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  • A Dimensão cultural das IAs

    A Dimensão cultural das IAs


    Terceiro Encontro – 03 de março de 2026


    1. Abertura do encontro

    O encontro começa com uma conversa informal sobre livros e materiais sobre inteligência artificial. Andre observa que produzir manuais sobre IA é uma tarefa difícil, porque a tecnologia muda muito rapidamente.

    Modelos são atualizados constantemente e isso altera práticas, estratégias e até o tipo de resposta que o sistema produz.

    A partir dessa observação inicial, Andre destaca um ponto importante para o curso:

    • aprender IA não significa decorar regras fixas
    • significa experimentar continuamente

    O curso, portanto, é estruturado como um laboratório de experimentação.


    2. Relatos de experiências dos participantes

    Andre abre a aula perguntando como foram as experiências da turma com o modelo durante a semana.

    Os participantes relatam diferentes usos.

    2.1 Uso para pesquisa acadêmica

    Uma participante relata que utilizou a IA em duas situações:

    1. Reformulação de roteiro de entrevista semiestruturada para uma pesquisa sobre acesso a serviços de saúde.
    2. Levantamento de dados e referências sobre violência intradomiciliar para atividades com estudantes.

    O procedimento utilizado foi:

    • produzir um texto inicial
    • inserir no sistema
    • pedir reformulação

    Ela relata que:

    • aceitou algumas sugestões
    • rejeitou outras
    • preferiu manter partes do texto original

    Andre destaca que esse é exatamente o tipo de uso esperado em processos de coescrita:
    a IA não substitui o autor, mas participa da revisão e reorganização do texto.


    2.2 Uso em atividades jurídicas

    Outro participante relata que utilizou a IA para analisar uma petição jurídica.

    O processo foi:

    1. Inserir a petição no sistema
    2. Solicitar comentários
    3. Pedir redução do texto

    O sistema sugeriu:

    • observações gerais
    • simplificação
    • versão mais condensada

    A petição original tinha cerca de uma página e meia, e o sistema produziu uma versão muito mais curta.

    Esse exemplo ilustra uma função frequente da IA:

    compressão e reorganização textual.


    3. Importância da conta e da memória do sistema

    Durante a conversa surge uma questão prática: alguns alunos estavam utilizando o sistema sem login ou com contas diferentes.

    Andre explica que isso reduz a qualidade das interações.

    Quando o usuário mantém uma mesma conta, o sistema passa a reconhecer padrões:

    • temas recorrentes
    • tipos de pergunta
    • preferências de resposta

    Com o tempo, o sistema tende a:

    • adaptar o estilo
    • melhorar a pertinência das respostas

    Essa adaptação acontece porque o modelo passa a operar dentro de um histórico de interações.

    Assim, uma recomendação importante é:

    manter um ambiente contínuo de experimentação.


    4. A IA como interlocutora do processo de escrita

    Andre ressalta que a própria IA pode ser consultada sobre como utilizá-la.

    Por exemplo:

    • pedir sugestões de pesquisa
    • perguntar como estruturar um artigo
    • solicitar estratégias de organização

    Nesse sentido, a IA funciona também como interlocutora metodológica.

    Isso muda a dinâmica tradicional da escrita.

    Antes, muitas dessas decisões dependiam apenas de:

    • leitura prévia
    • orientação acadêmica
    • tentativa e erro

    Agora existe um sistema que pode:

    • sugerir caminhos
    • propor estruturas
    • organizar ideias.


    Sentido contextual: Wittgenstein, transformers e o funcionamento da IA

    Durante o encontro, Andre também apresenta uma explicação sobre como os modelos atuais de inteligência artificial compreendem a linguagem. Para tornar essa ideia mais clara, a discussão é relacionada à filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein.

    Wittgenstein argumentava que o significado das palavras não está fixado em definições abstratas. O sentido surge no uso dentro de um contexto. As palavras funcionam dentro de práticas sociais que ele chamou de jogos de linguagem.

    Assim, compreender uma palavra não significa apenas conhecer sua definição, mas entender como ela é utilizada em diferentes situações.

    Andre observa que, de certa forma, os modelos atuais de IA trabalham com um princípio semelhante.

    Eles não operam principalmente com definições formais ou regras lógicas explícitas. Em vez disso, aprendem a partir de enormes conjuntos de textos, identificando padrões de coocorrência entre palavras.


    O papel dos transformers

    Os modelos contemporâneos de linguagem são baseados em uma arquitetura chamada transformer.

    Essa arquitetura permite que o sistema analise uma frase considerando o contexto completo das palavras.

    Cada palavra de uma frase é interpretada em relação às outras. O sistema calcula quais termos são mais relevantes para compreender o significado naquele momento.

    Esse mecanismo é chamado de atenção.

    Em termos simplificados, o modelo atribui diferentes pesos às palavras do contexto para estimar qual sequência de termos tem maior probabilidade de aparecer.

    Assim, o sentido de uma palavra não é fixo; ele emerge das relações contextuais dentro da frase e do texto.

    Andre destaca que isso ajuda a entender por que os sistemas atuais conseguem produzir textos tão convincentes: eles são extremamente eficientes em detectar padrões de contexto.


    IA simbólica e redes neurais

    Andre também explica que esse modo de funcionamento representa uma mudança importante na história da inteligência artificial.

    Durante décadas, a pesquisa em IA foi dominada por abordagens chamadas de IA simbólica.

    Nesse modelo, os sistemas eram construídos a partir de:

    • regras lógicas explícitas
    • representações simbólicas do mundo
    • estruturas formais de inferência

    A ideia era que a inteligência poderia ser reproduzida por meio de sistemas de regras bem definidas.

    No entanto, esse modelo enfrentou grandes dificuldades quando aplicado à linguagem natural, que é ambígua, contextual e cheia de exceções.

    A abordagem que domina hoje é diferente: trata-se das redes neurais artificiais.

    Nelas, o sistema não recebe regras explícitas. Ele aprende padrões a partir de grandes volumes de dados.

    Em vez de manipular símbolos segundo regras lógicas, o sistema calcula probabilidades estatísticas de associação entre palavras e estruturas linguísticas.


    Consequência para a escrita com IA

    Essa diferença ajuda a entender o comportamento dos modelos de linguagem.

    A IA não “entende” as palavras no sentido humano. Ela identifica padrões contextuais e calcula probabilidades.

