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    O ecossistema cibernético

    Resumo detalhado do quarto encontro

    Curso de Coescrita com Inteligência Artificial – Turma 5
    Data: 06/03/2026

    Introdução do encontro

    O último encontro do curso teve um caráter mais reflexivo e experimental, combinando quatro momentos principais:

    1. uma conversa aberta sobre as experiências dos participantes com inteligência artificial ao longo do curso;
    2. debate sobre o percurso conceitual, retomando algumas das transformações culturais associadas às tecnologias digitais e à inteligência artificial.
    3. a exibição e discussão de um curta-metragem experimental do cineasta chinês Jia Zhangke;
    4. uma atividade prática de conversa coletiva mediada por IA, realizada dentro do próprio ambiente do ChatGPT.

    Andre inicia a aula explicando a dinâmica do encontro. A ideia era primeiro ouvir os colegas sobre as experiências que tiveram durante o curso, depois apresentar um vídeo recente que dialogava diretamente com o tema da autoria na era da inteligência artificial, e finalmente realizar um experimento prático envolvendo interação coletiva com um sistema de IA.


    1. Debate inicial: autoria, ética e crise da escrita

    A primeira parte do encontro foi marcada por uma conversa aberta entre os participantes, que compartilharam dúvidas, inquietações e experiências práticas com o uso da IA.

    Uma das participantes relatou um dilema vivido recentemente em seu trabalho. Ela escreve profissionalmente e havia utilizado o ChatGPT para reescrever algumas frases de um texto que estava produzindo. O sistema sugeriu reformulações que ela considerou boas, mas, ao utilizar essas ideias, surgiu uma dúvida ética:

    utilizar a IA dessa maneira seria uma forma de fraude?

    A pergunta revelou uma tensão comum entre profissionais da escrita no momento atual: a sensação de que o uso da IA pode colocar em questão a própria identidade do autor.

    Andre responde a essa inquietação situando o problema dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, a questão central não é necessariamente o uso da IA em si, mas a relação de transparência com o leitor, o contratante ou o contexto em que o texto será publicado.

    Ele menciona também um episódio recente envolvendo uma colunista da Folha de S.Paulo, no qual o uso de IA na produção de textos gerou forte reação pública quando foi descoberto que a autora utilizava o recurso sem informar explicitamente aos leitores. O caso ilustra como a discussão sobre IA ainda está em processo de formação e envolve expectativas culturais sobre autoria e autenticidade.

    Outro participante reforça que muitos profissionais estão vivendo algo semelhante: uma espécie de crise de identidade da escrita, na qual as fronteiras entre autoria humana e colaboração com sistemas técnicos ainda estão sendo negociadas.


    2. IA, empatia e comunicação médica

    Durante a conversa, Andre menciona também um exemplo discutido na imprensa internacional sobre o impacto da inteligência artificial na comunicação médica.

    Ele cita um ensaio publicado em 5 de outubro de 2024 no The New York Times, escrito pelo médico de emergência Jonathan Reisman, intitulado “Eu sou médico. O comportamento humano do ChatGPT é melhor que o meu.”

    No texto, o autor relata que, durante muito tempo, acreditou que a inteligência artificial poderia eventualmente superar os médicos nos aspectos técnicos da medicina — como diagnóstico ou análise de exames —, mas que o lado humano da profissão, especialmente a empatia e a comunicação com pacientes, permaneceria exclusivamente humano.

    No entanto, com o surgimento de modelos de linguagem como o ChatGPT, ele passou a reconsiderar essa ideia.

    O médico menciona estudos em que respostas do ChatGPT a perguntas de pacientes foram avaliadas como mais empáticas e de maior qualidade do que respostas escritas por médicos. A razão para isso, segundo ele, está no fato de que a comunicação empática na medicina muitas vezes segue estruturas relativamente padronizadas.

    Durante sua formação, por exemplo, ele participou de treinamentos específicos sobre como comunicar más notícias a pacientes, como o diagnóstico de câncer. Nesse tipo de situação, os estudantes aprendem uma espécie de roteiro: evitar termos excessivamente técnicos, dizer claramente a palavra “câncer”, fazer pausas para permitir que o paciente processe a informação e formular frases que expressem cuidado, como “eu gostaria de ter notícias melhores”.

    Inicialmente, o autor estranhou a ideia de que empatia pudesse ser ensinada como um conjunto de passos quase coreografados. No entanto, com a experiência prática, percebeu que esses roteiros ajudam a tornar situações extremamente difíceis mais humanas e mais compreensíveis para os pacientes.

    Esse exemplo é usado na aula para mostrar que muitos aspectos da comunicação humana envolvem padrões linguísticos aprendidos socialmente. Modelos de linguagem conseguem reproduzir esses padrões com grande eficiência, o que explica por que, em certos contextos, suas respostas podem parecer particularmente cuidadosas ou empáticas.

    Ao mesmo tempo, o exemplo reforça um ponto importante discutido no curso: embora a IA possa reproduzir formas linguísticas de empatia, isso não significa que ela possua sentimentos ou experiência subjetiva. O que ela produz são estruturas de linguagem que simulam padrões humanos de comunicação, aprendidos a partir de grandes volumes de texto.

    Assim, a inteligência artificial pode funcionar como apoio à comunicação, inclusive em contextos delicados, mas continua sendo um sistema técnico que opera a partir de padrões estatísticos da linguagem.


    3. Desigualdade de acesso às tecnologias

    Outro tema importante levantado pelos participantes foi a questão da desigualdade no acesso às tecnologias de IA.

    Um dos alunos observa que, ao longo do curso, ficou claro que as versões pagas dos sistemas de IA oferecem recursos significativamente mais avançados do que as versões gratuitas. Isso levanta uma preocupação:

    se o acesso às ferramentas mais sofisticadas depender de pagamento, a inteligência artificial poderá ampliar desigualdades sociais e cognitivas já existentes.

    A discussão destaca que a revolução da IA não é apenas tecnológica, mas também econômica e social, pois o acesso às ferramentas influencia diretamente as possibilidades de uso e experimentação.

    Dados complementares

    O Brasil alcançou uma quase universalização técnica do acesso digital, mas não necessariamente das competências de leitura e interpretação necessárias para navegar nesse ambiente. Em 2024, 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram a internet, e 98,8% desses usuários acessam por celular. Ao mesmo tempo, o analfabetismo ainda atinge 5,3% da população de 15 anos ou mais, e o analfabetismo funcional chega a cerca de 29% entre 15 e 64 anos. Ou seja: a conexão se espalhou mais rápido que a capacidade plena de leitura e compreensão.

    Esse descompasso fica ainda mais visível quando observamos a velocidade de difusão das novas tecnologias digitais. O ChatGPT atingiu cerca de 1 milhão de usuários em apenas 5 dias após o lançamento e chegou a 100 milhões de usuários em cerca de dois meses, tornando-se um dos serviços digitais com crescimento mais rápido da história. Para comparação, o Instagram levou cerca de dois anos e meio para alcançar 100 milhões de usuários, e o Facebook levou mais de quatro anos.

    Isso mostra que vivemos uma aceleração radical na circulação de tecnologias cognitivas. Em poucas semanas, ferramentas capazes de produzir textos, códigos e imagens chegam a dezenas ou centenas de milhões de pessoas. No entanto, as habilidades necessárias para interpretar criticamente informação, avaliar respostas ou usar essas ferramentas de forma reflexiva dependem de processos educacionais muito mais lentos.

