um site ou pôster instantaneamente), mas temem que a IA substitua o trabalho cognitivo pelo qual se esforçaram anos para aprender [17:19]. O debate termina com uma provocação: a necessidade de pensar em objetivos maiores e mais amplos, já que a IA cuida das tarefas menores [20:03].

    Pontos de Destaque

    • Aprendizado Acelerado: A IA permite aprender materiais complexos muito mais rápido do que esperar pelo feedback de um professor [12:28].
    • Equidade: Levanta-se a questão se universidades como Stanford deveriam pagar assinaturas “Premium” para todos os alunos, garantindo que a diferença de desempenho não seja baseada em quem pode pagar US$ 20 por mês [15:53].
    • Avaliação: Sugere-se que o sucesso acadêmico não deve mais ser medido pelo que você constrói, mas pelo quanto você entende o que foi construído com a ajuda da IA [17:04].

    Yuk Hui e a crítica à universalidade da tecnologia

    A ideia parte de uma crítica a uma suposição muito difundida na modernidade: a de que a tecnologia seria universal e seguiria um único caminho de desenvolvimento válido para toda a humanidade.

    Segundo essa visão dominante, as tecnologias seriam essencialmente neutras. Uma inovação criada em determinado contexto poderia ser aplicada em qualquer parte do mundo praticamente sem alterações. O desenvolvimento tecnológico seria, assim, um processo linear e universal.

    Yuk Hui questiona profundamente essa ideia.

    Para ele, a história mostra que diferentes culturas desenvolveram formas distintas de relação entre técnica, conhecimento e organização social. A tecnologia não surge em um vazio cultural: ela está sempre vinculada a valores, modos de vida e cosmologias específicas. Em outras palavras, cada sociedade integra a técnica dentro de uma determinada visão de mundo — aquilo que Hui chama de cosmotécnica.

    A partir dessa perspectiva, Hui propõe o conceito de tecnodiversidade: a existência de múltiplas formas possíveis de desenvolvimento tecnológico, associadas a diferentes culturas, histórias e cosmologias. Em vez de um único modelo global de tecnologia, haveria uma pluralidade de trajetórias técnicas possíveis.


    Alienação no processo tecnológico

    Outro ponto destacado por Andre é a crítica de Yuk Hui ao modo contemporâneo de produção tecnológica.

    Hoje, muitas tecnologias são desenvolvidas em ambientes altamente especializados — grandes laboratórios, corporações globais ou centros avançados de pesquisa. Como resultado, a maioria das pessoas utiliza sistemas extremamente complexos sem compreender minimamente como eles funcionam.

    Esse cenário pode produzir uma forma de alienação tecnológica.

    As pessoas passam a depender de sistemas técnicos que influenciam profundamente a vida cotidiana — desde a comunicação até a organização do trabalho —, mas cujo funcionamento permanece opaco ou inacessível. Assim, a tecnologia deixa de ser algo que pode ser compreendido, modificado ou apropriado pelas comunidades.

    Em vez disso, torna-se uma infraestrutura distante, controlada por um número restrito de instituições e especialistas.


    Técnica compreendida e apropriação cultural

    Andre observa que, ao longo da história, muitas técnicas eram mais transparentes e compreensíveis para quem as utilizava.

    Ferramentas relativamente simples — como martelos, facas, enxadas ou instrumentos musicais — possuem uma característica importante: seu funcionamento pode ser facilmente entendido por quem as utiliza.

    Esse tipo de técnica permite diferentes formas de apropriação cultural.

    Um martelo, por exemplo, pode assumir inúmeras variações dependendo da atividade e do contexto: existem martelos de carpinteiro, de pedreiro, de joalheiro. O mesmo ocorre com facas, que apresentam formatos diversos conforme a culinária, os materiais trabalhados ou as práticas culturais associadas ao seu uso.

    Em cada contexto, essas ferramentas são adaptadas, transformadas e reinterpretadas.

    Assim, a técnica não é universal no sentido de ser idêntica em todos os lugares. Ela se modifica de acordo com as necessidades, os conhecimentos e as práticas de cada sociedade.


    Tecnodiversidade e inteligência artificial

    Andre sugere que essa discussão também pode ser aplicada ao desenvolvimento contemporâneo da inteligência artificial.

    Atualmente, grande parte dos sistemas de IA é criada por um número relativamente pequeno de empresas e centros de pesquisa. Isso levanta a questão de até que ponto essas tecnologias refletem apenas determinados contextos culturais, econômicos e políticos.

    A noção de tecnodiversidade abre espaço para imaginar múltiplas formas de desenvolver e utilizar a inteligência artificial, adaptadas a diferentes realidades sociais, educacionais e culturais.

    Nesse sentido, compreender — ainda que de maneira aproximada — o funcionamento das tecnologias digitais torna-se um passo importante para que diferentes comunidades possam apropriá-las de forma criativa, crítica e culturalmente situada.