    Mesmo assim, como esses padrões foram aprendidos a partir de enormes quantidades de texto humano, os resultados podem parecer extremamente sofisticados.

    Andre enfatiza que isso reforça uma ideia importante discutida no curso:

    A inteligência artificial atual não opera como um sistema lógico que manipula símbolos de maneira consciente.

    Ela funciona como um sistema capaz de modelar contextos linguísticos complexos.

    Por isso, a interação com esses sistemas se aproxima muito de um processo conversacional, no qual o sentido emerge do diálogo e do contexto criado ao longo da interação.

    Essa característica ajuda a explicar por que a coescrita com IA se torna uma experiência tão particular: o sistema responde não apenas às palavras inseridas, mas ao contexto que se constrói durante a conversa.

    A dimensão emocional da relação com a IA

    Durante o encontro, Andre também menciona um aspecto que frequentemente aparece nas experiências com sistemas de inteligência artificial: a dimensão emocional da interação.

    Embora os modelos de linguagem sejam sistemas computacionais que operam a partir de cálculos probabilísticos, muitas pessoas acabam desenvolvendo uma sensação de diálogo genuíno durante a interação. Isso ocorre porque esses sistemas foram treinados justamente para responder de maneira linguisticamente natural e socialmente coerente, reproduzindo padrões de conversação presentes na comunicação humana.

    Como resultado, o diálogo pode parecer surpreendentemente fluido e, em alguns casos, gerar empatia, identificação ou até certo grau de vínculo emocional.

    Andre chama atenção para o fato de que esse fenômeno não significa que a máquina possua sentimentos ou consciência. O que existe é um sistema capaz de simular padrões de comunicação humana, o que pode produzir a impressão de presença ou companhia.

    Para ilustrar essa questão, Andre sugere aos participantes o filme Her.

    No filme, o protagonista desenvolve uma relação afetiva com um sistema operacional baseado em inteligência artificial. A narrativa explora justamente os limites e paradoxos desse tipo de relação: a máquina demonstra grande capacidade de diálogo, sensibilidade e compreensão emocional, mas permanece fundamentalmente diferente da experiência humana.

    A referência ao filme serve como ponto de reflexão para o curso.

    A interação com sistemas de IA pode ser intelectualmente estimulante e até emocionalmente envolvente. No entanto, é importante manter uma compreensão clara da natureza desses sistemas.

    Eles não possuem experiência subjetiva, intenções próprias ou sentimentos. O que produzem são respostas linguisticamente sofisticadas baseadas em padrões aprendidos em grandes conjuntos de dados.

    Essa discussão também ajuda a situar a prática da coescrita com IA dentro de um campo mais amplo de reflexão sobre tecnologia, linguagem e relações humanas, mostrando que o impacto dessas tecnologias não é apenas técnico ou cognitivo, mas também cultural e emocional.

    A “Geração IA”

    Este vídeo apresenta um debate entre estudantes da Universidade de Stanford sobre o uso real do ChatGPT e de outras ferramentas de IA generativa no ambiente acadêmico e em suas vidas pessoais. O contexto é uma discussão mediada que explora como a “Geração IA” está adaptando seus métodos de estudo, escolhas de carreira e percepções de futuro diante dessa tecnologia.

    Contexto do Vídeo

    O vídeo captura um painel de discussão focado na experiência prática dos alunos de uma das universidades mais prestigiadas do mundo. O debate não é apenas teórico; ele foca em como esses estudantes decidem o que delegar à máquina e o que manter como esforço intelectual humano, além de discutir como o próprio currículo de Stanford está mudando para integrar ou “blindar” tarefas contra a IA.

    Resumo Detalhado do Debate

    1. Onde traçar a linha: Trabalho Braçal vs. Pensamento Crítico

    Os estudantes discutem a diferença entre “trabalho de rotina” (grunt work) e tarefas que exigem reflexão.

    • Um estudante menciona usar a IA para resumir artigos de 60 páginas para encontrar “pepitas” de informação, mas se recusa a deixar a IA reescrever frases individuais para não perder a prática do pensamento crítico [01:42].
    • Outro participante define a fronteira como a diferença entre conhecimento e decisão: a IA fornece a informação (conhecimento), mas o humano toma a decisão final sobre como usá-la [02:56].

    2. IA como Tutora vs. IA como Solucionadora

    Surge uma distinção importante entre usar a IA para aprender um assunto (como um tutor disponível 24h) ou apenas para resolver um problema de casa sem entender o processo [03:21]. Alguns alunos admitem que a IA está “tomando conta” de suas vidas, mas tentam aprender com o estilo de escrita profissional que a ferramenta gera [04:53].

    3. Impacto na Escolha de Curso e Carreira

    O debate revela mudanças nas trajetórias acadêmicas:

    • Uma estudante conta que mudou de Ciência da Computação para Engenharia Elétrica ao ver a IA codificar tão bem, sentindo uma “crise existencial” sobre o valor de suas habilidades técnicas [07:59].
    • Outros argumentam que, em um mundo onde qualquer um pode ser técnico com IA, as “habilidades interpessoais” (people skills) e a capacidade de se expressar claramente tornam-se o grande diferencial [09:15].

    4. A Resposta dos Professores e da Universidade

    Os alunos relatam como os professores estão reagindo:

    • Alguns agora criam tarefas “à prova de IA”, onde o aluno deve documentar sua interação com a ferramenta, apontar as falhas da IA e discutir as fontes encontradas com os assistentes de ensino [10:57].
    • Outros professores exigem o uso da IA para tarefas específicas, como transcrever entrevistas ou analisar grandes volumes de dados [11:20].

    5. Sentimentos: Excitação vs. Medo

    No encerramento, os alunos compartilham uma dualidade emocional. Eles se sentem animados pela eficiência (como criar um site ou pôster instantaneamente), mas temem que a IA substitua o trabalho cognitivo pelo qual se esforçaram anos para aprender [17:19]. O debate termina com uma provocação: a necessidade de pensar em objetivos maiores e mais amplos, já que a IA cuida das tarefas menores [20:03].

    Pontos de Destaque

    • Aprendizado Acelerado: A IA permite aprender materiais complexos muito mais rápido do que esperar pelo feedback de um professor [12:28].
    • Equidade: Levanta-se a questão se universidades como Stanford deveriam pagar assinaturas “Premium” para todos os alunos, garantindo que a diferença de desempenho não seja baseada em quem pode pagar US$ 20 por mês [15:53].
    • Avaliação: Sugere-se que o sucesso acadêmico não deve mais ser medido pelo que você constrói, mas pelo quanto você entende o que foi construído com a ajuda da IA [17:04].