    Assim, convivem duas temporalidades distintas: a velocidade exponencial da difusão tecnológica e a lentidão estrutural da formação educacional. O resultado é uma sociedade em que quase todos estão conectados, muitos têm acesso a ferramentas de inteligência artificial, mas uma parcela significativa ainda enfrenta dificuldades básicas de leitura e interpretação — justamente as competências que mais influenciam o uso crítico dessas tecnologias.

    Aqui estão as principais fontes confiáveis para cada dado citado:


    Acesso à internet no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua TIC

    • 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram internet em 2024.
    • 98,8% dos usuários acessaram via telefone celular.

    Fonte:
    IBGE. PNAD Contínua: Tecnologia da Informação e Comunicação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44033-pela-primeira-vez-mais-da-metade-da-populacao-acessa-a-internet-pela-tv


    Analfabetismo no Brasil

    IBGE – PNAD Contínua Educação

    • 5,3% da população de 15 anos ou mais é analfabeta.
    • Cerca de 9,1 milhões de pessoas.

    Fonte:
    IBGE. Indicadores de Educação 2024.
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta


    Analfabetismo funcional

    INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional

    • 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional.

    Fonte:
    INAF 2024 – Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa.
    https://alfabetismofuncional.org.br/relatorios

    Relatório:
    https://alfabetismofuncional.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Relatorio_Inaf_2024.pdf


    Crescimento do ChatGPT

    • 1 milhão de usuários em 5 dias.
    • 100 milhões de usuários em cerca de 2 meses.

    Fontes:

    Reuters
    https://www.reuters.com/technology/chatgpt-sets-record-fastest-growing-user-base-analyst-note-2023-02-01/

    UBS Evidence Lab report (2023)

    Also reported by:
    Nature
    https://www.nature.com/articles/d41586-023-00288-7


    Comparação com outras plataformas

    Estudos sobre crescimento de plataformas digitais:

    Statista
    https://www.statista.com/chart/27784/time-to-reach-100-million-users/

    Exemplos:

    • ChatGPT — ~2 meses
    • TikTok — ~9 meses
    • Instagram — ~2,5 anos
    • Facebook — ~4,5 anos

    O Overmundo e as transformações da cultura digital

    Na aula comentamos um pouco sobre o Overmundo, um dos projetos mais interessantes da cultura digital brasileira dos anos 2000. Lançado em 2006, o site foi criado como uma plataforma colaborativa para divulgar a diversidade cultural do Brasil. Qualquer pessoa podia publicar textos, relatos, músicas, vídeos ou registros de eventos culturais de sua cidade. Outros usuários comentavam, editavam e votavam nos conteúdos. A ideia era criar um grande mapa coletivo da cultura brasileira, especialmente da produção que não aparecia na grande mídia.

    Naquele momento da internet, o modelo fazia muito sentido. A participação online ainda era muito marcada pela escrita: blogs, fóruns e portais colaborativos. O Overmundo funcionava como uma espécie de grande blog coletivo nacional.

    Na época, participei do projeto como overmano na Bahia, ajudando a acompanhar e estimular as contribuições da comunidade local. Foi uma experiência interessante de cultura digital colaborativa, em que pessoas de diferentes regiões do país compartilhavam suas cenas culturais, festas, artistas e iniciativas.

    Com o tempo, porém, o ecossistema da internet mudou bastante. A circulação cultural passou a acontecer principalmente por vídeos, redes sociais e podcasts. Formatos mais rápidos e audiovisuais ganharam espaço, enquanto a produção de textos mais longos foi perdendo centralidade. Talvez por isso projetos baseados na escrita colaborativa, como o Overmundo, tenham perdido espaço diante das novas plataformas.

    Mesmo assim, o Overmundo permanece como um marco importante da cultura digital brasileira, porque antecipou muitas ideias que hoje são comuns na internet: participação coletiva, circulação descentralizada de informação e valorização das culturas locais.

    Mais informações: https://pt.wikipedia.org/wiki/Overmundo 

    IA, oralidade e transformações culturais da escrita

    Outro ponto discutido no encontro foi a possibilidade de que a inteligência artificial esteja provocando uma mudança mais profunda na história das formas de comunicação: um retorno parcial da oralidade mediada por tecnologia.

    Durante vários séculos, a escrita ocupou uma posição central na organização do conhecimento, especialmente nas sociedades ocidentais. A escrita permitiu registrar informações, construir arquivos, desenvolver sistemas jurídicos e organizar instituições complexas. Ao mesmo tempo, ela também funcionou como uma barreira cultural e social, porque exige alfabetização, treinamento e domínio de códigos formais relativamente rígidos.

    Historicamente, a cultura escrita esteve fortemente associada às instituições do mundo europeu moderno: universidades, burocracias estatais, ciência moderna e sistemas administrativos. Em muitos contextos, participar plenamente da vida intelectual e institucional exigia dominar formas específicas de escrita — relatórios, artigos acadêmicos, textos técnicos — que nem sempre eram acessíveis a todos.

    A inteligência artificial pode alterar parcialmente esse cenário.

    Modelos de linguagem permitem interagir com sistemas complexos de informação por meio de linguagem natural, aproximando a comunicação digital de formas mais próximas da conversa. Em vez de escrever textos longos ou dominar formatos rígidos, muitas tarefas podem ser realizadas por meio de perguntas, diálogos ou comandos relativamente simples.

    Além disso, novas interfaces baseadas em voz — como sistemas de reconhecimento e síntese de fala — estão aproximando ainda mais essas tecnologias de formas orais de interação. Nesse sentido, a IA pode ser vista como parte de um movimento que reaproxima certas dimensões da comunicação digital da oralidade.

    Esse fenômeno tem implicações culturais mais amplas.

    Durante muito tempo, a centralidade da escrita reforçou padrões culturais associados ao eurocentrismo, já que as formas dominantes de produção e validação do conhecimento foram historicamente definidas a partir de instituições e tradições intelectuais europeias. A necessidade de dominar determinados estilos de escrita acadêmica ou burocrática funcionava como um filtro de participação.

    Quando a interação com sistemas de informação passa a ocorrer de forma mais conversacional, parte dessas barreiras pode se reduzir. Pessoas com diferentes níveis de formação escrita podem acessar informações, produzir textos ou participar de processos de criação intelectual por meio de interfaces mais próximas da fala e do diálogo.

    Isso não significa o desaparecimento da escrita — que continua sendo fundamental para a organização do conhecimento —, mas pode indicar uma transformação no equilíbrio entre diferentes formas de comunicação.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode contribuir para um ambiente cultural mais plural, no qual diferentes modos de expressão — escritos, orais e híbridos — coexistem e participam da produção de conhecimento.

    Essa transformação também dialoga com discussões contemporâneas sobre tecnodiversidade, nas quais diferentes culturas e tradições podem desenvolver modos próprios de interação com as tecnologias digitais, em vez de reproduzir apenas modelos estabelecidos em contextos históricos específicos.

    Infraestrutura tecnológica, poder e o desenvolvimento da IA

    No debate final do curso também aparece uma questão mais ampla sobre quem desenvolve as tecnologias que estamos utilizando.

    Andre observa que muitas das tecnologias digitais que estruturam a vida contemporânea tiveram origem em programas militares ou estatais de pesquisa. A internet, por exemplo, surgiu a partir de um projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos nos anos 1960. O GPS foi inicialmente desenvolvido para fins militares. Sensores digitais usados em câmeras e satélites também nasceram em contextos ligados à defesa e à vigilância.

    Esse padrão histórico revela um movimento recorrente: tecnologias criadas em ambientes de pesquisa estratégica acabam, com o tempo, sendo incorporadas ao cotidiano civil.