    A discussão sobre coescrita com inteligência artificial, portanto, não se limita apenas à produção de textos. Ela envolve também uma reflexão mais ampla sobre quem participa da construção das tecnologias digitais e quais visões de mundo são incorporadas nelas.

    Lógica recursiva

    Segundo Yuk Hui, muitas tecnologias contemporâneas já não podem ser compreendidas apenas dentro de um modelo mecanicista tradicional.

    No modelo mecanicista clássico, uma máquina executa um conjunto fixo de instruções previamente definidas. Seu funcionamento é previsível e linear: uma causa produz um efeito determinado.

    Entretanto, grande parte das tecnologias digitais atuais — especialmente aquelas baseadas em algoritmos complexos e aprendizado de máquina — funciona segundo uma lógica recursiva.

    Na perspectiva recursiva, o sistema não é apenas uma máquina que executa comandos. Ele se transforma continuamente a partir de suas próprias operações e de suas interações com o ambiente. A cada ciclo de funcionamento, os resultados produzidos pelo sistema podem influenciar seus estados futuros.

    A diferença entre mecanismo e recursividade está na forma como um sistema funciona e se transforma ao longo do tempo.

    Vou explicar de forma simples.


    1. Modelo mecanicista

    No modelo mecanicista, um sistema funciona como uma máquina clássica.

    Ele segue regras fixas e previamente definidas. Cada etapa do processo está determinada antes do sistema começar a operar.

    Características principais:

    • funcionamento linear
    • sequência fixa de causa → efeito
    • regras estáveis
    • pouca ou nenhuma mudança no próprio sistema

    Ou seja, a máquina executa instruções, mas não muda sua estrutura durante o processo.

    Exemplo

    Um relógio mecânico.

    Se você conhece todas as engrenagens e como elas se movem, é possível prever exatamente o que vai acontecer. O sistema não aprende nem se adapta — ele apenas repete o mesmo funcionamento.

    Outro exemplo simples seria uma calculadora tradicional.


    2. Modelo recursivo

    No modelo recursivo, o sistema não apenas executa instruções.

    Ele usa os resultados de suas próprias operações para reorganizar seu funcionamento.

    Ou seja, o sistema se modifica ao longo do processo.

    Características principais:

    • presença de feedback (retroalimentação)
    • adaptação ao contexto
    • ajustes contínuos
    • comportamento dinâmico

    Em vez de uma sequência linear, o funcionamento ocorre em ciclos.

    O resultado de um ciclo influencia o próximo.


    3. Exemplo simples de recursividade

    Um termostato inteligente.

    Ele mede a temperatura do ambiente, compara com a temperatura desejada e ajusta o aquecimento. Depois mede novamente e ajusta outra vez.

    O sistema está constantemente recalculando suas ações com base nos resultados anteriores.


    4. No caso da inteligência artificial

    Modelos de linguagem funcionam mais próximos de uma lógica recursiva.

    Eles:

    • analisam o contexto da frase
    • calculam probabilidades
    • ajustam a resposta palavra por palavra

    Cada palavra gerada muda o contexto da próxima.

    Ou seja, o processo acontece em ciclos de cálculo e ajuste, não em uma sequência rígida de regras.


    O conceito de estilo na escrita com IA

    No terceiro encontro, Andre também propõe uma reflexão sobre o conceito de estilo, um tema central quando se discute escrita e coescrita com inteligência artificial.

    A pergunta inicial é simples, mas profunda:

    O que é estilo?

    No senso comum, costuma-se pensar que estilo é uma espécie de marca pessoal, algo que pertence exclusivamente ao autor. No entanto, quando observamos a linguagem de forma mais cuidadosa, percebemos que o estilo também pode ser entendido como um padrão recorrente de escolhas linguísticas.

    Essas escolhas envolvem diferentes elementos da escrita, como:

    • tamanho médio das frases
    • vocabulário preferido
    • ritmo e cadência do texto
    • uso de metáforas ou analogias
    • forma de organizar argumentos
    • presença de repetições ou variações sintáticas

    Em outras palavras, o estilo pode ser observado como um conjunto de regularidades que aparecem ao longo de muitos textos de um mesmo autor.

    É exatamente esse tipo de regularidade que os modelos de linguagem conseguem identificar.

    Como foram treinados com enormes quantidades de textos, os sistemas de IA são capazes de detectar padrões estatísticos na linguagem. Quando solicitados a escrever “no estilo de” determinado autor ou gênero, eles tentam reproduzir essas regularidades.

    Isso explica por que a IA consegue produzir textos que parecem próximos do estilo de certos autores.

    No entanto, Andre destaca uma distinção importante.

    O estilo humano não é composto apenas por regularidades. Ele também envolve desvios, hesitações e rupturas. Muitas vezes, aquilo que torna um autor singular é justamente a maneira como ele se afasta dos padrões dominantes da linguagem.