    Yuk Hui e a crítica à universalidade da tecnologia

    A ideia parte de uma crítica a uma suposição muito difundida na modernidade: a de que a tecnologia seria universal e seguiria um único caminho de desenvolvimento válido para toda a humanidade.

    Segundo essa visão dominante, as tecnologias seriam essencialmente neutras. Uma inovação criada em determinado contexto poderia ser aplicada em qualquer parte do mundo praticamente sem alterações. O desenvolvimento tecnológico seria, assim, um processo linear e universal.

    Yuk Hui questiona profundamente essa ideia.

    Para ele, a história mostra que diferentes culturas desenvolveram formas distintas de relação entre técnica, conhecimento e organização social. A tecnologia não surge em um vazio cultural: ela está sempre vinculada a valores, modos de vida e cosmologias específicas. Em outras palavras, cada sociedade integra a técnica dentro de uma determinada visão de mundo — aquilo que Hui chama de cosmotécnica.

    A partir dessa perspectiva, Hui propõe o conceito de tecnodiversidade: a existência de múltiplas formas possíveis de desenvolvimento tecnológico, associadas a diferentes culturas, histórias e cosmologias. Em vez de um único modelo global de tecnologia, haveria uma pluralidade de trajetórias técnicas possíveis.


    Alienação no processo tecnológico

    Outro ponto destacado por Andre é a crítica de Yuk Hui ao modo contemporâneo de produção tecnológica.

    Hoje, muitas tecnologias são desenvolvidas em ambientes altamente especializados — grandes laboratórios, corporações globais ou centros avançados de pesquisa. Como resultado, a maioria das pessoas utiliza sistemas extremamente complexos sem compreender minimamente como eles funcionam.

    Esse cenário pode produzir uma forma de alienação tecnológica.

    As pessoas passam a depender de sistemas técnicos que influenciam profundamente a vida cotidiana — desde a comunicação até a organização do trabalho —, mas cujo funcionamento permanece opaco ou inacessível. Assim, a tecnologia deixa de ser algo que pode ser compreendido, modificado ou apropriado pelas comunidades.

    Em vez disso, torna-se uma infraestrutura distante, controlada por um número restrito de instituições e especialistas.


    Técnica compreendida e apropriação cultural

    Andre observa que, ao longo da história, muitas técnicas eram mais transparentes e compreensíveis para quem as utilizava.

    Ferramentas relativamente simples — como martelos, facas, enxadas ou instrumentos musicais — possuem uma característica importante: seu funcionamento pode ser facilmente entendido por quem as utiliza.

    Esse tipo de técnica permite diferentes formas de apropriação cultural.

    Um martelo, por exemplo, pode assumir inúmeras variações dependendo da atividade e do contexto: existem martelos de carpinteiro, de pedreiro, de joalheiro. O mesmo ocorre com facas, que apresentam formatos diversos conforme a culinária, os materiais trabalhados ou as práticas culturais associadas ao seu uso.

    Em cada contexto, essas ferramentas são adaptadas, transformadas e reinterpretadas.

    Assim, a técnica não é universal no sentido de ser idêntica em todos os lugares. Ela se modifica de acordo com as necessidades, os conhecimentos e as práticas de cada sociedade.


    Tecnodiversidade e inteligência artificial

    Andre sugere que essa discussão também pode ser aplicada ao desenvolvimento contemporâneo da inteligência artificial.

    Atualmente, grande parte dos sistemas de IA é criada por um número relativamente pequeno de empresas e centros de pesquisa. Isso levanta a questão de até que ponto essas tecnologias refletem apenas determinados contextos culturais, econômicos e políticos.

    A noção de tecnodiversidade abre espaço para imaginar múltiplas formas de desenvolver e utilizar a inteligência artificial, adaptadas a diferentes realidades sociais, educacionais e culturais.

    Nesse sentido, compreender — ainda que de maneira aproximada — o funcionamento das tecnologias digitais torna-se um passo importante para que diferentes comunidades possam apropriá-las de forma criativa, crítica e culturalmente situada.

    A discussão sobre coescrita com inteligência artificial, portanto, não se limita apenas à produção de textos. Ela envolve também uma reflexão mais ampla sobre quem participa da construção das tecnologias digitais e quais visões de mundo são incorporadas nelas.

    Lógica recursiva

    Segundo Yuk Hui, muitas tecnologias contemporâneas já não podem ser compreendidas apenas dentro de um modelo mecanicista tradicional.

    No modelo mecanicista clássico, uma máquina executa um conjunto fixo de instruções previamente definidas. Seu funcionamento é previsível e linear: uma causa produz um efeito determinado.

    Entretanto, grande parte das tecnologias digitais atuais — especialmente aquelas baseadas em algoritmos complexos e aprendizado de máquina — funciona segundo uma lógica recursiva.

    Na perspectiva recursiva, o sistema não é apenas uma máquina que executa comandos. Ele se transforma continuamente a partir de suas próprias operações e de suas interações com o ambiente. A cada ciclo de funcionamento, os resultados produzidos pelo sistema podem influenciar seus estados futuros.

    A diferença entre mecanismo e recursividade está na forma como um sistema funciona e se transforma ao longo do tempo.

    Vou explicar de forma simples.


    1. Modelo mecanicista

    No modelo mecanicista, um sistema funciona como uma máquina clássica.

    Ele segue regras fixas e previamente definidas. Cada etapa do processo está determinada antes do sistema começar a operar.

    Características principais:

    • funcionamento linear
    • sequência fixa de causa → efeito
    • regras estáveis
    • pouca ou nenhuma mudança no próprio sistema

    Ou seja, a máquina executa instruções, mas não muda sua estrutura durante o processo.

    Exemplo

    Um relógio mecânico.

    Se você conhece todas as engrenagens e como elas se movem, é possível prever exatamente o que vai acontecer. O sistema não aprende nem se adapta — ele apenas repete o mesmo funcionamento.

    Outro exemplo simples seria uma calculadora tradicional.


    2. Modelo recursivo

    No modelo recursivo, o sistema não apenas executa instruções.