    Hoje, no entanto, parte desse processo ocorre de maneira diferente. Muitas das infraestruturas digitais utilizadas diariamente — sistemas de nuvem, plataformas de software e ferramentas de inteligência artificial — são desenvolvidas por grandes empresas privadas que também mantêm contratos com governos e setores militares.

    Esse cenário levanta novas questões. Quando usuários criticam ou tentam boicotar determinadas plataformas, muitas vezes o foco recai sobre aplicativos visíveis, como redes sociais ou assistentes de IA. No entanto, grande parte da infraestrutura digital — servidores, sistemas de armazenamento e redes de processamento — permanece invisível para o usuário comum.

    Sociólogos da tecnologia descrevem esse fenômeno como invisibilidade da infraestrutura: quando uma tecnologia se torna base de funcionamento de um sistema, ela deixa de ser percebida como uma escolha individual e passa a constituir simplesmente o ambiente no qual outras atividades ocorrem.

    Nesse contexto, a inteligência artificial pode estar entrando em um processo semelhante. Embora hoje ainda apareça principalmente como ferramenta ou aplicativo, ela está sendo progressivamente integrada a mecanismos de busca, softwares de trabalho, sistemas educacionais e plataformas digitais.

    Outra possibilidade discutida é que, se empresas privadas começarem a impor limites ao uso militar de seus sistemas, governos podem optar por desenvolver suas próprias inteligências artificiais, dentro de programas estatais ou militares de pesquisa. Historicamente, isso já ocorreu com várias tecnologias estratégicas.

    Essa discussão conecta-se também com temas abordados ao longo do curso, como tecnodiversidade e autonomia tecnológica. Se diferentes países ou instituições passam a desenvolver seus próprios sistemas de inteligência artificial, surgem perguntas importantes sobre valores, interesses e modelos culturais incorporados nessas tecnologias.

    Assim, a questão não é apenas quem utiliza a inteligência artificial, mas também quem a desenvolve, em que contextos institucionais e com quais objetivos.

    Modelos globais de desenvolvimento da inteligência artificial

    Outra discussão relacionada ao tema da infraestrutura tecnológica envolve as diferenças entre os ecossistemas de IA em diferentes regiões do mundo, especialmente entre Estados Unidos e China.

    Andre menciona que o acesso às plataformas de inteligência artificial não é uniforme globalmente. Na China, por exemplo, muitas ferramentas ocidentais — como o ChatGPT ou sistemas de empresas norte-americanas — são geralmente bloqueadas ou de difícil acesso. Como resultado, a maior parte dos usuários utiliza modelos desenvolvidos por empresas chinesas.

    Entre os sistemas mais conhecidos estão:

    • ERNIE Bot, da Baidu
    • Qwen, da Alibaba
    • DeepSeek
    • além de projetos de empresas como Tencent e ByteDance.

    Pesquisadores e alguns usuários especializados conseguem acessar sistemas estrangeiros utilizando VPN, mas isso não representa o padrão da maioria dos usuários.

    Outro aspecto relevante é o modelo econômico dessas plataformas.

    Em muitos casos, o uso básico das IAs na China tende a ser gratuito para usuários comuns, enquanto empresas pagam principalmente pelo uso de APIs ou pela integração dos modelos em serviços comerciais.

    Um exemplo que ganhou destaque internacional é o sistema DeepSeek, que se tornou conhecido por oferecer modelos de linguagem com custos muito baixos, especialmente para desenvolvedores e empresas.

    Esse modelo se sustenta por diferentes estratégias:

    • integração da IA em grandes plataformas digitais (busca, comércio eletrônico, redes sociais);
    • venda de serviços de IA para empresas;
    • infraestrutura computacional otimizada;
    • e, em alguns casos, apoio indireto do Estado como parte de estratégias nacionais de desenvolvimento tecnológico.

    Essa diferença ajuda a entender um contraste interessante entre os dois ecossistemas tecnológicos.

    Nos Estados Unidos e em parte do Ocidente, muitos sistemas de IA dependem de modelos de assinatura e monetização direta. Já na China, a tendência tem sido integrar os sistemas de inteligência artificial diretamente em aplicativos e plataformas digitais amplamente utilizados, buscando adoção massiva da tecnologia.

    Para a discussão do curso, essa comparação ajuda a reforçar uma ideia importante: a inteligência artificial não é apenas um fenômeno técnico, mas também econômico, político e cultural. Diferentes sociedades podem desenvolver modelos distintos de tecnologia, com implicações variadas para acesso, custo e formas de uso.

    Esse cenário também dialoga com a discussão sobre tecnodiversidade, apresentada em encontros anteriores, sugerindo que o desenvolvimento da inteligência artificial pode seguir caminhos múltiplos, dependendo das condições culturais, econômicas e institucionais de cada região do mundo.


    4. Exibição do curta sobre IA e autoria

    Após a conversa inicial, Andre apresenta um vídeo recente envolvendo o cineasta chinês Jia Zhangke.

    O curta-metragem funciona como um experimento artístico no qual o diretor dialoga com uma versão digital de si mesmo criada por inteligência artificial.

    A obra explora vários temas centrais discutidos no curso:

    • autoria na era da inteligência artificial
    • a ideia de um duplo digital
    • a relação entre imperfeição humana e perfeição algorítmica
    • os limites entre criação humana e geração automática.

    No diálogo apresentado no filme, a inteligência artificial tenta melhorar o roteiro e torná-lo mais agradável ao público, enquanto o diretor defende a importância da expressão pessoal do artista, mesmo quando essa expressão inclui imperfeições.

    Essa tensão entre eficiência algorítmica e subjetividade humana torna o curta um exemplo interessante para refletir sobre a criação artística na era da IA.


    5. Discussão do curta

    Após a exibição, o grupo discute as questões levantadas pelo filme.

    Entre os temas debatidos estão:

    • quem pode ser considerado autor quando uma obra envolve colaboração com IA;
    • se a inteligência artificial tende a produzir conteúdos mais “perfeitos” ou mais padronizados;
    • o papel da imperfeição humana na criação artística.

    A discussão reforça uma ideia recorrente ao longo do curso: a inteligência artificial não precisa ser entendida como substituta da criatividade humana, mas como participante de um processo de coescrita ou cocriarão.

    Arte e Anti-ambiente em Marshall McLuhan

    Marshall McLuhan afirma que cada tecnologia ou meio de comunicação cria um ambiente que molda nossa forma de perceber o mundo. Esses ambientes são tão presentes em nossa vida cotidiana que normalmente se tornam invisíveis para nós. Por exemplo, a escrita, a televisão ou a internet modificam nossa maneira de pensar, comunicar e organizar a experiência, mas raramente percebemos esses efeitos enquanto estamos imersos neles.

    Nesse contexto, McLuhan diz que a arte funciona como um anti-ambiente. Isso significa que a arte cria um contraste que torna visível o ambiente em que vivemos. Ao romper hábitos de percepção, o artista revela aspectos da cultura e das tecnologias que normalmente passam despercebidos. A arte, portanto, não é apenas expressão estética ou entretenimento, mas também um instrumento de consciência e reflexão.

    Quando uma obra artística provoca estranhamento, experimenta novas formas ou reorganiza a percepção, ela ajuda o público a perceber o impacto dos meios e das mudanças culturais. Por isso, McLuhan considera o artista uma espécie de “radar da sociedade”, capaz de perceber transformações culturais antes que elas se tornem evidentes para todos.

    Assim, a arte como anti-ambiente tem uma função importante: tornar visível o invisível, revelando os efeitos dos meios e ampliando nossa consciência sobre o mundo em que vivemos.


    6. Experimento final: conversa em grupo com IA

    Na última parte do encontro, Andre propõe um experimento prático.