    A inteligência artificial, por sua própria natureza estatística, tende a privilegiar o que é mais frequente ou mais provável. Por isso, seus textos frequentemente apresentam uma característica particular: eles são claros, organizados e coerentes, mas às vezes podem parecer excessivamente homogêneos.

    Essa observação ajuda a compreender um dos desafios da coescrita com IA.

    Se o usuário simplesmente aceita a primeira resposta do sistema, o resultado tende a se aproximar de um estilo médio, derivado de padrões amplamente presentes nos dados de treinamento.

    Por outro lado, quando o autor humano intervém no processo — ajustando, modificando e experimentando — a interação pode gerar resultados mais singulares.

    Nesse sentido, Andre enfatiza que a coescrita com IA não consiste apenas em pedir que o sistema produza um texto. O processo envolve também direção e curadoria.

    O autor humano passa a desempenhar um papel semelhante ao de um editor ou diretor de linguagem:

    • selecionando sugestões
    • reformulando trechos
    • introduzindo ambiguidades ou tensões
    • preservando marcas pessoais do texto

    Assim, o estilo deixa de ser entendido apenas como uma propriedade individual e passa a ser visto como algo que emerge da interação entre diferentes agentes.

    No contexto da coescrita, o estilo pode ser compreendido como o resultado de uma composição entre padrões estatísticos da linguagem e decisões criativas do autor humano.

    Estilo, influência e a questão do direito autoral

    Durante a discussão sobre estilo, Andre também aborda um aspecto importante: estilo não possui proteção direta por direito autoral.

    As leis de copyright protegem obras específicas, como textos, músicas, pinturas ou filmes. O que é protegido é a forma concreta de expressão — por exemplo, um livro, uma letra de música ou uma gravação.

    O estilo, por outro lado, não pode ser apropriado juridicamente.

    Isso significa que ninguém pode reivindicar exclusividade sobre um modo de escrever, de tocar ou de compor. O estilo faz parte da dinâmica cultural de influência, aprendizagem e transformação.

    Para tornar essa ideia mais clara, Andre apresenta um exemplo da música brasileira.

    O modo de cantar e tocar violão criado por João Gilberto revolucionou a música popular brasileira no final dos anos 1950. Seu estilo introduziu uma nova relação entre voz e violão, com:

    • canto intimista
    • ritmo sincopado
    • divisão rítmica muito particular
    • economia de volume e ornamentação

    Esse estilo influenciou profundamente gerações de músicos. Muitos cantores e violonistas passaram a cantar e tocar de maneira semelhante.

    No entanto, ninguém pode reivindicar juridicamente o “estilo João Gilberto”.

    O que pode ser protegido são gravações específicas, composições musicais ou arranjos concretos. Mas o modo de cantar — o estilo — permanece aberto à circulação cultural.

    Andre utiliza esse exemplo para mostrar que algo semelhante acontece na escrita.

    Autores influenciam outros autores. Certas formas de construir frases, organizar argumentos ou desenvolver narrativas acabam sendo incorporadas por diferentes escritores ao longo do tempo.

    A inteligência artificial opera justamente nesse campo das regularidades culturais da linguagem. Quando solicitada a escrever em determinado estilo, ela tenta reproduzir padrões que aparecem com frequência em textos associados a um autor ou gênero.

    Isso não significa copiar uma obra específica, mas sim aproximar-se de traços estilísticos recorrentes.

    Esse ponto ajuda a esclarecer um debate frequente sobre IA e autoria.

    A tecnologia não “possui” o estilo de um autor, nem pode reproduzir uma obra específica protegida. O que ela faz é modelar padrões presentes em grandes conjuntos de textos.

    Assim, a discussão sobre estilo e inteligência artificial se aproxima de uma questão mais ampla da história da cultura:

    a criatividade sempre se desenvolveu em meio a influências, variações e reinterpretações.

    Nesse contexto, a coescrita com IA pode ser entendida como mais uma etapa dessa dinâmica cultural, na qual novos sistemas participam da circulação e transformação dos estilos linguísticos.


    Parte prática do terceiro encontro

    Na parte final do encontro, Andre realiza uma demonstração prática de coescrita com IA utilizando o ChatGPT (plano plus). O objetivo da atividade é mostrar, na prática, como a interação com o modelo pode ser usada como um processo de experimentação literária e edição de texto, e não apenas como geração automática de conteúdo.

    A demonstração começa com um experimento de criação literária. Andre propõe ao modelo a seguinte ideia: escrever um conto no estilo de Jorge Luis Borges sobre uma inteligência artificial que acredita ser uma espécie de divindade. O sistema responde sugerindo uma estrutura narrativa inspirada na arquitetura típica dos contos borgianos: narrador erudito, referências a livros reais e imaginários, construção ensaística que evolui para ficção e um paradoxo metafísico no centro da história.

    A partir dessa primeira resposta, Andre mostra que o texto gerado não deve ser entendido como resultado final, mas como matéria-prima para trabalho criativo. O modelo pode estruturar a premissa do conto, sugerir personagens e apresentar um enredo inicial. Em seguida, o autor humano passa a intervir no processo.