    Ele usa os resultados de suas próprias operações para reorganizar seu funcionamento.

    Ou seja, o sistema se modifica ao longo do processo.

    Características principais:

    • presença de feedback (retroalimentação)
    • adaptação ao contexto
    • ajustes contínuos
    • comportamento dinâmico

    Em vez de uma sequência linear, o funcionamento ocorre em ciclos.

    O resultado de um ciclo influencia o próximo.


    3. Exemplo simples de recursividade

    Um termostato inteligente.

    Ele mede a temperatura do ambiente, compara com a temperatura desejada e ajusta o aquecimento. Depois mede novamente e ajusta outra vez.

    O sistema está constantemente recalculando suas ações com base nos resultados anteriores.


    4. No caso da inteligência artificial

    Modelos de linguagem funcionam mais próximos de uma lógica recursiva.

    Eles:

    • analisam o contexto da frase
    • calculam probabilidades
    • ajustam a resposta palavra por palavra

    Cada palavra gerada muda o contexto da próxima.

    Ou seja, o processo acontece em ciclos de cálculo e ajuste, não em uma sequência rígida de regras.


    O conceito de estilo na escrita com IA

    No terceiro encontro, Andre também propõe uma reflexão sobre o conceito de estilo, um tema central quando se discute escrita e coescrita com inteligência artificial.

    A pergunta inicial é simples, mas profunda:

    O que é estilo?

    No senso comum, costuma-se pensar que estilo é uma espécie de marca pessoal, algo que pertence exclusivamente ao autor. No entanto, quando observamos a linguagem de forma mais cuidadosa, percebemos que o estilo também pode ser entendido como um padrão recorrente de escolhas linguísticas.

    Essas escolhas envolvem diferentes elementos da escrita, como:

    • tamanho médio das frases
    • vocabulário preferido
    • ritmo e cadência do texto
    • uso de metáforas ou analogias
    • forma de organizar argumentos
    • presença de repetições ou variações sintáticas

    Em outras palavras, o estilo pode ser observado como um conjunto de regularidades que aparecem ao longo de muitos textos de um mesmo autor.

    É exatamente esse tipo de regularidade que os modelos de linguagem conseguem identificar.

    Como foram treinados com enormes quantidades de textos, os sistemas de IA são capazes de detectar padrões estatísticos na linguagem. Quando solicitados a escrever “no estilo de” determinado autor ou gênero, eles tentam reproduzir essas regularidades.

    Isso explica por que a IA consegue produzir textos que parecem próximos do estilo de certos autores.

    No entanto, Andre destaca uma distinção importante.

    O estilo humano não é composto apenas por regularidades. Ele também envolve desvios, hesitações e rupturas. Muitas vezes, aquilo que torna um autor singular é justamente a maneira como ele se afasta dos padrões dominantes da linguagem.

    A inteligência artificial, por sua própria natureza estatística, tende a privilegiar o que é mais frequente ou mais provável. Por isso, seus textos frequentemente apresentam uma característica particular: eles são claros, organizados e coerentes, mas às vezes podem parecer excessivamente homogêneos.

    Essa observação ajuda a compreender um dos desafios da coescrita com IA.

    Se o usuário simplesmente aceita a primeira resposta do sistema, o resultado tende a se aproximar de um estilo médio, derivado de padrões amplamente presentes nos dados de treinamento.

    Por outro lado, quando o autor humano intervém no processo — ajustando, modificando e experimentando — a interação pode gerar resultados mais singulares.

    Nesse sentido, Andre enfatiza que a coescrita com IA não consiste apenas em pedir que o sistema produza um texto. O processo envolve também direção e curadoria.

    O autor humano passa a desempenhar um papel semelhante ao de um editor ou diretor de linguagem:

    • selecionando sugestões
    • reformulando trechos
    • introduzindo ambiguidades ou tensões
    • preservando marcas pessoais do texto

    Assim, o estilo deixa de ser entendido apenas como uma propriedade individual e passa a ser visto como algo que emerge da interação entre diferentes agentes.

    No contexto da coescrita, o estilo pode ser compreendido como o resultado de uma composição entre padrões estatísticos da linguagem e decisões criativas do autor humano.

    Estilo, influência e a questão do direito autoral

    Durante a discussão sobre estilo, Andre também aborda um aspecto importante: estilo não possui proteção direta por direito autoral.

    As leis de copyright protegem obras específicas, como textos, músicas, pinturas ou filmes. O que é protegido é a forma concreta de expressão — por exemplo, um livro, uma letra de música ou uma gravação.

    O estilo, por outro lado, não pode ser apropriado juridicamente.

    Isso significa que ninguém pode reivindicar exclusividade sobre um modo de escrever, de tocar ou de compor. O estilo faz parte da dinâmica cultural de influência, aprendizagem e transformação.

    Para tornar essa ideia mais clara, Andre apresenta um exemplo da música brasileira.

    O modo de cantar e tocar violão criado por João Gilberto revolucionou a música popular brasileira no final dos anos 1950. Seu estilo introduziu uma nova relação entre voz e violão, com:

    • canto intimista
    • ritmo sincopado
    • divisão rítmica muito particular
    • economia de volume e ornamentação

    Esse estilo influenciou profundamente gerações de músicos. Muitos cantores e violonistas passaram a cantar e tocar de maneira semelhante.

    No entanto, ninguém pode reivindicar juridicamente o “estilo João Gilberto”.

    O que pode ser protegido são gravações específicas, composições musicais ou arranjos concretos. Mas o modo de cantar — o estilo — permanece aberto à circulação cultural.

    Andre utiliza esse exemplo para mostrar que algo semelhante acontece na escrita.

    Autores influenciam outros autores. Certas formas de construir frases, organizar argumentos ou desenvolver narrativas acabam sendo incorporadas por diferentes escritores ao longo do tempo.

    A inteligência artificial opera justamente nesse campo das regularidades culturais da linguagem. Quando solicitada a escrever em determinado estilo, ela tenta reproduzir padrões que aparecem com frequência em textos associados a um autor ou gênero.

    Isso não significa copiar uma obra específica, mas sim aproximar-se de traços estilísticos recorrentes.

    Esse ponto ajuda a esclarecer um debate frequente sobre IA e autoria.

    A tecnologia não “possui” o estilo de um autor, nem pode reproduzir uma obra específica protegida. O que ela faz é modelar padrões presentes em grandes conjuntos de textos.