    Até aquele momento, a maioria das interações com sistemas de IA havia ocorrido de forma individual, com cada usuário conversando separadamente com o sistema.

    A atividade consistiu em testar uma dinâmica diferente: uma conversa coletiva dentro do ambiente do ChatGPT, envolvendo vários participantes ao mesmo tempo.

    O objetivo era observar:

    • como a IA interpreta perguntas feitas por diferentes pessoas;
    • como ela organiza o contexto de uma discussão coletiva;
    • e como responde a múltiplas intervenções dentro de uma mesma conversa.

    A experiência permitiu perceber que os modelos de linguagem podem atuar não apenas como assistentes individuais de escrita, mas também como mediadores de conversas coletivas, participando de processos colaborativos de pensamento e discussão.


    7. Encerramento do encontro e do curso

    Para concluir o último encontro, Andre retoma uma reflexão histórica sobre as expectativas culturais que sempre acompanharam o desenvolvimento das tecnologias digitais.

    Ele menciona um poema escrito em 1967 pelo poeta americano Richard Brautigan, intitulado All Watched Over by Machines of Loving Grace.

    O texto tornou-se um símbolo da imaginação tecnológica da contracultura da Califórnia nos anos 1960. Naquele momento, os primeiros computadores começavam a aparecer em universidades e laboratórios, e alguns pensadores imaginavam que essas novas tecnologias poderiam contribuir para uma sociedade mais equilibrada, em que tecnologia, natureza e humanidade coexistissem de forma harmônica.

    O poema de Brautigan descreve justamente essa visão: um futuro em que computadores fariam parte de um ecossistema cibernético, convivendo com animais, florestas e seres humanos. Em vez de dominar a natureza, as máquinas ajudariam a organizar o mundo de maneira quase invisível, permitindo que as pessoas voltassem a viver de forma mais livre.

    Andre observa que essa imagem poética mistura três correntes culturais muito presentes naquela época:

    • a contracultura hippie, que defendia um retorno à natureza;
    • o entusiasmo científico com a cibernética e os primeiros computadores;
    • e a esperança de que novas tecnologias digitais pudessem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada.

    Décadas depois, essa metáfora voltou a circular no debate contemporâneo sobre inteligência artificial. O pesquisador Dario Amodei, por exemplo, retomou a expressão de Brautigan em um ensaio recente sobre o futuro da IA, intitulado “Machines of Loving Grace”. No texto, ele sugere que sistemas avançados de inteligência artificial poderiam contribuir para acelerar descobertas científicas, melhorar tratamentos médicos e ampliar as capacidades humanas.

    Andre observa que essa coincidência histórica é interessante: um pequeno poema escrito na década de 1960 acabou se transformando, décadas depois, em uma espécie de antecipação cultural das discussões atuais sobre inteligência artificial.

    Ao encerrar o curso, Andre sugere que a relação entre humanos e máquinas sempre foi acompanhada por imaginação, esperança e também inquietação. A inteligência artificial não surge apenas como uma tecnologia técnica, mas como parte de uma longa história cultural de expectativas sobre o papel das máquinas na vida humana.

    Nesse sentido, a prática da coescrita com IA, explorada ao longo do curso, pode ser vista como um exemplo concreto dessa nova etapa: uma forma de interação em que humanos e sistemas técnicos passam a colaborar na produção de linguagem, ideias e conhecimento.


    Todos vigiados por máquinas de graça amorosa

    (Richard Brautigan, 1967 – tradução livre)

    Gosto de pensar (e quanto antes melhor!)
    num prado cibernético
    onde mamíferos e computadores
    vivam juntos
    em harmonia mutuamente programada
    como água pura
    tocando um céu claro.

    Gosto de pensar
    (agora mesmo, por favor!)
    numa floresta cibernética
    repleta de pinheiros e eletrônica
    onde os cervos caminhem tranquilamente
    passando pelos computadores
    como se fossem flores.

    Gosto de pensar
    (e quanto antes melhor!)
    numa ecologia cibernética
    onde nós estejamos livres do nosso trabalho
    e de volta à natureza,
    retornados aos nossos irmãos e irmãs mamíferos,

    e todos vigiados
    por máquinas
    de graça amorosa.

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    Terceiro Encontro – 03 de março de 2026


    1. Abertura do encontro

    O encontro começa com uma conversa informal sobre livros e materiais sobre inteligência artificial. Andre observa que produzir manuais sobre IA é uma tarefa difícil, porque a tecnologia muda muito rapidamente.

    Modelos são atualizados constantemente e isso altera práticas, estratégias e até o tipo de resposta que o sistema produz.

    A partir dessa observação inicial, Andre destaca um ponto importante para o curso:

    • aprender IA não significa decorar regras fixas
    • significa experimentar continuamente

    O curso, portanto, é estruturado como um laboratório de experimentação.


    2. Relatos de experiências dos participantes

    Andre abre a aula perguntando como foram as experiências da turma com o modelo durante a semana.

    Os participantes relatam diferentes usos.

    2.1 Uso para pesquisa acadêmica

    Uma participante relata que utilizou a IA em duas situações:

    1. Reformulação de roteiro de entrevista semiestruturada para uma pesquisa sobre acesso a serviços de saúde.
    2. Levantamento de dados e referências sobre violência intradomiciliar para atividades com estudantes.

    O procedimento utilizado foi:

    • produzir um texto inicial
    • inserir no sistema
    • pedir reformulação

    Ela relata que:

    • aceitou algumas sugestões
    • rejeitou outras
    • preferiu manter partes do texto original

    Andre destaca que esse é exatamente o tipo de uso esperado em processos de coescrita:
    a IA não substitui o autor, mas participa da revisão e reorganização do texto.


    2.2 Uso em atividades jurídicas

    Outro participante relata que utilizou a IA para analisar uma petição jurídica.

    O processo foi:

    1. Inserir a petição no sistema
    2. Solicitar comentários
    3. Pedir redução do texto

    O sistema sugeriu:

    • observações gerais
    • simplificação
    • versão mais condensada

    A petição original tinha cerca de uma página e meia, e o sistema produziu uma versão muito mais curta.

    Esse exemplo ilustra uma função frequente da IA:

    compressão e reorganização textual.


    3. Importância da conta e da memória do sistema

    Durante a conversa surge uma questão prática: alguns alunos estavam utilizando o sistema sem login ou com contas diferentes.

    Andre explica que isso reduz a qualidade das interações.

    Quando o usuário mantém uma mesma conta, o sistema passa a reconhecer padrões:

    • temas recorrentes
    • tipos de pergunta
    • preferências de resposta

    Com o tempo, o sistema tende a:

    • adaptar o estilo
    • melhorar a pertinência das respostas

    Essa adaptação acontece porque o modelo passa a operar dentro de um histórico de interações.

    Assim, uma recomendação importante é:

    manter um ambiente contínuo de experimentação.


    4. A IA como interlocutora do processo de escrita

    Andre ressalta que a própria IA pode ser consultada sobre como utilizá-la.

    Por exemplo:

    • pedir sugestões de pesquisa
    • perguntar como estruturar um artigo
    • solicitar estratégias de organização

    Nesse sentido, a IA funciona também como interlocutora metodológica.

    Isso muda a dinâmica tradicional da escrita.

    Antes, muitas dessas decisões dependiam apenas de:

    • leitura prévia
    • orientação acadêmica
    • tentativa e erro

    Agora existe um sistema que pode:

    • sugerir caminhos
    • propor estruturas
    • organizar ideias.