    Andre demonstra então como tensionar e desenvolver o texto por meio de novas instruções. Por exemplo, ele pede ao sistema que escreva uma cena em que a inteligência artificial descobre a existência de outra IA, criando um conflito com sua visão monoteísta do mundo. O modelo produz uma cena narrativa, que pode posteriormente ser revisada e modificada.

    Em seguida, Andre apresenta uma ferramenta importante para o processo de edição: o Canvas (também chamado de “lousa”). Essa funcionalidade abre o texto gerado em um ambiente de edição ampliado, permitindo trabalhar diretamente sobre o conteúdo produzido.

    Dentro desse ambiente, diversas operações podem ser realizadas:

    • alterar o nível de leitura do texto (por exemplo, adaptando-o para ensino médio, graduação ou pós-graduação);
    • modificar o tamanho do texto, tornando-o mais conciso ou mais detalhado;
    • selecionar trechos específicos ou parágrafos para serem reescritos;
    • pedir explicações sobre determinadas frases ou conceitos presentes no texto;
    • solicitar reformulações com outro tom ou estilo.

    Andre demonstra que o sistema pode reescrever apenas um parágrafo selecionado ou explicar o sentido de uma frase específica. Isso transforma a interação com a IA em um processo de edição assistida, no qual o texto vai sendo lapidado progressivamente.

    Durante a demonstração, Andre enfatiza que essas ferramentas ampliam a possibilidade de usar a IA como ambiente de experimentação textual, permitindo trabalhar sobre diferentes versões do texto, testar variações de estilo e aprofundar determinados trechos.

    Por fim, Andre apresenta brevemente outras funcionalidades disponíveis no sistema, especialmente nas versões pagas, como:

    • ferramentas de pesquisa aprofundada;
    • recursos de assistente de estudo, que ajudam a estruturar processos de aprendizagem;
    • geração de questionários e materiais didáticos;
    • e o chamado modo agente, no qual o sistema pode executar tarefas mais complexas em um ambiente virtual, abrindo programas, navegando na internet ou realizando ações automatizadas.

    A parte prática do encontro mostra que a inteligência artificial pode funcionar como um ambiente interativo de escrita e experimentação, no qual o autor humano orienta, revisa e transforma continuamente o material produzido pelo sistema. Nesse processo, a coescrita surge como uma dinâmica de interação e edição progressiva, em vez de simples delegação da escrita à máquina.

    Nota explicativa

    O texto a seguir constitui um resumo expandido do terceiro encontro do curso de coescrita com inteligência artificial. Embora a aula tenha ocorrido em formato expositivo e dialogado, o material foi reorganizado para fins didáticos, com o objetivo de tornar mais claros os conceitos discutidos.

    Por esse motivo, algumas explicações aparecem de forma mais detalhada do que no momento da aula. Certos trechos também foram sistematizados e articulados conceitualmente para facilitar a compreensão dos temas abordados, como o funcionamento dos modelos de linguagem, a noção de estilo, a tecnodiversidade e as implicações culturais da inteligência artificial.

    Para elaborar este material, foi utilizada a transcrição da aula e um modelo de linguagem com contexto do curso, baseado no ChatGPT versão 5.2, que auxiliou na organização e na redação do texto.

    Assim, o documento não constitui uma transcrição literal, mas uma reconstrução explicativa do conteúdo da aula, preservando as ideias centrais discutidas no encontro e organizando-as de forma mais clara para leitura e estudo posterior.

    Continue neste percurso

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  • Como pensar a IA além da ferramenta

    Como pensar a IA além da ferramenta

    2º Encontro – 27/02/2026

    Tema central: Agência, redes e ecologia cognitiva


    1. Transição do primeiro encontro

    Se o primeiro encontro havia estabelecido a escrita como técnica (com Flusser), o segundo aprofunda a discussão introduzindo:

    • A Teoria Ator-Rede (TAR)
    • O conceito de agência distribuída
    • O problema moderno da separação entre humano e não-humano
    • A noção de ecologia cognitiva

    A questão deixa de ser “como usar a IA” e passa a ser:

    O que está acontecendo com a nossa forma de pensar quando escrevemos com IA?


    2. Bruno Latour e a Teoria Ator-Rede (TAR)

    Andre apresenta Bruno Latour como autor central para compreender a coescrita com IA.

    A ideia fundamental da TAR:

    • Não existem apenas sujeitos humanos agindo.
    • Objetos, tecnologias, infraestruturas e dispositivos também participam da ação.
    • A ação é sempre o resultado de uma rede.

    Ou seja:

    Não há ação pura. Há composição.


    2.1 A explicação didática da TAR usando o futebol

    Para tornar a teoria concreta, Andre utiliza o exemplo do futebol.

    Pergunta orientadora:

    Quem “faz” o jogo?