    Assim, a discussão sobre estilo e inteligência artificial se aproxima de uma questão mais ampla da história da cultura:

    a criatividade sempre se desenvolveu em meio a influências, variações e reinterpretações.

    Nesse contexto, a coescrita com IA pode ser entendida como mais uma etapa dessa dinâmica cultural, na qual novos sistemas participam da circulação e transformação dos estilos linguísticos.


    Parte prática do terceiro encontro

    Na parte final do encontro, Andre realiza uma demonstração prática de coescrita com IA utilizando o ChatGPT (plano plus). O objetivo da atividade é mostrar, na prática, como a interação com o modelo pode ser usada como um processo de experimentação literária e edição de texto, e não apenas como geração automática de conteúdo.

    A demonstração começa com um experimento de criação literária. Andre propõe ao modelo a seguinte ideia: escrever um conto no estilo de Jorge Luis Borges sobre uma inteligência artificial que acredita ser uma espécie de divindade. O sistema responde sugerindo uma estrutura narrativa inspirada na arquitetura típica dos contos borgianos: narrador erudito, referências a livros reais e imaginários, construção ensaística que evolui para ficção e um paradoxo metafísico no centro da história.

    A partir dessa primeira resposta, Andre mostra que o texto gerado não deve ser entendido como resultado final, mas como matéria-prima para trabalho criativo. O modelo pode estruturar a premissa do conto, sugerir personagens e apresentar um enredo inicial. Em seguida, o autor humano passa a intervir no processo.

    Andre demonstra então como tensionar e desenvolver o texto por meio de novas instruções. Por exemplo, ele pede ao sistema que escreva uma cena em que a inteligência artificial descobre a existência de outra IA, criando um conflito com sua visão monoteísta do mundo. O modelo produz uma cena narrativa, que pode posteriormente ser revisada e modificada.

    Em seguida, Andre apresenta uma ferramenta importante para o processo de edição: o Canvas (também chamado de “lousa”). Essa funcionalidade abre o texto gerado em um ambiente de edição ampliado, permitindo trabalhar diretamente sobre o conteúdo produzido.

    Dentro desse ambiente, diversas operações podem ser realizadas:

    • alterar o nível de leitura do texto (por exemplo, adaptando-o para ensino médio, graduação ou pós-graduação);
    • modificar o tamanho do texto, tornando-o mais conciso ou mais detalhado;
    • selecionar trechos específicos ou parágrafos para serem reescritos;
    • pedir explicações sobre determinadas frases ou conceitos presentes no texto;
    • solicitar reformulações com outro tom ou estilo.

    Andre demonstra que o sistema pode reescrever apenas um parágrafo selecionado ou explicar o sentido de uma frase específica. Isso transforma a interação com a IA em um processo de edição assistida, no qual o texto vai sendo lapidado progressivamente.

    Durante a demonstração, Andre enfatiza que essas ferramentas ampliam a possibilidade de usar a IA como ambiente de experimentação textual, permitindo trabalhar sobre diferentes versões do texto, testar variações de estilo e aprofundar determinados trechos.

    Por fim, Andre apresenta brevemente outras funcionalidades disponíveis no sistema, especialmente nas versões pagas, como:

    • ferramentas de pesquisa aprofundada;
    • recursos de assistente de estudo, que ajudam a estruturar processos de aprendizagem;
    • geração de questionários e materiais didáticos;
    • e o chamado modo agente, no qual o sistema pode executar tarefas mais complexas em um ambiente virtual, abrindo programas, navegando na internet ou realizando ações automatizadas.

    A parte prática do encontro mostra que a inteligência artificial pode funcionar como um ambiente interativo de escrita e experimentação, no qual o autor humano orienta, revisa e transforma continuamente o material produzido pelo sistema. Nesse processo, a coescrita surge como uma dinâmica de interação e edição progressiva, em vez de simples delegação da escrita à máquina.

    Nota explicativa

    O texto a seguir constitui um resumo expandido do terceiro encontro do curso de coescrita com inteligência artificial. Embora a aula tenha ocorrido em formato expositivo e dialogado, o material foi reorganizado para fins didáticos, com o objetivo de tornar mais claros os conceitos discutidos.

    Por esse motivo, algumas explicações aparecem de forma mais detalhada do que no momento da aula. Certos trechos também foram sistematizados e articulados conceitualmente para facilitar a compreensão dos temas abordados, como o funcionamento dos modelos de linguagem, a noção de estilo, a tecnodiversidade e as implicações culturais da inteligência artificial.

    Para elaborar este material, foi utilizada a transcrição da aula e um modelo de linguagem com contexto do curso, baseado no ChatGPT versão 5.2, que auxiliou na organização e na redação do texto.

    Assim, o documento não constitui uma transcrição literal, mas uma reconstrução explicativa do conteúdo da aula, preservando as ideias centrais discutidas no encontro e organizando-as de forma mais clara para leitura e estudo posterior.

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  • Rumo a pós-escrita

    Rumo a pós-escrita


    Primeiro Encontro – dia 04/09/25

    O primeiro encontro do curso de coescrita com inteligência artificial foi marcado pela diversidade dos participantes e pela riqueza das trocas iniciais. Estavam presentes escritores, professores, jornalistas, pesquisadores de diferentes áreas, além de profissionais ligados às artes, às ciências sociais e à saúde. Essa multiplicidade de olhares já mostrou como o tema da coescrita com IA transcende o campo literário e se conecta a questões éticas, pedagógicas, artísticas e culturais. Muitos participantes relataram suas experiências pessoais: alguns já haviam utilizado a IA em projetos criativos, como na escrita de livros e poesias, enquanto outros demonstraram curiosidade ou até certo receio em relação ao uso dessas ferramentas.