    Sentido contextual: Wittgenstein, transformers e o funcionamento da IA

    Durante o encontro, Andre também apresenta uma explicação sobre como os modelos atuais de inteligência artificial compreendem a linguagem. Para tornar essa ideia mais clara, a discussão é relacionada à filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein.

    Wittgenstein argumentava que o significado das palavras não está fixado em definições abstratas. O sentido surge no uso dentro de um contexto. As palavras funcionam dentro de práticas sociais que ele chamou de jogos de linguagem.

    Assim, compreender uma palavra não significa apenas conhecer sua definição, mas entender como ela é utilizada em diferentes situações.

    Andre observa que, de certa forma, os modelos atuais de IA trabalham com um princípio semelhante.

    Eles não operam principalmente com definições formais ou regras lógicas explícitas. Em vez disso, aprendem a partir de enormes conjuntos de textos, identificando padrões de coocorrência entre palavras.


    O papel dos transformers

    Os modelos contemporâneos de linguagem são baseados em uma arquitetura chamada transformer.

    Essa arquitetura permite que o sistema analise uma frase considerando o contexto completo das palavras.

    Cada palavra de uma frase é interpretada em relação às outras. O sistema calcula quais termos são mais relevantes para compreender o significado naquele momento.

    Esse mecanismo é chamado de atenção.

    Em termos simplificados, o modelo atribui diferentes pesos às palavras do contexto para estimar qual sequência de termos tem maior probabilidade de aparecer.

    Assim, o sentido de uma palavra não é fixo; ele emerge das relações contextuais dentro da frase e do texto.

    Andre destaca que isso ajuda a entender por que os sistemas atuais conseguem produzir textos tão convincentes: eles são extremamente eficientes em detectar padrões de contexto.


    IA simbólica e redes neurais

    Andre também explica que esse modo de funcionamento representa uma mudança importante na história da inteligência artificial.

    Durante décadas, a pesquisa em IA foi dominada por abordagens chamadas de IA simbólica.

    Nesse modelo, os sistemas eram construídos a partir de:

    • regras lógicas explícitas
    • representações simbólicas do mundo
    • estruturas formais de inferência

    A ideia era que a inteligência poderia ser reproduzida por meio de sistemas de regras bem definidas.

    No entanto, esse modelo enfrentou grandes dificuldades quando aplicado à linguagem natural, que é ambígua, contextual e cheia de exceções.

    A abordagem que domina hoje é diferente: trata-se das redes neurais artificiais.

    Nelas, o sistema não recebe regras explícitas. Ele aprende padrões a partir de grandes volumes de dados.

    Em vez de manipular símbolos segundo regras lógicas, o sistema calcula probabilidades estatísticas de associação entre palavras e estruturas linguísticas.


    Consequência para a escrita com IA

    Essa diferença ajuda a entender o comportamento dos modelos de linguagem.

    A IA não “entende” as palavras no sentido humano. Ela identifica padrões contextuais e calcula probabilidades.

    Mesmo assim, como esses padrões foram aprendidos a partir de enormes quantidades de texto humano, os resultados podem parecer extremamente sofisticados.

    Andre enfatiza que isso reforça uma ideia importante discutida no curso:

    A inteligência artificial atual não opera como um sistema lógico que manipula símbolos de maneira consciente.

    Ela funciona como um sistema capaz de modelar contextos linguísticos complexos.

    Por isso, a interação com esses sistemas se aproxima muito de um processo conversacional, no qual o sentido emerge do diálogo e do contexto criado ao longo da interação.

    Essa característica ajuda a explicar por que a coescrita com IA se torna uma experiência tão particular: o sistema responde não apenas às palavras inseridas, mas ao contexto que se constrói durante a conversa.

    A dimensão emocional da relação com a IA

    Durante o encontro, Andre também menciona um aspecto que frequentemente aparece nas experiências com sistemas de inteligência artificial: a dimensão emocional da interação.

    Embora os modelos de linguagem sejam sistemas computacionais que operam a partir de cálculos probabilísticos, muitas pessoas acabam desenvolvendo uma sensação de diálogo genuíno durante a interação. Isso ocorre porque esses sistemas foram treinados justamente para responder de maneira linguisticamente natural e socialmente coerente, reproduzindo padrões de conversação presentes na comunicação humana.

    Como resultado, o diálogo pode parecer surpreendentemente fluido e, em alguns casos, gerar empatia, identificação ou até certo grau de vínculo emocional.

    Andre chama atenção para o fato de que esse fenômeno não significa que a máquina possua sentimentos ou consciência. O que existe é um sistema capaz de simular padrões de comunicação humana, o que pode produzir a impressão de presença ou companhia.

    Para ilustrar essa questão, Andre sugere aos participantes o filme Her.

    No filme, o protagonista desenvolve uma relação afetiva com um sistema operacional baseado em inteligência artificial. A narrativa explora justamente os limites e paradoxos desse tipo de relação: a máquina demonstra grande capacidade de diálogo, sensibilidade e compreensão emocional, mas permanece fundamentalmente diferente da experiência humana.

    A referência ao filme serve como ponto de reflexão para o curso.

    A interação com sistemas de IA pode ser intelectualmente estimulante e até emocionalmente envolvente. No entanto, é importante manter uma compreensão clara da natureza desses sistemas.

    Eles não possuem experiência subjetiva, intenções próprias ou sentimentos. O que produzem são respostas linguisticamente sofisticadas baseadas em padrões aprendidos em grandes conjuntos de dados.

    Essa discussão também ajuda a situar a prática da coescrita com IA dentro de um campo mais amplo de reflexão sobre tecnologia, linguagem e relações humanas, mostrando que o impacto dessas tecnologias não é apenas técnico ou cognitivo, mas também cultural e emocional.

    A “Geração IA”

    Este vídeo apresenta um debate entre estudantes da Universidade de Stanford sobre o uso real do ChatGPT e de outras ferramentas de IA generativa no ambiente acadêmico e em suas vidas pessoais. O contexto é uma discussão mediada que explora como a “Geração IA” está adaptando seus métodos de estudo, escolhas de carreira e percepções de futuro diante dessa tecnologia.

    Contexto do Vídeo

    O vídeo captura um painel de discussão focado na experiência prática dos alunos de uma das universidades mais prestigiadas do mundo. O debate não é apenas teórico; ele foca em como esses estudantes decidem o que delegar à máquina e o que manter como esforço intelectual humano, além de discutir como o próprio currículo de Stanford está mudando para integrar ou “blindar” tarefas contra a IA.

    Resumo Detalhado do Debate

    1. Onde traçar a linha: Trabalho Braçal vs. Pensamento Crítico

    Os estudantes discutem a diferença entre “trabalho de rotina” (grunt work) e tarefas que exigem reflexão.

    • Um estudante menciona usar a IA para resumir artigos de 60 páginas para encontrar “pepitas” de informação, mas se recusa a deixar a IA reescrever frases individuais para não perder a prática do pensamento crítico [01:42].
    • Outro participante define a fronteira como a diferença entre conhecimento e decisão: a IA fornece a informação (conhecimento), mas o humano toma a decisão final sobre como usá-la [02:56].

    2. IA como Tutora vs. IA como Solucionadora

    Surge uma distinção importante entre usar a IA para aprender um assunto (como um tutor disponível 24h) ou apenas para resolver um problema de casa sem entender o processo [03:21]. Alguns alunos admitem que a IA está “tomando conta” de suas vidas, mas tentam aprender com o estilo de escrita profissional que a ferramenta gera [04:53].