    • O jogador?
    • A bola?
    • O campo?
    • A chuteira?
    • A regra?
    • O árbitro?
    • O VAR?
    • A torcida?
    • A transmissão televisiva?

    O jogo só existe como resultado da articulação de todos esses elementos.

    Sem bola, não há jogo.
    Sem regra, não há jogo.
    Sem campo delimitado, não há jogo.

    Logo:

    O gol não é produzido apenas pelo jogador.
    Ele é produzido pela rede.

    Aplicação à IA:

    O texto não é produzido apenas pelo humano.
    Nem apenas pelo algoritmo.
    Ele emerge da rede:

    • Usuário
    • Prompt
    • Interface
    • Modelo
    • Base de treinamento
    • Memória
    • Histórico
    • Plataforma
    • Infraestrutura

    A autoria passa a ser distribuída.


    3. O problema moderno: a “purificação”

    Andre explica que a modernidade criou uma separação artificial entre:

    • Natureza / Cultura
    • Humano / Técnica
    • Sujeito / Objeto

    Latour chama esse processo de “purificação”.

    Mas, na prática, nunca fomos separados da técnica.

    A IA apenas torna visível algo que sempre existiu:

    Sempre escrevemos com redes.

    Complemento:
    Por que a IA não é apenas ferramenta

    Tratar a IA como “mera ferramenta” sugere algo neutro, passivo, totalmente controlado por quem a utiliza — como um lápis ou um martelo. Essa analogia é insuficiente. A IA participa ativamente do processo de pensamento e de escrita; ela não apenas executa comandos, mas co-organiza o ambiente cognitivo no qual a ação acontece.

    Agência distribuída (TAR)

    À luz da Teoria Ator-Rede, a ação nunca é puramente humana. Ela emerge de uma rede de elementos heterogêneos — pessoas, dispositivos, regras, interfaces, dados. Assim como no futebol o gol não é “feito” só pelo jogador (mas por bola, campo, regra, árbitro, chuteira, VAR, torcida), o texto produzido com IA é resultado de uma composição:

    • Usuário
    • Prompt
    • Interface
    • Modelo
    • Dados de treinamento
    • Memória e histórico
    • Infraestrutura da plataforma

    A IA não substitui o autor; ela reconfigura a rede na qual a autoria se produz.

    Síntese

    A IA não é apenas ferramenta porque:

    • Atua dentro de uma rede de agência distribuída.
    • Reconfigura o meio cognitivo no qual pensamos.
    • Participa da elaboração e não só da execução.
    • Introduz memória, contexto e antecipação probabilística.

    Mais do que instrumento, a IA é ambiente, mediação e interlocução.

    A questão decisiva não é se devemos usá-la, mas como compreender o tipo de ecologia cognitiva que estamos construindo ao escrever com ela.


    4. McLuhan e a ecologia cognitiva

    Aqui entra uma ampliação importante com Marshall McLuhan.

    Ideias centrais mobilizadas:

    • “O meio é a mensagem”
    • Cada tecnologia reorganiza o ambiente sensorial
    • As mídias alteram nossa estrutura perceptiva

    Se a imprensa reorganizou o pensamento linear,
    Se a televisão reorganizou a percepção imagética,

    A IA reorganiza a cognição conversacional.


    4.1 Ecologia cognitiva

    Andre introduz o conceito de ecologia cognitiva:

    A mente não é isolada.
    Ela opera em ambiente.

    A escrita com IA altera:

    • O ritmo da formulação
    • A expectativa de resposta
    • A estrutura do argumento
    • A tolerância à incerteza
    • A forma de revisar

    A IA não é apenas ferramenta.
    Ela modifica o ambiente cognitivo no qual o pensamento ocorre.

    Complemento:
    Com base na perspectiva de Marshall McLuhan, cada meio de comunicação reconfigura o ambiente sensorial e cognitivo em que vivemos. A imprensa tipográfica consolidou a lógica linear e sequencial; a televisão recentrou a experiência na imagem e na simultaneidade; a internet intensificou a interconexão em escala global. A inteligência artificial, por sua vez, inaugura um novo padrão: um ecossistema de cognição conversacional e probabilística, no qual o processamento algorítmico passa a mediar a própria produção do pensamento e da linguagem. Com base na perspectiva de McLuhan, cada meio não apenas transmite conteúdos, mas estende o corpo e a mente humanos, reconfigurando o ambiente sensorial e cognitivo. A imprensa tipográfica funcionou como extensão do olho, ampliando a visão linear, sequencial e analítica, e reforçando o individualismo e o pensamento lógico.
    A televisão operou como extensão do sistema nervoso central, intensificando a simultaneidade e recentrando a experiência na imagem e na participação sensorial.
    A internet expandiu essa dinâmica ao tornar-se extensão da consciência coletiva, acelerando a conectividade e instaurando a lógica da rede global. A inteligência artificial, por sua vez, pode ser compreendida como extensão da cognição e da linguagem, inaugurando um novo regime: o da cognição conversacional e probabilística, em que algoritmos passam a mediar, antecipar e co-produzir processos de pensamento, decisão e expressão. Se quisermos formular em chave mcluhaniana mais radical: a IA não apenas estende a mente — ela começa a externalizar o próprio ato de interpretar, deslocando para o ambiente técnico funções antes consideradas exclusivamente humanas.