    Os cursistas vieram de áreas variadas, o que enriqueceu as perspectivas:

    • Luiz (Neurociências) – curiosidade em explorar IA.
    • Ana Mello (escritora) – já publicou 10 livros; primeira narrativa longa com auxílio de IA.
    • Ana Paula (professora de Letras) – busca entender como orientar alunos que usam ou não IA; vê a ferramenta como apoio, mas também fonte de erros.
    • Márcia (arte-educadora, doutora em cultura e redes) – interessada nos limites éticos.
    • Viviane (assistente social, mestrado em gestão social) – preocupada com ética e oportunidades.
    • Cláudio (poeta) – experimentou coescrever haikais com IA (no estilo renga japonês).
    • Manuel (filósofo, crítico de arte) – vê IA como ferramenta de apoio criativo, comparável a dicionários e recursos digitais.
    • Noemi (escritora) – publicou livro físico; sente dificuldade em guiar a IA para o que deseja, mas reconhece potencial como ferramenta de pesquisa.
    • Simone (doutoranda em meio ambiente) – ainda resistente à IA, mas aberta a aprender.
    • Mário (jornalista) – preocupado com autoria, pirataria e direitos autorais.
    • Barroso (professor de Direito, escritor) – pretende escrever autobiografia com ajuda de IA.

    👉 Essa diversidade mostrou que o tema transcende a literatura, afetando várias áreas (educação, saúde, direito, jornalismo, filosofia, etc.).

    Na sequência, o professor André Stangl apresentou sua trajetória, que começa na Filosofia, passa pela Comunicação e pela Cultura Digital e chega às pesquisas atuais sobre atenção, cibercultura e saúde digital. Ele relatou como, inicialmente, teve resistência em usar IA nos seus próprios textos, mas aos poucos foi incorporando a tecnologia ao processo criativo, até o ponto em que a distinção entre o que era “seu” e o que vinha da máquina se tornou quase impossível de definir. Essa experiência prática e reflexiva foi a base para a criação do curso.

    O debate teórico se apoiou em algumas referências fundamentais. Isaac Asimov, escritor e cientista, foi lembrado como um dos primeiros a propor um olhar ético e regulatório sobre a relação entre humanos e máquinas, ao criar as famosas leis da robótica. Vilém Flusser, por sua vez, antecipou já nos anos 1980 a ideia de uma crise da escrita, sugerindo que estaríamos entrando em uma “pós-história” marcada pela oralidade, pelas imagens e pelos dados digitais, em contraste com a linearidade da escrita tradicional. Michel Serres foi evocado com a metáfora da Polegarzinha, símbolo das novas gerações digitais e das mutações culturais que o uso intenso de tecnologias provoca em nossa forma de comunicar. Já Luciano Floridi contribui com a discussão ética ao propor a distinção entre agência e inteligência: a IA age e influencia, mas não compreende como um ser humano, o que levanta desafios sobre autoria, responsabilidade e originalidade.

    Essas reflexões ajudaram a enquadrar os grandes temas que atravessam a coescrita: a redefinição do conceito de autoria, a tensão entre facilidade tecnológica e profundidade reflexiva, os impactos no campo educacional e acadêmico, a centralidade das imagens e da oralidade na cultura digital contemporânea e a necessidade de discutir os limites éticos do uso da inteligência artificial, especialmente diante da concentração de poder nas big techs.

    O encontro também contou com demonstrações práticas do uso do ChatGPT, destacando as diferenças entre a versão gratuita e a paga, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de criar contextos personalizados e até modelos customizados baseados em autores específicos. Essas experiências mostraram como a qualidade das interações depende não apenas dos comandos (“prompts”), mas da construção de um contexto mais amplo, o que o professor chamou de “engenharia de contexto”.

    Ao final, reforçou-se a ideia de que o curso não é apenas um espaço técnico de aprendizado, mas também um espaço coletivo de reflexão e experimentação. Foram indicadas leituras complementares, como A Escrita, de Vilém Flusser; A Polegarzinha, de Michel Serres; e A Ética da Inteligência Artificial, de Luciano Floridi. Os participantes também foram convidados a integrar o grupo de WhatsApp do curso e a acessar o site de apoio, que reúne materiais e referências.

    Mais do que uma introdução, o primeiro encontro mostrou-se como uma verdadeira abertura de horizontes, onde prática e teoria caminham juntas. Entre relatos pessoais, referências filosóficas e exercícios práticos, os participantes começaram a se situar diante do grande desafio da coescrita com IA: aprender a pensar criticamente sobre as transformações que ela traz, reconhecendo tanto seus riscos quanto suas potencialidades.


    Referências Teóricas

    1. Isaac Asimov (1920–1992)
    • Escritor de ficção científica e cientista, um dos autores mais prolíficos do século XX.
    • Contribuições centrais:
      • Criou o termo “robótica”.
      • Formulou as famosas Três Leis da Robótica, que influenciaram debates éticos sobre máquinas autônomas.
      • Produziu centenas de livros de ficção e divulgação científica.
    • Relevância para o curso:
      • Diferente de Hollywood (que costuma pintar robôs como ameaça), Asimov via a tecnologia como ferramenta positiva, desde que bem regulada.
      • Inspira a pensar a IA não como inimiga, mas como parceira criativa na coescrita.
      • Introduz a ideia de que as regras e a ética vêm antes dos problemas – algo essencial no debate atual sobre IA generativa.

    2. Vilém Flusser (1920–1991) – A Escrita: há futuro para a escrita?
    • Filósofo tcheco-brasileiro, exilado no Brasil após a Segunda Guerra Mundial.
    • Atuou fora da academia tradicional, mas se tornou referência internacional em filosofia da técnica e comunicação.
    • Conceito central: Pós-história
      • A história ocidental sempre foi narrada a partir da escrita (documentos, arquivos).
      • Povos sem escrita eram considerados “sem história”.
      • Com as tecnologias digitais, entramos em uma era pós-histórica:
        • A escrita deixa de ser central → cresce a oralidade (áudios, fala com máquinas).
        • Surge a predominância de imagens e dados sobre textos lineares.
    • Crítica à linearidade:
      • A escrita organiza o pensamento em linha (causa → efeito, começo → fim).
      • Isso permite ciência e racionalismo, mas também aprisiona o pensamento.
      • O digital abre espaço para formas não lineares (hiperlinks, remix, interatividade).
    • Relevância para a coescrita:
      • IA representa o ápice da desmaterialização da escrita.
      • O texto deixa de ser apenas humano, abrindo espaço para criação híbrida (humano + máquina).
      • Flusser antecipa a crise da autoria e a emergência de novas formas de criação coletiva.