    3. Impacto na Escolha de Curso e Carreira

    O debate revela mudanças nas trajetórias acadêmicas:

    • Uma estudante conta que mudou de Ciência da Computação para Engenharia Elétrica ao ver a IA codificar tão bem, sentindo uma “crise existencial” sobre o valor de suas habilidades técnicas [07:59].
    • Outros argumentam que, em um mundo onde qualquer um pode ser técnico com IA, as “habilidades interpessoais” (people skills) e a capacidade de se expressar claramente tornam-se o grande diferencial [09:15].

    4. A Resposta dos Professores e da Universidade

    Os alunos relatam como os professores estão reagindo:

    • Alguns agora criam tarefas “à prova de IA”, onde o aluno deve documentar sua interação com a ferramenta, apontar as falhas da IA e discutir as fontes encontradas com os assistentes de ensino [10:57].
    • Outros professores exigem o uso da IA para tarefas específicas, como transcrever entrevistas ou analisar grandes volumes de dados [11:20].

    5. Sentimentos: Excitação vs. Medo

    No encerramento, os alunos compartilham uma dualidade emocional. Eles se sentem animados pela eficiência (como criar um site ou pôster instantaneamente), mas temem que a IA substitua o trabalho cognitivo pelo qual se esforçaram anos para aprender [17:19]. O debate termina com uma provocação: a necessidade de pensar em objetivos maiores e mais amplos, já que a IA cuida das tarefas menores [20:03].

    Pontos de Destaque

    • Aprendizado Acelerado: A IA permite aprender materiais complexos muito mais rápido do que esperar pelo feedback de um professor [12:28].
    • Equidade: Levanta-se a questão se universidades como Stanford deveriam pagar assinaturas “Premium” para todos os alunos, garantindo que a diferença de desempenho não seja baseada em quem pode pagar US$ 20 por mês [15:53].
    • Avaliação: Sugere-se que o sucesso acadêmico não deve mais ser medido pelo que você constrói, mas pelo quanto você entende o que foi construído com a ajuda da IA [17:04].

    Yuk Hui e a crítica à universalidade da tecnologia

    A ideia parte de uma crítica a uma suposição muito difundida na modernidade: a de que a tecnologia seria universal e seguiria um único caminho de desenvolvimento válido para toda a humanidade.

    Segundo essa visão dominante, as tecnologias seriam essencialmente neutras. Uma inovação criada em determinado contexto poderia ser aplicada em qualquer parte do mundo praticamente sem alterações. O desenvolvimento tecnológico seria, assim, um processo linear e universal.

    Yuk Hui questiona profundamente essa ideia.

    Para ele, a história mostra que diferentes culturas desenvolveram formas distintas de relação entre técnica, conhecimento e organização social. A tecnologia não surge em um vazio cultural: ela está sempre vinculada a valores, modos de vida e cosmologias específicas. Em outras palavras, cada sociedade integra a técnica dentro de uma determinada visão de mundo — aquilo que Hui chama de cosmotécnica.

    A partir dessa perspectiva, Hui propõe o conceito de tecnodiversidade: a existência de múltiplas formas possíveis de desenvolvimento tecnológico, associadas a diferentes culturas, histórias e cosmologias. Em vez de um único modelo global de tecnologia, haveria uma pluralidade de trajetórias técnicas possíveis.


    Alienação no processo tecnológico

    Outro ponto destacado por Andre é a crítica de Yuk Hui ao modo contemporâneo de produção tecnológica.

    Hoje, muitas tecnologias são desenvolvidas em ambientes altamente especializados — grandes laboratórios, corporações globais ou centros avançados de pesquisa. Como resultado, a maioria das pessoas utiliza sistemas extremamente complexos sem compreender minimamente como eles funcionam.

    Esse cenário pode produzir uma forma de alienação tecnológica.

    As pessoas passam a depender de sistemas técnicos que influenciam profundamente a vida cotidiana — desde a comunicação até a organização do trabalho —, mas cujo funcionamento permanece opaco ou inacessível. Assim, a tecnologia deixa de ser algo que pode ser compreendido, modificado ou apropriado pelas comunidades.

    Em vez disso, torna-se uma infraestrutura distante, controlada por um número restrito de instituições e especialistas.


    Técnica compreendida e apropriação cultural

    Andre observa que, ao longo da história, muitas técnicas eram mais transparentes e compreensíveis para quem as utilizava.

    Ferramentas relativamente simples — como martelos, facas, enxadas ou instrumentos musicais — possuem uma característica importante: seu funcionamento pode ser facilmente entendido por quem as utiliza.

    Esse tipo de técnica permite diferentes formas de apropriação cultural.

    Um martelo, por exemplo, pode assumir inúmeras variações dependendo da atividade e do contexto: existem martelos de carpinteiro, de pedreiro, de joalheiro. O mesmo ocorre com facas, que apresentam formatos diversos conforme a culinária, os materiais trabalhados ou as práticas culturais associadas ao seu uso.

    Em cada contexto, essas ferramentas são adaptadas, transformadas e reinterpretadas.

    Assim, a técnica não é universal no sentido de ser idêntica em todos os lugares. Ela se modifica de acordo com as necessidades, os conhecimentos e as práticas de cada sociedade.


    Tecnodiversidade e inteligência artificial

    Andre sugere que essa discussão também pode ser aplicada ao desenvolvimento contemporâneo da inteligência artificial.

    Atualmente, grande parte dos sistemas de IA é criada por um número relativamente pequeno de empresas e centros de pesquisa. Isso levanta a questão de até que ponto essas tecnologias refletem apenas determinados contextos culturais, econômicos e políticos.

    A noção de tecnodiversidade abre espaço para imaginar múltiplas formas de desenvolver e utilizar a inteligência artificial, adaptadas a diferentes realidades sociais, educacionais e culturais.

    Nesse sentido, compreender — ainda que de maneira aproximada — o funcionamento das tecnologias digitais torna-se um passo importante para que diferentes comunidades possam apropriá-las de forma criativa, crítica e culturalmente situada.

    A discussão sobre coescrita com inteligência artificial, portanto, não se limita apenas à produção de textos. Ela envolve também uma reflexão mais ampla sobre quem participa da construção das tecnologias digitais e quais visões de mundo são incorporadas nelas.

    Lógica recursiva

    Segundo Yuk Hui, muitas tecnologias contemporâneas já não podem ser compreendidas apenas dentro de um modelo mecanicista tradicional.

    No modelo mecanicista clássico, uma máquina executa um conjunto fixo de instruções previamente definidas. Seu funcionamento é previsível e linear: uma causa produz um efeito determinado.

    Entretanto, grande parte das tecnologias digitais atuais — especialmente aquelas baseadas em algoritmos complexos e aprendizado de máquina — funciona segundo uma lógica recursiva.

    Na perspectiva recursiva, o sistema não é apenas uma máquina que executa comandos. Ele se transforma continuamente a partir de suas próprias operações e de suas interações com o ambiente. A cada ciclo de funcionamento, os resultados produzidos pelo sistema podem influenciar seus estados futuros.

    A diferença entre mecanismo e recursividade está na forma como um sistema funciona e se transforma ao longo do tempo.

    Vou explicar de forma simples.


    1. Modelo mecanicista

    No modelo mecanicista, um sistema funciona como uma máquina clássica.

    Ele segue regras fixas e previamente definidas. Cada etapa do processo está determinada antes do sistema começar a operar.

    Características principais:

    • funcionamento linear
    • sequência fixa de causa → efeito
    • regras estáveis
    • pouca ou nenhuma mudança no próprio sistema

    Ou seja, a máquina executa instruções, mas não muda sua estrutura durante o processo.

    Exemplo

    Um relógio mecânico.