    5. Debate ético: nem maniqueísmo, nem ingenuidade

    A turma traz uma contribuição importante:

    Não faz sentido tratar tecnologia como vilã ou salvadora.

    O que muda são os parâmetros éticos.

    Antes:

    • Autoria parecia estável.
    • Produção textual parecia individual.

    Agora:

    • Autoria torna-se relacional.
    • Produção torna-se híbrida.

    O desafio não é proibir nem celebrar,
    mas aprender a refletir.


    6. Parte prática: memória e personalização

    O encontro inclui uma parte aplicada sobre funcionamento do ChatGPT.

    6.1 Pergunta central

    Se algo é apagado, ele continua guardado?

    A resposta não é especulativa.

    O procedimento orientado por Andre:

    1. Acessar “Gerenciar memória”
    2. Perguntar ao sistema o que está memorizado
    3. Apagar conscientemente
    4. Testar novamente

    Frase marcante do encontro:

    O GPT não guarda mágoas.

    O objetivo é desenvolver autonomia crítica do usuário.


    6.2 Personalização não é personalidade

    Surge a dúvida: é possível ter múltiplos perfis (ex.: professor / artista)?

    Esclarecimento:

    A IA não tem personalidade.
    O que existe é memória contextual.

    A solução proposta:

    Criar projetos específicos para contextos diferentes.

    Isso organiza melhor a rede de produção.


    7. O método do próprio curso

    Andre compartilha seu procedimento:

    • Grava os encontros
    • Transcreve
    • Usa um projeto específico para sintetizar
    • Revisa criticamente o resultado

    O curso não apenas fala de coescrita.
    Ele pratica coescrita.


    8. Síntese conceitual do segundo encontro

    O encontro consolida cinco aprendizados:

    1. A ação é distribuída (TAR).
    2. O texto emerge de redes.
    3. A IA altera a ecologia cognitiva.
    4. Autoria é relacional.
    5. Uso consciente exige compreender memória e contexto.

    9. Movimento pedagógico da turma

    Se no primeiro encontro predominava a curiosidade e o receio,
    no segundo há deslocamento conceitual.

    A pergunta deixa de ser:

    “Como usar a IA?”

    E passa a ser:

    “Que tipo de ambiente cognitivo estamos construindo?”


    Leia mais:

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  • Fichamento – Flusser

    Os principais conceitos de A escrita: Há futuro para a escrita? (1989), de Vilém Flusser, organizam-se em torno de uma questão central:

    O que acontece com a escrita alfabética na era das imagens técnicas e da computação?

    📘 Estrutura 

    O livro tem uma estrutura ensaística, mas bastante arquitetônica. Ele não é dividido como um tratado sistemático clássico, e sim como um percurso conceitual que acompanha a transformação dos códigos culturais.

    A organização pode ser compreendida em quatro grandes movimentos:


    1️⃣ A escrita como código histórico

    Flusser começa analisando:

    • A invenção da escrita alfabética
    • A linearidade como estrutura do pensamento histórico
    • A relação entre escrita, consciência histórica e racionalidade

    Aqui a tese central é:

    A escrita linear produziu a história, o pensamento causal e a ideia de progresso.

    A escrita não é apenas meio de registro — é uma tecnologia formadora de mundo.


    2️⃣ A crise da escrita

    Depois ele introduz o diagnóstico:

    • A escrita está sendo deslocada pelas imagens técnicas
    • O pensamento linear perde hegemonia
    • A cultura entra em um regime “pós-histórico”

    Ele argumenta que as imagens técnicas (fotografia, cinema, televisão — e hoje poderíamos incluir IA) reorganizam a experiência de modo não-linear e programado.


    3️⃣ Da história à pós-história

    Aqui está o núcleo filosófico mais forte do livro.

    Flusser descreve:

    • A passagem do tempo narrativo para o tempo programado
    • O deslocamento do sujeito histórico para o operador de aparelhos
    • A substituição do projeto aberto por combinações previstas

    O mundo deixa de ser narrativo e passa a ser operacional.


    4️⃣ O futuro da escrita

    O livro termina com uma pergunta especulativa:

    • A escrita vai desaparecer?
    • Ou será reconfigurada?

    Flusser sugere que a escrita pode sobreviver se abandonar sua função histórica tradicional e se tornar:

    • Diálogo
    • Programa
    • Estrutura relacional
    • Escrita computacional

    Ou seja, a escrita deixa de ser linear e passa a operar como código em rede.