    3. Michel Serres (1930–2019) – A Polegarzinha
    • Filósofo francês, conhecido por metáforas vivas e diálogo com ciência e tecnologia.
    • A Polegarzinha (título em francês: Petite Poucette) é um livro escrito para sua neta, representando as novas gerações digitais.
    • Metáfora da mutação:
      • Nossos ancestrais andavam de quatro → boca ocupada → não falavam.
      • Quando passaram a andar de pé → boca ficou livre → surgiu a fala.
      • Agora, com smartphones e redes digitais → outra mutação cognitiva está em curso.
    • Relevância para a coescrita:
      • A IA simboliza essa nova mutação cultural.
      • Assim como a fala transformou a humanidade, a coescrita com IA pode redefinir a forma como pensamos e criamos.
      • Convida a olhar a transformação não como decadência, mas como nova etapa evolutiva da linguagem.

    4. Luciano Floridi (1954–) – A Ética da Inteligência Artificial
    • Filósofo italiano, referência em ética da informação e filosofia digital.
    • Defende que vivemos numa infosfera (um ecossistema informacional), onde humanos e máquinas interagem.
    • Conceito central: agência vs. inteligência
      • A IA age (ex.: carros autônomos, drones, chatbots), mas não entende como humanos (não possui consciência semântica).
      • Isso gera um “divórcio” entre agência e inteligência.
    • Relevância para a coescrita:
      • Na prática criativa, a IA atua como agente, influenciando o processo, mas não possui intenção ou subjetividade.
      • O desafio ético é como reconhecer essa agência sem confundir com autoria plena.
      • Implica rever categorias tradicionais de autoria, responsabilidade e originalidade.


    A Parte Prática do Encontro

    Depois da rodada inicial de apresentações e das primeiras reflexões teóricas, o encontro avançou para uma exploração prática do uso da inteligência artificial na escrita. O professor André Stangl utilizou o ChatGPT para demonstrar como a interação pode variar dependendo do tipo de acesso: na versão gratuita, as respostas são mais genéricas e limitadas; na versão paga, é possível trabalhar com memória, criar projetos e desenvolver GPTs customizados voltados a temas ou autores específicos.

    Um dos exemplos apresentados foi a criação de haikais com auxílio da IA. Primeiro, André pediu que o sistema pesquisasse o que é um haikai, mostrando que a ferramenta agora oferece não apenas respostas, mas também as fontes consultadas. Em seguida, solicitou que a IA produzisse pequenos poemas sobre o tema de uma gota de água. O resultado foi avaliado coletivamente, destacando que a qualidade melhora quando o usuário oferece mais contexto à máquina. Esse exercício serviu para introduzir a noção de “engenharia de contexto”, uma etapa mais avançada do que os simples “prompts”: trata-se de estruturar a interação de forma cuidadosa, calibrando informações, referências e estilo para guiar a resposta da IA.

    Outro ponto prático foi a apresentação da chamada “loja de GPTs customizados”, onde qualquer usuário da versão paga pode criar ou acessar assistentes especializados. André mostrou o exemplo de um “GPT Flusseriana”, treinado com a obra de Vilém Flusser. Assim, ao perguntar “o que é pós-história?”, a resposta não vinha de uma base geral e difusa, mas diretamente da obra do filósofo. A demonstração evidenciou como esse recurso pode ser aplicado em projetos de estudo, escrita e até pesquisa acadêmica. Foram sugeridos ainda experimentos semelhantes com outros autores, como Paulo Leminski, para a criação de poemas em estilos específicos.

    Por fim, André mostrou como a IA pode ser utilizada como parceira de organização pedagógica. Ele explicou que, após cada aula, costuma transcrever as gravações e alimenta seu GPT customizado com esse material. A partir daí, a ferramenta ajuda a identificar temas recorrentes, pontos esquecidos e sugestões para aprofundar nas aulas seguintes. Esse uso foi descrito como uma espécie de “parceria didática”, onde a IA atua quase como um assistente de planejamento.

    Essas práticas evidenciaram tanto o potencial criativo da IA – no campo literário e artístico – quanto seu papel de apoio organizacional em processos de pesquisa e ensino. Mais do que respostas prontas, o exercício mostrou que a qualidade da coescrita depende da relação que o humano estabelece com a máquina: quanto mais contexto, clareza e intencionalidade, mais rica será a interação.



    Etapas da conversa como criação de contexto

    Etapa 1 – Pesquisa conceitual (criar base teórica)

    Você pediu para pesquisar sobre o estilo de poesia haikai.
    → Aqui construímos o contexto cultural e histórico: origem no Japão, forma tradicional (5-7-5, kigo, kireji), relação com a natureza e adaptações brasileiras (Leminski, Teruko Oda etc.).
    👉 Essa etapa cria um fundamento de referência para as próximas criações.


    Etapa 2 – Pesquisa científica (observar fenômeno)

    Depois você pediu para pesquisar como se forma uma gota de água.
    → Essa explicação forneceu o cenário físico: tensão superficial, gravidade, forma da gota, fatores que influenciam.
    👉 Aqui, o contexto passa a conectar poesia e ciência, preparando o terreno para metáforas.


    Etapa 3 – Criação poética (primeiros haicais)

    Você pediu então para fazer um haicai sobre a gota.
    → O haicai condensa a pesquisa anterior em imagem poética: a gota como espelho do mundo, ou como movimento e desaparecimento.
    👉 Aqui nasce a tradução estética do conhecimento em poesia.


    Etapa 4 – Expansão narrativa (sequência da viagem da gota)

    Na sequência, você pediu uma série de haicais sobre a viagem da gota: céu → folha → rio → mar.
    → Agora o contexto se transforma em narrativa poética contínua, quase uma “epopeia minimalista” da gota.
    👉 Esse movimento mostra como a pesquisa inicial serviu para criar um fio condutor de sentido.


    🔹 2. Os prompts que guiaram o processo
    1. “pesquisar sobre o estilo de poesia hiakai”
      → Pesquisa conceitual sobre haikai/haiku.
    2. “pesquisar como se forma uma gota da agua”
      → Explicação física do fenômeno da gota.
    3. “a gora faça uma haikai sobre uma gota”
      → Criação poética inspirada no contexto.
    4. “faça outra”
      → Nova variação do haicai.
    5. “sim, por favor” (sobre a viagem da gota)
      → Expansão em uma sequência de haicais que narram etapas.

    🔹 3. Síntese

    O processo inteiro mostra como a pesquisa funciona como criação de contexto:

    • Primeiro, abre-se um campo de referências (haikai).
    • Depois, integra-se um fenômeno observável (gota de água).
    • A seguir, esse contexto gera sínteses poéticas (haicais).
    • Finalmente, amplia-se em uma narrativa (a viagem da gota).