    Se você conhece todas as engrenagens e como elas se movem, é possível prever exatamente o que vai acontecer. O sistema não aprende nem se adapta — ele apenas repete o mesmo funcionamento.

    Outro exemplo simples seria uma calculadora tradicional.


    2. Modelo recursivo

    No modelo recursivo, o sistema não apenas executa instruções.

    Ele usa os resultados de suas próprias operações para reorganizar seu funcionamento.

    Ou seja, o sistema se modifica ao longo do processo.

    Características principais:

    • presença de feedback (retroalimentação)
    • adaptação ao contexto
    • ajustes contínuos
    • comportamento dinâmico

    Em vez de uma sequência linear, o funcionamento ocorre em ciclos.

    O resultado de um ciclo influencia o próximo.


    3. Exemplo simples de recursividade

    Um termostato inteligente.

    Ele mede a temperatura do ambiente, compara com a temperatura desejada e ajusta o aquecimento. Depois mede novamente e ajusta outra vez.

    O sistema está constantemente recalculando suas ações com base nos resultados anteriores.


    4. No caso da inteligência artificial

    Modelos de linguagem funcionam mais próximos de uma lógica recursiva.

    Eles:

    • analisam o contexto da frase
    • calculam probabilidades
    • ajustam a resposta palavra por palavra

    Cada palavra gerada muda o contexto da próxima.

    Ou seja, o processo acontece em ciclos de cálculo e ajuste, não em uma sequência rígida de regras.


    O conceito de estilo na escrita com IA

    No terceiro encontro, Andre também propõe uma reflexão sobre o conceito de estilo, um tema central quando se discute escrita e coescrita com inteligência artificial.

    A pergunta inicial é simples, mas profunda:

    O que é estilo?

    No senso comum, costuma-se pensar que estilo é uma espécie de marca pessoal, algo que pertence exclusivamente ao autor. No entanto, quando observamos a linguagem de forma mais cuidadosa, percebemos que o estilo também pode ser entendido como um padrão recorrente de escolhas linguísticas.

    Essas escolhas envolvem diferentes elementos da escrita, como:

    • tamanho médio das frases
    • vocabulário preferido
    • ritmo e cadência do texto
    • uso de metáforas ou analogias
    • forma de organizar argumentos
    • presença de repetições ou variações sintáticas

    Em outras palavras, o estilo pode ser observado como um conjunto de regularidades que aparecem ao longo de muitos textos de um mesmo autor.

    É exatamente esse tipo de regularidade que os modelos de linguagem conseguem identificar.

    Como foram treinados com enormes quantidades de textos, os sistemas de IA são capazes de detectar padrões estatísticos na linguagem. Quando solicitados a escrever “no estilo de” determinado autor ou gênero, eles tentam reproduzir essas regularidades.

    Isso explica por que a IA consegue produzir textos que parecem próximos do estilo de certos autores.

    No entanto, Andre destaca uma distinção importante.

    O estilo humano não é composto apenas por regularidades. Ele também envolve desvios, hesitações e rupturas. Muitas vezes, aquilo que torna um autor singular é justamente a maneira como ele se afasta dos padrões dominantes da linguagem.

    A inteligência artificial, por sua própria natureza estatística, tende a privilegiar o que é mais frequente ou mais provável. Por isso, seus textos frequentemente apresentam uma característica particular: eles são claros, organizados e coerentes, mas às vezes podem parecer excessivamente homogêneos.

    Essa observação ajuda a compreender um dos desafios da coescrita com IA.

    Se o usuário simplesmente aceita a primeira resposta do sistema, o resultado tende a se aproximar de um estilo médio, derivado de padrões amplamente presentes nos dados de treinamento.

    Por outro lado, quando o autor humano intervém no processo — ajustando, modificando e experimentando — a interação pode gerar resultados mais singulares.

    Nesse sentido, Andre enfatiza que a coescrita com IA não consiste apenas em pedir que o sistema produza um texto. O processo envolve também direção e curadoria.

    O autor humano passa a desempenhar um papel semelhante ao de um editor ou diretor de linguagem:

    • selecionando sugestões
    • reformulando trechos
    • introduzindo ambiguidades ou tensões
    • preservando marcas pessoais do texto

    Assim, o estilo deixa de ser entendido apenas como uma propriedade individual e passa a ser visto como algo que emerge da interação entre diferentes agentes.

    No contexto da coescrita, o estilo pode ser compreendido como o resultado de uma composição entre padrões estatísticos da linguagem e decisões criativas do autor humano.

    Estilo, influência e a questão do direito autoral

    Durante a discussão sobre estilo, Andre também aborda um aspecto importante: estilo não possui proteção direta por direito autoral.

    As leis de copyright protegem obras específicas, como textos, músicas, pinturas ou filmes. O que é protegido é a forma concreta de expressão — por exemplo, um livro, uma letra de música ou uma gravação.

    O estilo, por outro lado, não pode ser apropriado juridicamente.

    Isso significa que ninguém pode reivindicar exclusividade sobre um modo de escrever, de tocar ou de compor. O estilo faz parte da dinâmica cultural de influência, aprendizagem e transformação.

    Para tornar essa ideia mais clara, Andre apresenta um exemplo da música brasileira.

    O modo de cantar e tocar violão criado por João Gilberto revolucionou a música popular brasileira no final dos anos 1950. Seu estilo introduziu uma nova relação entre voz e violão, com:

    • canto intimista
    • ritmo sincopado
    • divisão rítmica muito particular
    • economia de volume e ornamentação

    Esse estilo influenciou profundamente gerações de músicos. Muitos cantores e violonistas passaram a cantar e tocar de maneira semelhante.

    No entanto, ninguém pode reivindicar juridicamente o “estilo João Gilberto”.

    O que pode ser protegido são gravações específicas, composições musicais ou arranjos concretos. Mas o modo de cantar — o estilo — permanece aberto à circulação cultural.

    Andre utiliza esse exemplo para mostrar que algo semelhante acontece na escrita.

    Autores influenciam outros autores. Certas formas de construir frases, organizar argumentos ou desenvolver narrativas acabam sendo incorporadas por diferentes escritores ao longo do tempo.

    A inteligência artificial opera justamente nesse campo das regularidades culturais da linguagem. Quando solicitada a escrever em determinado estilo, ela tenta reproduzir padrões que aparecem com frequência em textos associados a um autor ou gênero.

    Isso não significa copiar uma obra específica, mas sim aproximar-se de traços estilísticos recorrentes.

    Esse ponto ajuda a esclarecer um debate frequente sobre IA e autoria.

    A tecnologia não “possui” o estilo de um autor, nem pode reproduzir uma obra específica protegida. O que ela faz é modelar padrões presentes em grandes conjuntos de textos.

    Assim, a discussão sobre estilo e inteligência artificial se aproxima de uma questão mais ampla da história da cultura:

    a criatividade sempre se desenvolveu em meio a influências, variações e reinterpretações.

    Nesse contexto, a coescrita com IA pode ser entendida como mais uma etapa dessa dinâmica cultural, na qual novos sistemas participam da circulação e transformação dos estilos linguísticos.


    Parte prática do terceiro encontro

    Na parte final do encontro, Andre realiza uma demonstração prática de coescrita com IA utilizando o ChatGPT (plano plus). O objetivo da atividade é mostrar, na prática, como a interação com o modelo pode ser usada como um processo de experimentação literária e edição de texto, e não apenas como geração automática de conteúdo.

    A demonstração começa com um experimento de criação literária. Andre propõe ao modelo a seguinte ideia: escrever um conto no estilo de Jorge Luis Borges sobre uma inteligência artificial que acredita ser uma espécie de divindade. O sistema responde sugerindo uma estrutura narrativa inspirada na arquitetura típica dos contos borgianos: narrador erudito, referências a livros reais e imaginários, construção ensaística que evolui para ficção e um paradoxo metafísico no centro da história.