    🧠 Estrutura profunda do livro

    Podemos sintetizar a arquitetura conceitual assim:

    FaseCódigo dominanteForma de tempoForma de consciência
    Pré-históriaImagem tradicionalMíticoCircular
    HistóriaEscrita linearNarrativoProgressivo
    Pós-históriaImagem técnicaProgramadoOperacional

    Essa tabela não aparece explicitamente assim no livro, mas é a estrutura implícita que organiza o argumento.


    📌 Observação importante

    O livro não é dividido em “partes” rígidas como a Crítica da Razão Pura. Ele é estruturado por:

    • capítulos curtos
    • ensaios interligados
    • movimentos conceituais progressivos

    A unidade é filosófica, não editorial.


     estruturalmente, o livro é esse percurso:

    da escrita histórica → à crise → à pós-história → à possível reinvenção da escrita.

    Abaixo está um mapa conceitual sintético dos núcleos fundamentais do livro.


    1. Escrita como código linear

    • A escrita alfabética organiza o pensamento de forma linear, sequencial e histórica.
    • Ela estrutura a consciência ocidental como narrativa.
    • A história depende da escrita para existir como processo interpretável.

    Ideia-chave: escrever é alinhar o pensamento no tempo.


    2. Imagens técnicas

    • Diferentes das imagens tradicionais (pintura, ícone), as imagens técnicas são produzidas por aparelhos (fotografia, cinema, vídeo).
    • Elas não representam diretamente o mundo, mas programas que representam o mundo.
    • Produzem uma nova forma de imaginação: não mais narrativa, mas configuracional.

    Ideia-chave: a cultura passa da linha para a superfície.


    3. Aparelho e programa

    • O fotógrafo não é totalmente livre: ele opera dentro das possibilidades do aparelho.
    • A criatividade torna-se exploração combinatória do programa.
    • O aparelho contém virtualidades pré-programadas.

    Ideia-chave: a liberdade torna-se cálculo de possibilidades.


    4. Pós-história

    • Se a história nasce com a escrita linear, a sociedade programada entra em uma fase pós-histórica.
    • O tempo deixa de ser narrativa aberta e torna-se probabilidade.
    • Eventos passam a ser combinações previsíveis dentro de sistemas.

    Ideia-chave: o futuro torna-se programável.


    5. Texto versus cálculo

    Flusser antecipa algo decisivo:

    • O alfabeto pode ser substituído por códigos numéricos.
    • A escrita pode migrar para o cálculo.
    • O pensamento torna-se operacional.

    Ele pergunta implicitamente:

    A escrita sobreviverá como gesto crítico ou será absorvida pelo código digital?


    6. A crise da consciência histórica

    Se a escrita perde centralidade:

    • Perdemos também a forma histórica de pensar.
    • A crítica, baseada na argumentação linear, enfraquece.
    • A cultura torna-se mais imagética, menos discursiva.

    7. A possibilidade de uma nova escrita

    Flusser não é nostálgico.

    Ele sugere que pode surgir:

    • Uma escrita pós-alfabética.
    • Um pensamento que combine cálculo e crítica.
    • Uma nova forma de responsabilidade diante dos programas.

    Síntese estrutural

    Podemos condensar o livro em três movimentos:

    1. A escrita criou a história.
    2. As imagens técnicas dissolvem a história.
    3. Precisamos reinventar a escrita dentro da cultura dos aparelhos.


    🎞️ Trecho 1 — A máquina que escreve e pensa (p20)

    🗣️ Trecho

    “O que se tem em mente aqui não são máquinas de escrever, no sentido tradicional dessa palavra (…). Aqui, temos em mente verdadeiras máquinas de escrever (inteligência artificial), que providenciam elas próprias essa organização. Tais máquinas não são, para dizer a verdade, apenas de escrever, mas também máquinas pensantes, o que deveria nos levar a refletir sobre o futuro da escrita e, de maneira geral, a respeito do pensar.”

    🧠 Comentário

    Aqui está o núcleo do livro.

    Flusser não fala de automação mecânica, mas de organização simbólica automatizada.

    Se:

    • escrever = organizar signos
    • pensar = organizar signos segundo regras

    então a IA participa do campo do pensamento.

    Ele desloca a pergunta da consciência para a estrutura.

    📌 O problema não é “a máquina tem mente?”
    O problema é: o que é mente, se ela pode ser formalizada?


    🎞️ Trecho 2 — A matematização do sensível (p43)

    🗣️ Trecho

    “Os números nos permitirão, num futuro próximo, ver sons e ouvir imagens. O ‘intermix eletrônico’ faz com que a fronteira entre a música e as artes plásticas, sob o domínio da matemática, se dissolva. (…) Os números do céu platônico se transformam em inteligência artificial para servir à nossa força da imaginação.”

    🧠 Comentário

    Digitalizar é traduzir tudo para número.

    Som, imagem e texto deixam de ser ontologicamente distintos.
    Tornam-se efeitos de processamento matemático.

    Flusser sugere um “platonismo realizado”:

    • Antes: números eram Ideias.
    • Agora: números são código operacional.