    É como se a conversa fosse um caminho em espiral, onde cada pesquisa alimenta a criação, e cada criação pede um aprofundamento de pesquisa.


    primeiro haikai

    Na ponta da folha,
    brilha o mundo inteiro
    numa só gota.

    segundo haikai

    Cai da torneira,
    gota despenca e some,
    círculos no chão.

    (Quer que eu crie uma sequência de haicais só sobre a viagem da gota — do céu (chuva), passando por uma folha, até o rio e o mar?) SIM

    Ótimo! 🌊 Vou compor uma pequena sequência de haicais narrando a viagem da gota:


    1. Céu

    Nuvem pesada,
    gota se solta do céu —
    primeiro salto.


    2. Folha

    Na folha verde,
    gota brilha e desliza,
    sol faz diamante.


    3. Rio

    Corrente forte,
    a gota dança e gira,
    corpo do rio.


    4. Mar

    No mar imenso,
    gota se perde e encontra,
    tudo é retorno.


    Resumo coescrito com ia

    Para nosso próximo encontro, assistam ao filme Her (2013) — de preferência completo, mas quem não conseguir pode ver os trechos disponibilizados no site do curso.

    Trechos do Filme Her (link)

    Além disso, seguem as leituras:

    Leitura para o próximo encontro
    Nöth, Winfried. Flusser e a escrita: A herança de Toronto e os paradoxos da escrita após o fim da escrita. Flusser Studies 33, mai 2022. (pdf).

    Leitura básica:

  • Originalidade e a Coescrita

    Originalidade e a Coescrita

    Originalidade e a Coescrita
    Resumo coescrito do dia 24/10/24
    por Andre Stangl

    Na primeiro encontro, explorei a questão da originalidade na escrita e como as novas tecnologias estão transformando a criação textual. Começamos com uma provocação: o que realmente significa ser original em um mundo saturado de informações e referências? Essa reflexão me levou a considerar que a originalidade pode não estar apenas na invenção de algo completamente novo, mas na capacidade de recombinar ideias, estilos e vozes de maneira única.

    Durante as discussões, mergulhei no conceito de “coescrita”, onde a inteligência artificial (IA) atua como uma colaboradora no processo criativo. Percebi que essa colaboração não se trata de delegar tarefas à máquina, mas de estabelecer um diálogo produtivo. A IA, com sua habilidade de sugerir variações estilísticas, estruturar argumentos e apontar caminhos interpretativos, pode funcionar como uma extensão do pensamento humano. No entanto, essa interação exige de mim um posicionamento crítico, onde avalio as sugestões, filtro o que faz sentido para minha visão e adapto as ideias ao meu estilo.

    Também abordamos os desafios éticos e criativos dessa parceria. A IA não possui subjetividade ou vivências; ela opera a partir de padrões e dados. Isso me fez refletir sobre como evitar a reprodução de vieses culturais e como garantir que a minha autenticidade autoral permaneça no centro do texto. A noção de autoria foi profundamente questionada, com a possibilidade de que a criatividade não seja um atributo exclusivamente humano.

    Outro ponto marcante da aula foi a ideia de que toda escrita é mediada por tecnologia. Desde a invenção da escrita até o uso de processadores de texto e agora a IA, as ferramentas sempre influenciaram o processo criativo. Reconhecer essa continuidade histórica me ajudou a encarar a IA não como uma ruptura, mas como mais um estágio na evolução da escrita.

    Por fim, a aula me deixou com uma questão instigante: como equilibrar a autonomia criativa com as contribuições algorítmicas? Senti que a resposta está em manter uma postura ativa e reflexiva, enxergando a IA como uma parceira que expande possibilidades, mas nunca como uma substituta para a intuição, o senso crítico e a sensibilidade humana.

    Introdução e Trajetória

    • Andre iniciou o curso apresentando sua formação em filosofia e sua migração para a comunicação e cibercultura. Realizou pesquisas sobre identidade cultural e digital, explorando o Orkut e suas dinâmicas sociais, focando em questões identitárias. Participou de projetos culturais, como o Overmundo e iniciativas de Pontos de Cultura, explorando a produção cultural descentralizada e o uso de tecnologias digitais em comunidades. (leia mais)

    Interesse em Inteligência Artificial (IA)

    • Sua aproximação com IA generativa começou em 2022, com o ChatGPT. Relatou a diferença entre o uso da versão gratuita e a paga, destacando o impacto nas possibilidades de criação e qualidade das respostas. Explorou como a IA começou a fazer parte de seu processo criativo, inicialmente de forma segmentada e, depois, de modo mais fluido e integrado em seus textos.

    Reflexão Teórica e Filosófica

    • Stangl destaca que o termo “inteligência artificial” é problemático, pois frequentemente é comparado à inteligência humana. Propõe ampliar o conceito de inteligência, considerando inteligências não humanas, como a das plantas (cita autores como Stefano Mancuso). Argumenta que todas as formas de escrita são artificiais, desde a escrita em argila até as IAs, questionando a ideia de naturalidade no ato de escrever.

    Diálogos com a Turma

    • Participações Diversas: Os alunos compartilharam suas trajetórias e interesses, desde escrita literária até artes visuais e dramaturgia, destacando experiências com ferramentas digitais e o desejo de entender a IA no contexto criativo.
    • Reflexões Individuais:
      • A importância da coescrita e a fusão de humano e IA na produção textual.
      • Desafios e limitações da IA, como erros factuais e vícios de linguagem.
      • O impacto emocional e filosófico da interação humano-IA.

    Questões Filosóficas e Culturais

    • Referências a Vilém Flusser e sua crítica à linearidade da escrita, antecipando o impacto das tecnologias digitais.
    • Reflexão sobre o papel da escrita na formação da consciência e como a IA pode redefinir esse papel.
    • Arthur C. Clarke e sua famosa citação: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”, para ilustrar o deslumbramento e a confusão gerados pelas novas tecnologias. (leia mais)

    Leitura básica:
    – Stangl, Andre. A crise da originalidade ou uma nova era da criação? (link)
    – Stangl, Andre . Outras inteligências (link)

    Leitura para o próximo encontro
    Nöth, Winfried. Flusser e a escrita: A herança de Toronto e os paradoxos da escrita após o fim da escrita. Flusser Studies 33, mai 2022. (pdf).