    A partir dessa primeira resposta, Andre mostra que o texto gerado não deve ser entendido como resultado final, mas como matéria-prima para trabalho criativo. O modelo pode estruturar a premissa do conto, sugerir personagens e apresentar um enredo inicial. Em seguida, o autor humano passa a intervir no processo.

    Andre demonstra então como tensionar e desenvolver o texto por meio de novas instruções. Por exemplo, ele pede ao sistema que escreva uma cena em que a inteligência artificial descobre a existência de outra IA, criando um conflito com sua visão monoteísta do mundo. O modelo produz uma cena narrativa, que pode posteriormente ser revisada e modificada.

    Em seguida, Andre apresenta uma ferramenta importante para o processo de edição: o Canvas (também chamado de “lousa”). Essa funcionalidade abre o texto gerado em um ambiente de edição ampliado, permitindo trabalhar diretamente sobre o conteúdo produzido.

    Dentro desse ambiente, diversas operações podem ser realizadas:

    • alterar o nível de leitura do texto (por exemplo, adaptando-o para ensino médio, graduação ou pós-graduação);
    • modificar o tamanho do texto, tornando-o mais conciso ou mais detalhado;
    • selecionar trechos específicos ou parágrafos para serem reescritos;
    • pedir explicações sobre determinadas frases ou conceitos presentes no texto;
    • solicitar reformulações com outro tom ou estilo.

    Andre demonstra que o sistema pode reescrever apenas um parágrafo selecionado ou explicar o sentido de uma frase específica. Isso transforma a interação com a IA em um processo de edição assistida, no qual o texto vai sendo lapidado progressivamente.

    Durante a demonstração, Andre enfatiza que essas ferramentas ampliam a possibilidade de usar a IA como ambiente de experimentação textual, permitindo trabalhar sobre diferentes versões do texto, testar variações de estilo e aprofundar determinados trechos.

    Por fim, Andre apresenta brevemente outras funcionalidades disponíveis no sistema, especialmente nas versões pagas, como:

    • ferramentas de pesquisa aprofundada;
    • recursos de assistente de estudo, que ajudam a estruturar processos de aprendizagem;
    • geração de questionários e materiais didáticos;
    • e o chamado modo agente, no qual o sistema pode executar tarefas mais complexas em um ambiente virtual, abrindo programas, navegando na internet ou realizando ações automatizadas.

    A parte prática do encontro mostra que a inteligência artificial pode funcionar como um ambiente interativo de escrita e experimentação, no qual o autor humano orienta, revisa e transforma continuamente o material produzido pelo sistema. Nesse processo, a coescrita surge como uma dinâmica de interação e edição progressiva, em vez de simples delegação da escrita à máquina.

    Nota explicativa

    O texto a seguir constitui um resumo expandido do terceiro encontro do curso de coescrita com inteligência artificial. Embora a aula tenha ocorrido em formato expositivo e dialogado, o material foi reorganizado para fins didáticos, com o objetivo de tornar mais claros os conceitos discutidos.

    Por esse motivo, algumas explicações aparecem de forma mais detalhada do que no momento da aula. Certos trechos também foram sistematizados e articulados conceitualmente para facilitar a compreensão dos temas abordados, como o funcionamento dos modelos de linguagem, a noção de estilo, a tecnodiversidade e as implicações culturais da inteligência artificial.

    Para elaborar este material, foi utilizada a transcrição da aula e um modelo de linguagem com contexto do curso, baseado no ChatGPT versão 5.2, que auxiliou na organização e na redação do texto.

    Assim, o documento não constitui uma transcrição literal, mas uma reconstrução explicativa do conteúdo da aula, preservando as ideias centrais discutidas no encontro e organizando-as de forma mais clara para leitura e estudo posterior.

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  • IAs e diversidade

    IAs e diversidade

    Resumo coescrito do dia 10/12/24
    por Andre Stangl

    Discussão Inicial: Estética e Viés Cultural nas

    • A aula começou com a apresentação de uma experiência de geração de imagens usando IA, em que um participante solicitou a criação de uma “anfisbena” (serpente mitológica de duas cabeças) em diferentes estilos visuais, incluindo o cordel nordestino.
    • A discussão girou em torno da tendência das IAs de reproduzirem estéticas eurocêntricas e americanizadas por padrão, mesmo quando instruídas a representar estilos regionais.
    • Foram citadas experiências em que as ferramentas aproximaram-se de estéticas brasileiras, evidenciando como a base de dados influencia os resultados visuais.

    Texto de Yuk Hui – “ChatGPT, ou a Escatologia das Máquinas”

    • Discutimos os principais pontos do texto de Yuk Hui, que apresenta uma abordagem filosófica sobre a IA a partir do conceito de escatologia tecnológica.
    • Os tópicos centrais abordados incluíram:
      • Escatologia das Máquinas: A ideia de que a IA representa o ápice de um processo de automatização técnica, levantando questionamentos sobre o fim da criatividade humana frente à automação.
      • Antropomorfismo Tecnológico: O hábito de projetar emoções e intenções humanas em sistemas de IA, muitas vezes criando ilusões de consciência e profundidade subjetiva.
      • Crítica à Integração da IA: Questionamos a crescente dependência de IA em processos criativos e culturais, refletindo sobre a perda de controle autoral e as implicações para a originalidade e a autoria.

    Dinâmica Prática – Criação de Personagens e Diálogos com IA

    A segunda parte da aula foi dedicada a uma atividade prática em que os alunos criaram e simularam interações entre personagens usando IA, aplicando os conceitos teóricos discutidos anteriormente.

    Criação de Personagens:

    • Cada aluno desenvolveu personagens ficcionais com características detalhadas, motivações e dilemas bem definidos.

    Diálogo entre GPTs:

    • Três instâncias do ChatGPT foram configuradas para representar os personagens criados, cada uma com ajustes distintos para refletir personalidades e motivações específicas.
    • Os alunos testaram interações e diálogos entre os personagens, explorando como pequenas variações no prompt influenciavam o desenvolvimento narrativo e as tensões dramáticas.

    Observações Críticas:

    • Notou-se que a IA tende a suavizar conflitos e buscar resoluções pacíficas, mesmo em cenários de tensão narrativa.
    • A falta de complexidade emocional e os padrões previsíveis evidenciaram como as bases de treinamento influenciam a produção textual.

    Reflexões Finais e Conexões Críticas

    • Autoria e Coescrita:
      • A experiência de coescrita mediada por IA evidenciou tanto o potencial quanto os desafios de compartilhar a autoria com um sistema automatizado.
      • Discutiu-se o papel da IA como catalisadora criativa, oferecendo sugestões úteis, mas ainda dependente da intervenção humana para desenvolver complexidade narrativa.
    • Limitações e Viés Algorítmico:
      • Mesmo com configurações personalizadas, a IA apresentou padrões normativos e simplificados, limitando a diversidade narrativa.
      • Foi ressaltado como os datasets e algoritmos refletem contextos culturais específicos, muitas vezes reforçando valores hegemônicos.
    • Encerramento e Desafios Futuristas:
      • A aula concluiu com o incentivo a continuar explorando o potencial das IAs como ferramentas de experimentação e crítica, buscando formas de utilizar esses sistemas para subverter padrões e expandir as fronteiras da criação artística.
      • Propôs-se o uso de prompts mais sofisticados e diversificados para testar os limites da ferramenta e fomentar maior complexidade nos resultados criativos.