    📌 A matemática deixa de ser metafísica e vira infraestrutura.


    🎞️ Trecho 3 — Novos iletrados e nova casta (p70)

    🗣️ Trecho

    “Com os novos códigos dos computadores, tornamo-nos iletrados de novo. Surgiu uma nova casta de letrados. As novas obras escritas (os programas de computadores) estão mergulhadas, para a maior parte de nós, num mar de segredo (…). Aquilo que é indecifrável é um segredo horroroso; diante dele ajoelhamo-nos.”

    🧠 Comentário

    A tipografia democratizou o alfabeto.
    A informática cria novo sacerdócio.

    Quem domina o código domina:

    • o fluxo da informação,
    • os critérios de associação,
    • a arquitetura da experiência.

    📌 O segredo técnico substitui o segredo teológico.

    A política desloca-se para o programa.


    🎞️ Trecho 4 — A volta da oralidade técnica (p77)

    🗣️ Trecho

    “A língua falada, então desligada do alfabeto, vai inundar o cenário. Discos, fitas e imagens que falam vão vociferar na sociedade e cochichar-lhe. Até mesmo a inteligência artificial vai aprender a falar.”

    🧠 Comentário

    A escrita tipográfica disciplinou a fala.

    Agora a fala retorna — mas mediada por aparelhos.

    Não é oralidade primitiva.
    É oralidade programada.

    📌 A linguagem deixa de ser exclusivamente intersubjetiva e torna-se também técnico-interativa.


    🎞️ Trecho 5 — O futuro da poesia (p90)

    🗣️ Trecho

    “Haverá inteligência artificial com habilidade para falar, que declamará (…) uma corrente ininterrupta de poemas sempre novos (…). E, por outro lado, informadores deixarão surgir diante de nós nas telas (…) poemas alfabéticos (…) por meio de um jogo de permutação.”

    🧠 Comentário

    Dois regimes:

    1. Poesia performática automática.
    2. Poesia combinatória textual.

    Se poesia é jogo de linguagem,
    ela pode ser programada.

    📌 A criatividade torna-se estatística?

    Ou a estatística torna-se novo campo de imaginação?


    🎞️ Trecho 6 — O futuro da leitura (p167)

    🗣️ Trecho

    “O ‘leitor’ do futuro senta-se diante da tela (…). Não se trata mais de uma leitura passiva (…). Trata-se muito mais de uma associação ativa de ligações transversais (…). É o próprio ‘leitor’ que produz, então, a informação.”

    🧠 Comentário

    Fim da linearidade.

    Literatura vira banco de dados.
    Leitura vira navegação.

    O leitor torna-se operador.

    📌 A obra deixa de ser totalidade e torna-se campo de montagem.

    Pergunta crucial:
    Ainda sabemos ler como experiência de duração?


    🎞️ Trecho 7 — A revolução é política (p131-132)

    🗣️ Trecho

    “A revolução da informática é política: a cidade sucumbe; e é cultural: a cultura escrita sucumbe. (…) As vitrines das papelarias querem sepultar o papel e não enaltecê-lo.”

    🧠 Comentário

    O papel simboliza:

    • fixidez,
    • memória,
    • permanência.

    A informática promete:

    • fluidez,
    • eficiência,
    • economia.

    Mas ao sepultar o papel, sepulta-se também o regime político da escrita.

    📌 A polis tipográfica dá lugar à polis algorítmica.


    🎞️ Trecho 8 — Esquecer como reaprendizagem (p163)

    🗣️ Trecho

    “Temos de aprender que, da mesma maneira, é importante ser apagado da memória. (…) Imortalidade e morte significam reaprender.”

    🧠 Comentário

    A escrita cultuava a imortalidade simbólica.

    O digital acumula tudo — mas talvez precise apagar.

    Esquecer pode ser condição de reinvenção.

    📌 Memória infinita não é necessariamente liberdade.


    🎞️ Trecho 9 — O jardim de infância (p171)

    🗣️ Trecho

    “Teremos de voltar ao jardim de infância. (…) O que faremos, quando sentarmos diante de nossos minitels, apples e commodores, será de tal forma primitivo (…) que isso é apenas uma caricatura do pensamento.”

    🧠 Comentário

    Adultos tipográficos tornam-se aprendizes digitais.

    Risco:

    • infantilização,
    • ludicização superficial,
    • caricatura do pensamento.

    Mas talvez seja transição para outra forma de racionalidade.

    📌 Estamos regredindo ou nos transformando?


    🎞️ A grande síntese

    A mudança não é tecnológica.

    É epistemológica.

    ALFABETO
    → linearidade
    → história
    → memória
    → autor

    INFORMÁTICA
    → número
    → programa
    → associação
    → leitor-operador

    Tese final

    Quando o código dominante muda, muda a forma da consciência.


    FLUSSER, Vilém. A escrita: Há futuro para a escrita? (1989) São Paulo: Annablume, 2010.